Pense Como um Artista Resumo - Will Gompertz

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Pense Como um Artista

Pense Como um Artista Resumo
Autoajuda & Motivação

Este microbook é uma resenha crítica da obra: Think Like an Artist (… and Lead a More Creative, Productive Life)

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 978-8537815151

Resumo

Criatividade é um dom ou algo que pode ser desenvolvido? O presente livro mostra como podemos instigar nossa criatividade e nos tornarmos pessoas criativas através de um passo a passo programado. Políticos, pensadores, acadêmicos ou qualquer tipo de profissional - a criatividade de cada um poderá ser desenvolvida e treinada como um músculo, seguindo as dicas deste livro.

Quer transformar sua vida e passar a pensar mais criativamente? Esse livro vai te ajudar! Leia-o enquanto num momento de estudo ou concentração.

Will Gompertz é um editor de Artes para a BBC, além de ser editor de livros e autor da presente obra. Gompertz escreveu para diversos jornais como The Guardian e the Times, além de ter sido o diretor da Tate Media. Um homem de muito conhecimento no universo criativo e que pode te ajudar a se tornar uma pessoa mais inventiva nos próximos 12 minutos.

Os artistas são empreendedores

Há diversos mitos em que gostamos de acreditar no que se refere aos artistas. Temos uma visão romântica dos pintores e escultores. Para nós, eles representam um ideal.

Enquanto vivemos fatigados fazendo coisas que na verdade não queremos fazer, para colocar comida na mesa ou porque sentimos que é conveniente, os artistas parecem não fazer tais concessões.

Porém, na realidade, eles não são mais corajosos, nobres ou determinados do que os fazendeiros que percorrem distâncias extremas, em condições climáticas adversas, para proteger seu rebanho.

Ou um dono de restaurante que, tendo se despedido do último cliente à meia-noite, salta da cama às quatro da manhã no dia seguinte para chegar ao mercado em tempo de encontrar os melhores produtos.

Theaster Gates

O artista norte-americano Theaster Gates recebeu o prêmio anual da organização Artes Mundi, sediada em Cardiff, no País de Gales, em 2015. Além dos aplausos e da cobertura da imprensa, Theaster foi presenteado com um cheque de 40 mil libras, que prontamente decidiu dividir com os outros finalistas do prêmio.

Foi um gesto bastante incomum e generoso. Mas esse artista de 41 anos de idade é bastante incomum e generoso. É uma mistura de escultor, empreendedor e ativista social. Ele nasceu e cresceu em Chicago, onde ainda vive, no bairro de South Side.

Ele descreve sua vizinhança como “o fundo do poço”: um lugar de onde as pessoas partem, em vez de chegar.

Nos fins de semana, ele costumava levar seus potes e jarros para vender nos mercados de rua, mas o atendimento nas barracas começou a frustrá-lo. Theaster deixou de ir aos mercados e, em lugar disso, decidiu experimentar o ar rarefeito do mundo da arte.

Em 2007, organizou uma exposição das suas cerâmicas no Hyde Park Art Center de Chicago, à qual acrescentou uma pequena distorção. Ele apresentou o trabalho não como se fosse de sua autoria, mas de um ceramista oriental chamado Shoji Yamaguchi, que, fato então desconhecido de todos, na verdade nunca existiu.

Para convencer os visitantes de que os pratos e tigelas mostrados ali eram feitos não por um afro-americano local de meia-idade, mas por um exótico mestre japonês, Theaster concebeu uma elaborada história de fundo para o imaginário senhor Yamaguchi.

Contava que o ceramista havia chegado aos Estados Unidos nos anos 1950, atraído pela maravilhosa argila do Mississippi, e acabara ficando por lá, tendo se casado com uma mulher negra. Em 1991, o já idoso senhor Yamaguchi levara a esposa ao Japão para que conhecesse o lugar onde nascera.

A viagem havia terminado em tragédia, com ambos mortos num acidente de automóvel. O público gostou da exposição; ficaram admirados com Shoji Yamaguchi.  Mas isso não foi nada comparado à força da reação que ocorreu algum tempo depois, quando foi revelada a trapaça. O mundo da arte exultou.

O que ele realizou desde então, depois de ter alavancado sua posição como artista, é impressionante e inspirador. Ele mobilizou seu profundo conhecimento e paixão pelo ambiente construído local, os valores religiosos dos pais e sua notável capacidade intelectual e artística.

A essa mistura potente, somou-se ainda um dom natural para a retórica, instinto de negociante e um fervor de missionário. Assim, ele se tornou um empreendedor cultural: um artista que está usando sua posição para melhorar o bairro em que vive.

Ele reinveste o dinheiro que recebe na renovação dos imóveis de onde seus materiais são retirados. E faz isso com o tipo de amor e carinho que visivelmente estavam faltando nas propriedades onde os encontrou originalmente. O deteriorado se torna belo.  

Sabemos que o mundo da arte é um negócio, mas é raro que um artista o admita e vá além, especulando abertamente sobre o assunto.  Ele hoje é proprietário de algumas ruas, alguns imóveis extravagantes e um enorme ateliê que produz mobiliário e acessórios para cada edifício que ele renova.

Será que ele é hoje um promotor imobiliário atuando como artista ou um artista atuando como promotor imobiliário? Não importa, na verdade. Se ele ficar rico por meio da requalificação do seu bairro, por personificar todo um esquema de regeneração urbana – então boa sorte para ele.

O que importa é o tanto que conseguiu conquistar em nome da arte. Afinal, ele está apresentando um modelo econômico novo e radical simplesmente pelo fato de pensar como um artista.

Os artistas não fracassam

O fracasso é algo que realmente acontece com todos nós, e que preferíamos que não tivesse acontecido. Trata-se de uma experiência embaraçosa, debilitante e profundamente desagradável.

Fracassar não é o mesmo que cometer um erro, embora um erro possa levar ao que à primeira vista pode parecer um fracasso. Não se trata necessariamente de estar errado. Nós aprendemos com nossos erros e cometendo erros, mas não sabemos ao certo se aprendemos quando sentimos ter fracassado.

Isso porque nem sempre é óbvio para nós quando exatamente falhamos, ou qual foi nossa responsabilidade por isso. A palavra parece tão categórica e absoluta, e ainda assim é supreendentemente maleável: o fracasso é subjetivo, marginal e volátil.

Quando se trata de criatividade, porém, o fracasso é inevitável. Não é sempre que percebemos que vivenciar uma grande decepção criativa é normal e algo necessário, e não um claro sinal de que devemos desistir.

Há uma tentação de acreditar que esse é o momento em que falhamos, em vez de    enxergá-lo apenas como uma das partes menos prazerosas do processo criativo. Os artistas em geral não pensam assim.

Um escultor talha uma pedra até que finalmente uma forma é revelada. Será que o golpe certo do cinzel, que conclui o trabalho, é o único? Todos os milhares de incisões anteriores são falhos? Claro que não! Cada incisão leva à próxima.

Os artistas parecem sempre elegantes e abençoadamente desapegados, mas, na verdade trabalham de maneira incansável: são como os cães, que permanecem roendo o osso quando a maioria de nós já desistiu e foi para casa.

David Ogilvy

Quando abriu sua agência de publicidade, David Ogilvy estava desempregado. Não tinha clientes nem credenciais, e absolutamente nenhuma experiência em produzir anúncios publicitários.

Tinha 6 mil dólares em economias, mas isso era nada para competir com as grandes agências estabelecidas em Nova York. Contudo, em pouco tempo a agência de Ogilvy tornou-se a sensação da cidade.

Sua carteira de clientes parecia um catálogo das empresas mais cotadas no mercado mundial: Rolls-Royce, Guinness, Schweppes, American Express, IBM, Shell e a fabricante de sopas Campbell’s. Aos quais foram acrescentados os governos dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha, de Porto Rico e da França.

Como ele conseguiu tudo isso? Seu impulso inicial, segundo conta em autobiografia, surgiu da lembrança de como seu pai havia fracassado como fazendeiro e se tornara um empresário bem-sucedido.

David Ogilvy abandonou a Universidade de Oxford antes de se formar. Foi trabalhar na cozinha de um grande hotel parisiense. Voltou em seguida para a Inglaterra e trabalhou por um período vendendo fogões de porta em porta.

Depois disso partiu novamente, dessa vez para os Estados Unidos, onde conseguiu um emprego miseravelmente pago, mas enriquecedor como experiência, com o famoso Dr. George Gallup, perito em pesquisas de mercado.

Durante a Segunda Guerra, foi trabalhar no Serviço de Inteligência Britânico, sediado na embaixada britânica em Washington. Depois disso, seguiu-se o trabalho como agricultor no condado de Lancaster, Pensilvânia, onde morou com sua família numa comunidade Amish, tomando conta de uma pequena chácara.

De todas essas experiências, foram os períodos que passou na cozinha francesa, com George Gallup e entre os Amish que mais contribuíram para moldar seu caráter.

Tinha aprendido a arte da comunicação eficaz com as vendas de fogões e o valor da precisão da linguagem com as mensagens codificadas que enviava durante a Segunda Guerra.

Sabia que o trabalho árduo era o herói não celebrado de qualquer processo criativo. Seu passado tornou seu futuro possível: não havia fracassos, apenas etapas essenciais.

A voz singular que ele desenvolveu para seu trabalho foi moldada nessas duas décadas de supostos fracassos, quando viveu saltando de emprego em emprego e de carreira em carreira.

E, quando surgiu a sua oportunidade, teve confiança suficiente para se sustentar. Não recuou, como muitos de nós fariam depois de anos de inconstância e perambulação. Não se sentiu diminuído por se achar muito velho ou inexperiente. Não teve medo de fracassar.

Foi ousado e astuto. Avaliou que suas experiências, embora não convencionais, poderiam servir para o mundo da publicidade. Essa foi a sua Grande Ideia, que exprimiu no campo da publicidade, mas que poderia igualmente ser aplicada a qualquer empreendimento criativo.

Sim, os artistas fracassam. Todos nós fracassamos. Mas apenas no sentido mais superficial, de que nem tudo que tentamos fazer resulta do modo como esperávamos.

Essas situações não constituem verdadeiros fracassos, já que por meio da persistência e da dedicação alcançaremos um ponto de clareza que somente se tornará acessível devido a todos aqueles supostos “fracassos”.

Os artistas são curiosos de verdade

Se a necessidade é a mãe da invenção, a curiosidade é o pai. Afinal de contas, você não pode produzir algo interessante se não estiver interessado em algo. Todo produto precisa de um insumo. No entanto, a curiosidade também precisa de uma motivação, um gatilho para estimular a mente.

Não importa que seja botânica ou percussão, desde que o cérebro esteja concentrado. Não nenhum um artista que não seja, também, um entusiasmado estudante de arte, ou que não goste de visitar exposições, conhecer o trabalho de seus colegas, ou não leia prodigiosamente sobre o assunto.

A paixão ou o entusiasmo é o estímulo que nos faz querer saber mais. Em geral é uma estrada difícil, cheia de obstáculos e frustrações, mas com a vantagem de estar aberta a todos.

Pense nas incontáveis histórias de crianças desobedientes ou desestimuladas na escola, que caminhavam para uma existência medíocre e desordenada, quando subitamente suas vidas ganharam propósito e significado depois que entraram para uma banda, ou começaram a atuar, ou a aprender marcenaria.

A lista de pessoas criativas famosas que vagavam sem objetivo até encontrarem um foco para seus talentos é tão longa quanto animadora: John Lennon, Oprah Winfrey, Steve Jobs e Walt Disney vêm à mente de imediato.

Em todos os exemplos, ocorreu um profundo envolvimento pessoal com um campo de atividade específico que levou a algo próximo de uma epifania.

Caravaggio

Basta apenas observar uma figura como Caravaggio para perceber que nem sempre é fácil lidar com um indivíduo criativo e passional. Eis um artista altamente emocional que viveu intensamente e morreu jovem. Mas em seu pouco tempo de vida ofereceu ao mundo uma lição de mestre na arte da inovação.

Como indivíduo, ele tinha suas falhas. Na maioria das noites, podia ser encontrado estendido nas sarjetas pútridas de Roma, deitado sobre o próprio vômito e sangue, depois de ter bebido e brigado muito.

Eis o Caravaggio folclórico: um desordeiro temperamental que por acaso era bom em pintura. Todavia, a razão pela qual a arte de Caravaggio tem emocionado milhões de pessoas durante séculos não é o fato de que ele era mau, e sim de que era extremamente bom.

Ele foi o maior artista de sua época por meio da via criativa convencional. Caravaggio, de certo modo, encarnava todos os elementos essenciais de um artista:

  • paixão: tendo ficado órfão quando adolescente, tornou-se aprendiz de pintura no ateliê de Simone Peterzano, um artista competente, mas longe de brilhante, Caravaggio trabalhou arduamente, desenvolveu suas habilidades básicas e dedicou-se a descobrir o que fazia os antigos mestres tão especiais;
  • interesse: ele aprendeu as sutilezas da composição estudando as pinturas de Giorgione e a maneira de modelar a forma humana com as obras de Da Vinci;
  • curiosidade: a ótica era para a sociedade da época o que hoje o universo digital é para nós. Intrigado, mergulhou na tarefa de aprender tudo o que podia sobre as diferentes lentes e qual era seu potencial quando aplicadas a sua arte;
  • inspiração: seu objetivo artístico era fazer pinturas tão chocantemente realistas quanto as produzidas por seus pares eram insípidas e artificiais;
  • experimentação: usando o conhecimento que adquirira com os artifícios óticos, ele simplesmente colocou um espelho a sua esquerda, montou o cavalete, preparou a tela, olhou para o espelho e lá estava diante dele um modelo que não lhe custaria um centavo: um belo italiano de 21 anos chamado Caravaggio;
  • inovação: terá havido algum dia um artista mais passional que Caravaggio? Certamente não. Isso deu a ele força e propósito para conseguir desafiar a ortodoxia na mais ortodoxa de todas as épocas.
  • realização do conceito:  seu facilitador criativo veio na aristocrática forma do cardeal Francesco Maria del Monte, um bem-relacionado amante da arte, proprietário de um enorme palácio em Roma. O cardeal imediatamente afeiçoou-se ao incivilizado Caravaggio e a suas inovações engenhosas.

Os artistas roubam

Ondas de inspiração acontecem, mas somente porque preparamos nosso inconsciente para produzi-las. As ideias emergem de um modo específico de pensar. Elas surgem quando incentivamos nosso cérebro a combinar dois elementos aparentemente aleatórios em uma nova configuração, por meio da fusão entre ruptura e aplicação.

É assim que as ideias são geradas. Combinações incomuns, a mistura do novo com o velho, estimulam ideias originais, isto é, ideias que têm origens. Sem dúvida, isso não significa necessariamente que a ideia seja boa ou valiosa.

Só uma coisa é certa: ninguém mais poderia fazer as mesmas conexões da mesma maneira; o que concebemos é unicamente nosso.

Muitas vezes, o “novo” elemento nas grandes ideias surge na forma de uma ruptura. Por exemplo, readapte a antiga ideia de enciclopédia à era da internet e, pronto! Você tem a Wikipédia. O mesmo se aplica à ruptura social: o que antes era proibido passa a ser permitido.

Em outras palavras, a criatividade é a apresentação de elementos e ideias preexistentes filtradas pelas percepções e sentimentos de um indivíduo. Apropriar-se de ideias experimentadas por outros é o lugar óbvio e inevitável para começar alguma coisa.

A extensa lista de gênios criativos que confessam furto de propriedade intelectual inclui Isaac Newton, que disse: “se consegui ver mais longe, foi porque subi nos ombros de gigantes”, e Albert Einstein, que comentou que “a criatividade é saber como esconder suas fontes”.

A razão de esses nobres indivíduos serem tão devotados a creditar outras pessoas não se deve à falsa modéstia, ou falta de autoconfiança, mas ao fato de ser terrivelmente importante para eles que nós soubéssemos. Todos esses homens eram brilhantes, mas talvez não totalmente diferentes de nós.

Eles sabiam que a originalidade em forma completamente pura não existe. Qualquer pessoa envolvida em uma ocupação criativa começa copiando, seja um bailarino ou um engenheiro estrutural.

É um período de transição, uma ocasião para aprender corretamente os princípios básicos, desenvolver técnicas específicas, entender as complexidades de um meio, com a esperança de reconhecer onde estão as oportunidades para acrescentar seu próprio elo à corrente.

Observe o trabalho inicial de qualquer artista e você verá um imitador que ainda não encontrou sua própria voz. Precisamos entender bem a diferença entre copiar e roubar.

Copiar requer alguma habilidade, mas zero de imaginação. Nenhuma criatividade é exigida, e é por isso que as máquinas são tão boas nisso. Roubar é algo totalmente diferente.  Roubar é possuir.

Tomar posse de algo é um empreendimento muito maior, pois o item adquirido passa a ser responsabilidade sua: o futuro dele está em suas mãos. Pense, por exemplo, num carro roubado. O ladrão inevitavelmente irá levá-lo para uma direção diferente daquela pretendida por seu proprietário anterior.

O mesmo se aplica às ideias.

E se porventura as ideias em questão estiverem em posse de alguém tão destemido, prolífico e engenhoso como Picasso, são grandes as chances de que elas façam um passeio e tanto.

Os artistas são céticos

A despeito da forma que assume, a criatividade só pode começar em um lugar.

Não importa se o seu plano é fazer um bolo de aniversário ou projetar um novo e sofisticado software, só há uma maneira possível de iniciar o processo criativo, que é fazer uma pergunta. Que ingredientes devo usar? Como posso tornar a interface mais intuitiva?

A questão fica, então, estacionada em nosso inconsciente, onde permanece até que um gatilho aparentemente aleatório fornece a faísca que conecta milhões de neurônios no cérebro, e nesse instante surge uma resposta totalmente formada, como por magia.

É bem possível que você esteja no banho quando isso acontecer. O processo vivenciado por J.J. Abrams, cultuado diretor da série de filmes Jornada nas estrelas é um exemplo paradigmático.

Quando perguntado se ele se tinha ficado preocupado em não atender às expectativas de todos os milhões de devotados fãs do seriado de TV, Abrams respondeu sem hesitação: “nem um pouco”.

Ele estava empregando um sistema de lógica para aperfeiçoar e provar conceitos que existem há milhares de anos. Ou seja, não estava interessado em tentar imaginar a opinião daqueles milhões de fãs.

Não porque estivesse sendo arrogante ou não se importasse, pelo contrário. Queria dar a eles seu melhor empenho artístico. E isso significava assumir a responsabilidade por pensar cuidadosamente toda e qualquer ação.

A criatividade não tem a ver com o que os outros pensam, e sim com o que você, o criador, pensa. Esse nível de ceticismo acarreta uma responsabilidade que, de tão intensa, pode vir a ser dolorosa.

Há, no entanto, alguns ganhos para compensar a dor. As decisões têm a validade de ser escolhas conscientes derivadas de uma investigação rigorosa. E isso dá à obra autoridade e vigor perceptíveis. O zelo se propaga.

Os artistas pensam no contexto mais amplo e no detalhe mínimo

Muito bem. Chegou a hora de nos concentrarmos no essencial. Enfrentar a dimensão prática do fazer, e o que ela requer. Não estamos falando de generalidades, tais como quanto trabalho árduo é necessário ou os benefícios de reunir uma equipe de colaboradores.

Estamos falando de uma postura mental específica que é crucial quando se trata do ato de criar. É uma atitude que pode ser resumida em uma regra simples, mas exigente: pense sempre no contexto mais amplo e no detalhe mínimo.

Agir desse modo não é tão fácil: gaste tempo demais com o detalhe mínimo e acabará perdido. Mas pense apenas no contexto mais amplo e não criará nada nem se conectará com nada. As duas coisas precisam trabalhar juntas, em sintonia. Ao se separarem, sucede o desastre.

Pense em todos aqueles horizontes de cidades no mundo inteiro que foram arruinados por arquitetos e empreiteiros que consideraram apenas o terreno onde construíram seus edifícios, sem estudar suficientemente o entorno. Não precisava ser assim.

A criatividade, como a sociedade, prospera quando elementos individuais se ajustam em um contexto mais amplo e contribuem para melhorá-lo.

Por isso é tão fascinante e esclarecedor visitar os artistas em seus ateliês. A oportunidade de conversar com um pintor ou escultor sobre seu trabalho é sempre reveladora. Pode ser também desconcertante quando o artista em questão se levanta de repente e faz uma pequena alteração em seu trabalho.

Essas situações não são incomuns. Os artistas estão sempre pensando na totalidade e no detalhe.

Luc Tuymans

O artista belga Luc Tuymans não é uma pessoa inclinada a olhar apenas para o próprio umbigo em termos artísticos. Isso arruinaria o seu trabalho. A atmosfera fantasmagórica pela qual suas pinturas são admiradas é planejada especificamente visando o espectador.

Ele pinta usando uma técnica conhecida como úmido sobre úmido, em que a tinta nunca tem tempo para secar. Isso dificulta as correções e faz dele um artista particularmente bom em obedecer ao processo de pensar ao mesmo tempo no todo e na parte.

O ponto de partida para uma de suas pinturas não é o momento em que se levanta, com o pincel em punho, e toca a tela nua pela primeira vez. Ele começa meses antes, quando uma imagem aleatória captou seu olhar.

Luc Tuymans planeja uma exposição inteira antes que seu pincel tenha tocado uma tela sequer. O que isso diz sobre a questão de se pensar o macro e o micro ao mesmo tempo? Aqui está um artista que concebe toda uma série de pinturas como uma totalidade.

Cada imagem é colocada estrategicamente para acentuar uma nota específica num momento específico, para atrair o olhar de um modo particular. As cores que ele planeja usar em uma pintura são então reverberadas nas outras. Ele define temas, explora ideias.

Esse é também um dos motivos pelos quais ele é capaz de trabalhar tão rapidamente quando começa, de fato, a produzir as pinturas. Ele já refletiu muito antes disso, desde escolher as cores das paredes onde vai pendurar as telas até decidir a escala de cada imagem.

Tudo é estabelecido com muita antecipação. E só então Luc Tuymans parte para a tarefa de pintar. Ele não ouve rádio nem música; apenas se coloca diante da tela e pinta. Entra num estado em que para de pensar e deixa sua “inteligência passar para a mão”.

Quando o trabalho está terminado, ele vai para casa. Se não gosta do que vê na manhã seguinte, joga a tela fora.

Dessa forma, ele é um especialista na arte de fazer, em entender como o contexto amplo e o detalhe fino devem interagir. Inclusive a ideia de conceber uma exposição inteira antes de pintar uma tela tem um pensamento maior por trás.

O motivo pelo qual ele planeja suas mostras como uma entidade única e coerente não tem justificativas inteiramente artísticas. Trata-se de uma tática para garantir que sua obra continue a ser mostrada em grandes museus por muito tempo depois que ele se for.

Ele demonstra a todos que a criatividade é como um jogo de xadrez, em que os melhores jogadores são aqueles que conseguem pensar em vários movimentos antecipadamente, sem perder de vista a situação imediata.

Os artistas têm um ponto de vista

Sabemos que duas pessoas não veem as coisas exatamente da mesma maneira. Peça a dez pessoas que descrevam uma cena que tenham visto ao mesmo tempo e nas mesmas condições e você terá dez descrições diferentes.

Elas não vão necessariamente ser muito diferentes, mas serão diferentes o suficiente para serem identificáveis como entidades singulares. Cada decisão que tomamos em qualquer processo criativo, seja decorando o quarto ou projetando um vestido, é baseada em nossa opinião pessoal

Ter algo original para expressar é um dos maiores obstáculos a superar no processo criativo. Temos ouvido falar de bloqueio de escritores, mas a mesma perda de inspiração ocorre com artistas, inventores e cientistas.

Assim, não surpreende que aqueles que não ganham a vida por meio da criação diária muitas vezes também possam desenvolver um vazio similar. Ficar imobilizado é uma frustração que todo artista tem de enfrentar em algum momento. Mas, felizmente para eles e para nós, existem maneiras de superar esses bloqueios.

Um método que tem se mostrado repetidamente eficiente é mudar. A mudança de cenário literalmente altera seu ponto de vista: a ruptura ativa os sentidos, que são estimulados pelo desconhecido; você vê e experimenta a vida de forma diferente.

Você descobre assuntos que estavam previamente obscurecidos, e percebe de um novo modo aqueles com os quais já estava familiarizado.

Peter Doig

Doig faz pinturas misteriosas, esparsamente povoadas, em geral ambientadas em paisagens em que uma ou duas figuras surgem de forma pouco nítida. Seus personagens normalmente parecem perdidos ou perturbados.

Ele teve uma infância itinerante. Nasceu na Escócia e passou alguns de seus primeiros anos em Trinidad. Em seguida, seus pais o levaram para o Canadá, onde ele cresceu. Mudou-se para Londres e entrou para a escola de arte no final dos anos 1970.

Retornou ao Canadá para morar em Montreal e em 1989 voltou a Londres, para estudar mais. Foi essa educação itinerante que lhe deu o impulso de explorar a qualidade indecifrável das paisagens em sua arte.

No entanto, ele era diferente da maioria dos artistas que se deslocam em busca de inspiração. Para a maioria, trata-se de encontrar um novo local que forneça uma nova e tão necessária fonte de material. Mas Doig não desfrutava a mesma epifania e produtividade artística.

Pelo contrário, sentia-se criativamente ainda mais perdido em um novo local. Felizmente, porém, Doig percebeu o que o estava impedindo. Não era a mudança para um ambiente novo que o inspirava, era mudar-se para um antigo.

Ou, como ele disse: “tenho que partir de um lugar antes que possa pintá-lo”. Ele havia descoberto seu ponto de vista.

Uma vez que o bloqueio criativo é suspenso e descobrimos o que queremos dizer e expressar, muitas coisas que nos pareciam banais, tais como os aspectos mais mundanos da vida cotidiana, tornam-se potenciais fontes de estímulo criativo.

Evidentemente, não é preciso viver como um nômade para encontrar um assunto inspirador, nem mudar de continente com regularidade para gerar um sentimento de nostalgia e desorientação.

O que é imprescindível, na verdade, e uma das principais tarefas de todo artista é prestar atenção nos sinais, confiar em seus sentimentos e instintos.

Os artistas são corajosos

A coragem é uma qualidade que tendemos a associar com o conflito. Nós honramos os soldados por serem corajosos e tratamos as estrelas do esporte como heróis quando enfrentam um adversário superior e vencem.

É em circunstâncias extremas que essas pessoas corajosas mostram seu vigor. Elas vão aquele tanto mais longe, correm riscos que a maioria de nós não correria e se expõem a perigos que outros evitariam.

Há, todavia, outro tipo de coragem que se baseia no mesmo princípio de vulnerabilidade pessoal, mas não expõe o protagonista a um perigo físico imediato. É a coragem psicológica necessária para se colocar diante de um público potencialmente hostil e expressar seus sentimentos e ideias.

Os artistas estão, de certa forma, despidos perante o mundo. E fazem isso quando não estão inteiramente certos de que o que produziram é bom. A criatividade demanda coragem, pois ninguém quer fazer papel de tolo em público, correr o risco de sofrer humilhação na frente de amigos e familiares.  

Mas esse sentimento de rejeição provavelmente não será maior do que o que qualquer outra pessoa tenha sofrido; considere-o um caminho transitório ou um rito de passagem.

Michelangelo

Era 1508, o brilhante e tempestuoso Michelangelo não estava feliz. Seu patrono onipotente, o Papa Júlio II, tinha cancelado recentemente uma lucrativa encomenda para que ele esculpisse o túmulo papal. O artista ficou furioso, deixou Roma e voltou para casa em Florença.

Porém, um misto de intimidação e lisonja por parte do Papa o fizeram voltar. Michelangelo esperava que, com seu retorno, recuperasse a encomenda para o túmulo, um trabalho dos sonhos para ele.

O tio de Júlio II, Sisto IV, tinha construído uma esplêndida nova capela quando havia sido Papa algumas décadas antes. Era um belo edifício, devidamente nomeado em homenagem ao pontífice nepotista.

Na época em que Júlio subiu ao poder a Capela Sistina já tinha começado a deteriorar-se de tal forma que se faziam necessários grandes reparos em sua estrutura. Uma área particularmente afetada era o amplo teto abobadado, suspenso a vinte metros do chão.

O Papa Júlio era um esteta e fervoroso paladino das artes, e assim determinou que esse edifício tão importante e sagrado merecia ter um teto pintado à altura. Deu instruções para que recebesse afrescos com doze grandes figuras dos apóstolos, dizendo que Michelangelo era o homem para a tarefa.

Michelangelo recebeu a notícia de modo inesperado. Ele olhou nos olhos do único homem em Roma a quem nada deveria ser recusado e disse não. Ele não pintaria o teto da Capela Sistina, nem a nave, nem suas paredes.

A razão pela qual Michelangelo reagiu de modo tão furioso foi porque de fato não se achava capaz de fazer o trabalho. Ele não se considerava um pintor.

Parece difícil de acreditar, considerando o que sabemos agora, mas o grande Michelangelo estava em uma posição semelhante à de todos nós quando assumimos uma nova tarefa criativa.

Ele estava aterrorizado. Tinha muito a perder: seu status como o melhor artista na região, seu meio de subsistência e, pior de tudo, sua autoconfiança. Assumir a Capela Sistina significaria arriscar tudo por uma encomenda que ele não queria nem se sentia qualificado para realizar.

E, no entanto, ele acabou aceitando.

Poderíamos deduzir que ele percebeu que não tinha escolha, mas na época sua reputação era tal que ele já tinha uma lista enorme de encomendas. Afinal, este era o homem que recentemente dera ao mundo o Davi, sua obra-prima escultural. Ele poderia ter inventado pretextos, mas não fez isso.

Assumiu um desafio tão grande quanto o que seu Davi petrificado aceitara de Golias. Sua decisão não foi forçada; foi um ato de coragem.

Pelos quatro anos seguintes Michelangelo pintou dia e noite, dormindo pouquíssimo, quase não bebendo e, segundo consta, não se preocupando muito em se lavar. Passava todo o tempo em seu andaime de madeira, o rosto horizontal ao teto, a cabeça inclinada para trás, braços erguidos.

Em outubro de 1512, com quase quarenta anos, ele completou sua maratona. O artista tinha enfrentado com êxito seus inimigos, suas próprias deficiências técnicas, sua insegurança, e assumira um enorme risco, pelo qual todos estamos gratos.

Todas as escolas deveriam ser escolas de arte

Se, como dizem os especialistas, nosso futuro vai mesmo ser baseado em uma economia criativa, e mais do nosso tempo livre será dedicado a produzir, então deveria parecer sensato preparar os jovens para isso.

Sobretudo se levarmos em conta os efeitos disruptivos da revolução digital, inúmeras oportunidades estão sendo criadas para reimaginar como a educação pode ser administrada e recebida no futuro.

As escolas e universidades ao redor do mundo têm reconhecido rapidamente os desafios e possibilidades trazidos pela era digital.

E há também a noção de “sala de aula invertida”, em que os alunos usam o espaço físico da escola ou da universidade como plataforma social para compartilhar e desenvolver ideias, enquanto a internet é utilizada como um lugar para assistir aulas expositivas no estilo antigo.

Essas iniciativas por si só já são libertadoras, e provavelmente ajudarão os alunos a adquirir mentalidade independente e autossuficiência, dois grandes passos para fomentar um cultivo da criatividade.

Em muitas salas de todo o mundo, os alunos terão aulas e serão informados sobre as descobertas científicas de Einstein e Galileu, as peças de Shakespeare e as façanhas de Napoleão. Eles vão ouvir, aprender e fazer anotações.

No entanto, a principal razão pela qual estão aprendendo sobre esses indivíduos é porque Einstein, Galileu, Shakespeare e Napoleão alcançaram grandes feitos ignorando a sabedoria convencional e sendo corajosos o suficiente para questionar pressupostos longamente estabelecidos. Em outras palavras, eles se destacaram por não fazerem o que lhes foi prescrito.

Será possível que os alunos aprendam o que estas grandes mentes alcançaram, mas nem sempre a lição mais valiosa, isto é, como fizeram isso? Evidentemente, os princípios têm de ser aprendidos, e alguma forma de teste ou exame é útil.

Mas esses exames deveriam ser baseados principalmente na retenção de conhecimento, como acontece hoje em grande medida? Não serão de certa forma uma ferramenta inútil, quando quase todos os fatos estão apenas a um clique de distância?

E se o status da criatividade nas escolas e universidades fosse elevado? As instituições acadêmicas poderiam então se sentir encorajadas a assumir uma abordagem do tipo da escola de arte para a educação como um todo, concentrando mais o currículo em projetos que os alunos ajudariam a definir e menos nos exames.

O objetivo não seria ridicularizar ou diminuir, mas expandir horizontes, identificar problemas e resolver incoerências. Uma mentalidade de escola de arte pode não só ensinar aos alunos como ter boas ideias, mas também a gerar a atitude empreendedora necessária para realizá-las.

Notas Finais

Se todas as escolas deveriam ser escolas de arte, talvez todos os escritórios devessem ser ateliês de arte. Se o fomento da criatividade é um objetivo genuíno para as empresas, então o ambiente de trabalho deveria ser mais colaborativo e menos hierárquico.

Todos os empreendimentos inovadores e ambiciosos do século XXI dizem precisar de pessoas capazes de conceber ideias de valor e realizá-las. E, no entanto, a maioria das empresas ainda mantém estruturas autoritárias tradicionais.

Há exceções, é claro. O estúdio americano de animação Pixar, por exemplo, com seu Conselho de Peritos, fóruns de retroinformação e convite aberto aos funcionários para que apresentem ideias para um roteiro. Mas esses casos ainda são bastante raros.

Ser empregado pode ser uma experiência sufocante e infantilizadora, pouco propícia   à criatividade. Mas e se tivéssemos uma economia mais parecida com aquela em que os artistas operam, na qual a maior parte das pessoas são trabalhadores autônomos?

Cada um de nós teria sua própria especialidade, operando com a mentalidade empreendedora de um artista e um maior senso de autonomia e independência.

A vantagem seria profissionais altamente motivados, extremamente criativos e flexíveis, que se sentiriam donos de seu próprio destino: uma nova geração capacitada por suas carreiras.

O futuro depende de adotarmos uma atitude diferente: aquela em que todos podemos nos expressar e contribuir para a sociedade utilizando nossa imaginação e talento únicos. É nosso cérebro, e não nossos músculos, que nos torna especiais e faz a vida valer a pena.

Isso vem funcionando para os artistas há muito tempo. E também pode funcionar para todos: só depende de nós e de nossa capacidade de pensar como artistas.

Dica do 12’

Se você gostou deste microbook, não perca a oportunidade de seguir aprimorando sua capacidade criativa: leia também “Roube Como um Artista”, de Austin Kleon, e aprenda a combinar ideias que já existem para criar inovações fantásticas para sua vida e carreira!

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