O Mal-Estar na Civilização

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Nesta clássica obra, Sigmund Freud, o criador da psicanálise, investiga as causas da infelicidade humana e o ambiente de tensão que sempre nos acompanhou em nossa interação com a vida em sociedade.

A partir de um referencial teórico calcado nos conceitos biológicos de libido e agressividade, nosso autor explica como a repressão aos instintos mais básicos estão na raiz da maior parte das patologias e enfermidades da vida moderna.

E aí, se interessou? Então, venha descobrir, em 12 minutos, os principais elementos da teoria freudiana da cultura e, assim, construir uma percepção mais rica e profunda acerca de nossa civilização ocidental. Boa leitura!

Falsas medidas: a recusa ao misticismo

É fácil percebermos que, de modo geral, as pessoas utilizam falsas medidas na busca por riqueza, sucesso e poder, admirando os “homens de sucesso” e subestimando os valores autênticos da vida.

Ao valorar as coisas dessa forma, assumimos o risco de subestimar a multiplicidade do mundo e de nossas vidas psíquicas. Há homens que, embora ajam contra os interesses de seus contemporâneos, continuam sendo venerados pela multidão.

É forçoso supormos, no entanto, que a maioria da população ignora tais grandes homens e somente uma pequena minoria os reconhece. Todavia, as coisas são mais complexas do que isso, uma vez que existe uma profunda incoerência entre as ações e as ideias das pessoas.

Em muitos indivíduos pulsa um forte sentimento que os estimulam a tentar voltar a um estágio ancestral do Eu – que se origina a partir da interação do homem com a realidade exterior, sendo o mecanismo responsável, a um só tempo, por regular e satisfazer nossos instintos e desejos.

Nesse contexto, cabe a pergunta: tal sentimento pode, legitimamente, ser considerado como a origem das (assim chamadas) necessidades religiosas?

Entre as principais características do Eu, encontra-se a constante busca por proteção contra ameaças externas. Isso explica, em grande parte, por que o conteúdo imaginário de qualquer sentimento religioso é a inclinação de “ser-um” com o cosmos, isto é, o universo ordenadamente regido pela Suprema Inteligência.

Como é, na prática, impossível trabalhar com tais enormidades e grandezas inapreensíveis, Freud descarta, desdenhosamente, qualquer explicação mística ou religiosa.

A religião enquanto deformadora da realidade

O sistema de promessas e doutrinas que, por um lado, esclarece todos os enigmas do mundo e, por outro, garante que uma cuidadosa Providência velará pela vida de cada ser humano, funciona como um mecanismo de compensação diante a corrente de frustrações e dor à qual todos estamos submetidos nesta vida.

Tal Providência magnífica só pode ser imaginada pelo homem comum como um pai grandiosamente bondoso. Afinal, trata-se de um ser capaz de conhecer, com precisão, quais são as necessidades do ser humano e ceder a suas humildes súplicas.

Essas concepções todas são tão infantis e claramente alheias à realidade, que chega a ser doloroso saber que a maioria dos seres humanos nunca se livrará delas.

Outra fonte de imensa vergonha reside em pensar que grande parte de nossos contemporâneos, a despeito de perceberem como é insustentável esse sistema de crenças pueris, o defendem ferrenhamente.

A vida real é, inelutavelmente, um jogo de adaptação e escolha. A religião atrapalha o andamento desse jogo, impondo sua receita para a felicidade a todos os seres humanos.

É preciso reconhecer que isso é feito com grande perícia: a religião, primeiramente, desvaloriza a vida e deforma delirantemente o mundo real, intimidando a inteligência.

Ao fixarem um verdadeiro infantilismo psíquico, a religião insere o conjunto da humanidade em uma espécie de delírio coletivo. A esse preço, muitos homens evitam a neurose individual. Isso é tudo o que recebem em troca.

Há inúmeros caminhos aptos a conduzirem o homem à felicidade, mas nenhum totalmente seguro. A religião, tampouco, é capaz de manter a sua própria promessa.

Quando o crente se encontra obrigado a mencionar os “inescrutáveis designíos” de Deus, está a admitir, implicitamente, que tudo o que lhe restou, como última fonte de prazer e consolo, apenas a incondicional submissão. Ora, se está disposto a aceitar isso, talvez poderia ter evitado tantos rodeios.

A cultura como produto da sublimação de instintos poderosos

Por que é tão difícil ser feliz? Freud aponta três diferentes motivos:

  1. a despotismo da natureza;
  2. a insuficiência do corpo humano;
  3. a fragilidade das regras que normatizam os vínculos familiares, estatais e sociais.

Em relação às duas primeiras fontes de sofrimento, somos forçados a reconhecer seu poder absoluto sobre o nosso destino. Jamais dominaremos totalmente as forças naturais. O nosso organismo, parte integrante da natureza, sempre será uma construção limitada em desempenho e adequação.

Com relação ao terceiro item, Freud considera muito estranho que as instituições criadas por nós mesmos não trazem proteção e bem-estar. De fato, a evolução cultural nos aparece como um peculiar processo a se desenrolar no seio da humanidade.

Esse processo pode ser compreendido por meio das transformações que ele engendra nas disposições inatas humanas, cujo contentamento é, por fim, a atividade econômica de nossas vidas.

Desses instintos, alguns são absorvidos de tal forma que dão lugar ao que a psicanálise descreve como “traços de caráter”. O mais visível exemplo de tal fato pode ser encontrado no erotismo anal das crianças.

Seu original interesse na atividade excretora, nos produtos e órgãos dela, altera-se, ao longo do crescimento, no conjunto de características conhecidos como limpeza, sentido de ordem e parcimônia, que, bem-vindas e valiosas em si, podem ser exacerbadas ao ponto de adquirir um predomínio marcante.

A limpeza e a ordem são requisitos fundamentais da civilização, mesmo que a sua necessidade para a vida não seja evidente e sua adequação não gere prazer ao indivíduo.

Nesse contexto, a similaridade entre o processo civilizatório e o desenvolvimento da libido individual tornou-se, forçosamente, evidente. Instintos diversos deslocam, situam por outras vias as condicionantes de sua própria satisfação, o que, em geral, coincide com a sublimação – familiar a todos nós – de nossos objetivos instintuais.

Entre os principais traços da evolução cultural, encontra-se a sublimação dos instintos. Isso viabiliza que as mais elevadas atividades ideológicas, psíquicas, artísticas e científicas exerçam um papel tão preponderante em uma sociedade civilizada.

À primeira vista, somos tentados a afirmar que a sublimação consiste em uma verdadeira imposição civilizacional. Todavia, é recomendável refletirmos mais sobre o assunto.

De fato, é evidente a constatação de que civilização é edificada sobre a renúncia aos instintos, na medida em que ela pressupõe que os cidadãos não os satisfaçam.

Tal frustração, imposta pela cultura, abarca todos os vínculos sociais estabelecidos entre os homens, sendo a origem de hostilidades que, nos dias atuais, quase todas as culturas tentam combater, pois, é bastante difícil entender como é possível evitar que instinto encontre sua correspondente satisfação.

Trata-se de algo perigoso: se não houver certas compensações econômicas, é razoável esperar a ocorrência de graves distúrbios.

Os primórdios de nossa evolução cultural

Quando o homem primitivo descobriu que ele tinha o poder para, literalmente, mudar o mundo por meio de seu trabalho, não mais poderia estar alheio ao fato de outros indivíduos trabalhem contra ou com ele.

O “outro” passou a ser encarado como um valioso colaborador. Em um período ainda mais recuado, ele havia adquirido o hábito de constituir famílias. Logo, os integrantes da família, provavelmente, foram os seus primeiros ajudantes.

É razoável supor que a invenção da família se relacionou ao fato de que a necessidade de satisfação sexual já não se apresentava como hóspede, que aparece de repente e após partir não dá notícias por longo tempo, mas fixar-se indefinidamente como inquilino.

Dessa forma, o macho obteve um bom motivo para conservar consigo a fêmea. Em outras palavras, seus objetos sexuais mais imediatos. As fêmeas, por sua vez, ao não desejarem se ver separadas de seus filhotes, tinham que ficar unidas ao forte macho.

Nesta família primitiva, ainda falta um traço basilar da civilização: o despotismo do chefe e pai não tinha nenhum limite. Em “Totem e Tabu”, o autor já demonstrara o processo que, a partir dessa etapa, leva a um novo estágio da vida coletiva: os bandos de irmãos.

Ao derrotarem seus pais, os filhos perceberam que a associação supera a força do indivíduo. As restrições são a base da cultura totêmica, pois, permitiram a preservação desse novo estado de coisas, ou seja, o primeiro “direito” foi constituído pelo tabu.

A vida em comum contou, então, com um fundamento duplo: a força do amor, que para o homem significava o acesso ao objeto de desejo sexual e, para a mulher, que não abria mão de suas crianças; e a compulsão do trabalho, gerada por uma necessidade externa.

Ananke e Eros, portanto, se tornaram os pais da cultura. O primeiro êxito da cultura consistiria, justamente, no aumento da quantidade de pessoas que passaram a viver em uma mesma comunidade.

Como esses dois poderes atuavam conjuntamente, bastava aguardar que a posterior evolução se desse suavemente, em direção a um domínio do mundo externo e à elevação da quantidade de pessoas vivendo em conjunto.

Desse modo, é difícil entender como tão cultura pode tornar infelizes os que dela tomam parte.

O primeiro estágio da cultura, qual seja, o totemismo, engendra o conceito de incesto, proibição que se configura, talvez, como a mais penetrante mutilação que as experiências amorosas sofreram ao longo do tempo.

Por meio de costumes, leis e tabus, mais restrições são produzidas, atingindo tanto mulheres quanto homens. Todas as culturas não percorrem a mesma distância nesse caminho; as estruturações econômicas das sociedades também influíram decisivamente sobre outros domínios da liberdade sexual.

A cultura segue a imposição das necessidades econômicas, uma vez que subtrai à sexualidade uma elevada quantidade de energia psíquica. No que tange à sexualidade, como um extrato populacional ou uma tribo que submeteu outra ao seu arbítrio e exploração.

O temor de que os oprimidos iniciem uma revolta gera medidas rigorosas de precaução. Nessa evolução, a cultura europeia apresenta um ponto alto.

Em termos psicológicos, é justificável que ela inicie por não aprovar as manifestações infantis da vida sexual, uma vez que, sem um trabalho de preparação na infância, não é possível reprimir os impulsos sexuais dos adultos.

O que não é justificável, porém, é o fato de que a sociedade tenha ido até o ponto de negar fenômenos evidentes e facilmente comprováveis. O indivíduo maduro, do ponto de vista sexual, tem sua escolha reduzida ao sexo oposto, sendo proibidas como perversão quaisquer formas de satisfação extragenital.

A determinação obrigatória, expressa nessas interdições, de uma vida e prática sexual uniforme a todos, não leva em consideração as desigualdades na constituição adquirida e inata dos seres humanos, impedindo que uma quantidade considerável de pessoas usufrua do prazer sexual, tornando-se, assim, a origem de uma grave injustiça.

A crítica psicológica da cultura

Se os homens tivessem constituído uma comunidade cultural composta por indivíduos libidinalmente saciados, todos se ligariam por interesses comuns e pelo trabalho. Dessa forma, a civilização não retiraria energia da sexualidade.

Esse estado de coisas tão desejável nunca existiu. A realidade expõe que, para a civilização, não basta as uniões permitidas até o momento. Por isso, deseja unir libidinalmente a todos e, assim, favorece qualquer meio para estabelecer identificações entre seus membros.

É difícil perceber qual necessidade estimula a civilização a limitar a vida sexual das pessoas. Certamente, trata-se de um fator, ainda não descoberto, de perturbação.

A teoria dos instintos

Entre todas as subdisciplinas desenvolvidas a partir da teoria psicanalítica, a que mais enfrentou dificuldades para se consolidar foi, sem dúvida, a teoria dos instintos. Freud buscou, em um primeiro momento, confrontar os instintos objetais com o conceito de EU.

Nesse contexto, para descrever a energia de ambos, o autor cunhou, pela primeira vez, o termo “libido”. Sob essa perspectiva teórica foi possível, finalmente, identificar a oposição que se dá entre os instintos do amor e os instintos do EU, voltados ao objeto.

O sádico, entre os instintos objetais, sobressaía devido ao fato de que seu objetivo não é “amoroso”. De fato, em vários pontos, o instinto sádico se une aos instintos do EU, revelando sua íntima afinidade com impulsos de dominação.

Para Freud, o sadismo, claramente, faz parte da vivência sexual, as práticas de crueldades podem suceder ao jogo da ternura. A neurose, assim, surgia como o resultado de uma batalha entre as exigências libidinais e a necessidade de autopreservação.

Essa luta só pode ser vencida pelo EU às custas de severa renúncia e sofrimento. O termo “libido” pode, novamente, ser empregado para designar as manifestações de potência de Eros – o instinto amoroso, a fim de as diferenciar das energias provenientes do instinto de morte.

Moderado e domado, como que domesticado em seu objetivo, o instinto de destruição, dirigindo-se aos objetos, confere ao Eu a preponderância sobre o mundo natural e a satisfação de necessidades cruciais para a vida.

O sentimento de culpa

Por que os animais, nossos parentes, não demonstram uma batalha cultural similar à nossa, dos seres humanos? Não se sabe ao certo.

Possivelmente alguns, as térmitas, formigas, abelhas, se esforçaram por milênios antes de encontrarem as instituições estatais, a separação de funções, as limitações impostas aos indivíduos que tanto admiramos neles.

É sintomático de nosso presente estado o fato de que perante nenhuma dessas sociedades animais ou em nenhuma função que nelas são inatamente destinados, estaríamos felizes e satisfeitos.

Em algumas outras espécies, é possível que se tenha chegado a um momentâneo equilíbrio entre os instintos e as influências do meio, e dessa forma a uma estagnação no desenvolvimento.

Um novo avanço da libido talvez tenha ocasionado, no homem primitivo, uma reiterada oposição ao instinto destrutivo. Existem diversas questões a serem levantadas aqui, para as quais, infelizmente, ainda não existem respostas.

Quanto à gênese do sentimento de culpa, os psicólogos pensam diferentemente dos psicanalistas, porém, não é fácil para nenhum dos dois prestar contas quanto a isso.

Primeiramente, ao se questionar como um indivíduo pode adquirir sentimentos de culpa, encontra-se uma resposta que não dá margem a discussão: o indivíduo se sente “pecador”, como costumam dizer os devotos, ou culpado, quando sua ação pode ser julgada e, portanto, valorada, como “má”.

A seguir, podemos perceber como essa resposta é insuficiente e insatisfatória. Depois de alguma hesitação, não faltará quem acrescente que, ainda que a pessoa não tenha feito esse mal, e apenas reconhece o propósito de fazê-lo, deve se considerar culpado.

Por quê, nesse campo a execução é equiparada ao propósito? É legítimo rejeitar uma habilidade natural para separar o mal do bem. Frequentemente, o mal não é, propriamente, algo nocivo ou ameaçador para o EU, na realidade, trata-se de algo que lhe dá prazer.

Aí se mostra a influência externa: ele estabelece o que será considerado bom ou mau. Uma vez que o próprio ato de sentir não levaria os homens pela mesma via, eles devem ter um motivo, uma razão para se submeterem a essa influência alheia.

É possível visualizá-lo na dependência de terceiros e na sensação de desamparo, isto é, o “medo de perder amor”.

Se a pessoa perde o amor daquele ao qual se coloca na condição de dependente, ela deixará, também, de se proteger contra diversos perigos, expondo-se, sobretudo, ao perigo de ser castigado por esse alguém tão formidavelmente poderoso.

Notas finais

A questão decisiva para a espécie humana é saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelos instintos humanos de agressão e autodestruição.

Precisamente quanto a isso a época de hoje merecerá talvez um interesse especial. Atualmente, a humanidade atingiu tão poderoso controle sobre as forças naturais que, não lhe é difícil acessá-las para provocar o extermínio de todos os seres humanos.

Todos sabemos disso. Desse conhecimento provém, em grande medida, nosso atual medo, infelicidade e desassossego. Cabe agora esperar que a outra das duas “potências celestiais”, o eterno Eros, empreenda um esforço para afirmar-se na luta contra o adversário igualmente imortal. Mas quem pode prever o sucesso e o desenlace?

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