Arriscando a própria pele

Nassim Nicholas Taleb Também disponível em audiobook: Baixe nosso app para ouvir gratuitamente.

“Arriscando a Própria Pele” é um livro sobre as assimetrias presentes na vida, na sociedade, na história e nas crenças. Escrito por Nassim Nicholas Taleb, um ex-trader da bolsa de valores de Chicago que se tornou um dos maiores especialistas mundiais em incerteza e probabilidade, a presente obra aborda, também, as consequências das assimetrias.

Nosso autor explora, embora de modo bastante aleatório, quatro tópicos principais. O primeiro deles, e talvez o principal, diz respeito à simetria nos relacionamentos humanos, passando, em seguida, para o segundo tópico, relacionado à simetria no compartilhamento de informações em transações comerciais.

O terceiro tópico apresenta a definição de racionalidade ligada à sobrevivência, já o quarto e último tópico – o mais abrangente – diz respeito à gestão de riscos no mercado, nas guerras, nos negócios etc.

Ciência e vida acadêmica

O autor utiliza sua obra para, entre outras finalidades, tratar de assuntos científicos e que dizem respeito à vida acadêmica. Seria coerente dizer que Taleb não possui uma opinião favorável acerca dos cientistas, a quem retrata, em geral, como:

  • charlatães dotados de mentalidade intervencionista e pouco senso comum;
  • tendenciosos e cegos às contradições;
  • imersos em um jogo acadêmico profundamente antiético que se assemelha a uma competição esportiva de erudição, em que buscam complicar suas explicações para parecem mais inteligentes;
  • submissos e confiáveis perante os grandes conglomerados industriais, eles próprios fazendo parte do sistema.

A incerteza de nossos modelos

A despeito de suas ácidas críticas sobre o academicismo, é no campo científico que o autor oferece informações valiosas sobre alguns dos aspectos epistemológicos e éticos que rondam a ciência contemporânea.

O primeiro insight de Taleb é a incerteza e a falta de confiabilidade dos nossos modelos, especialmente aplicáveis aos campos relacionados à gestão de riscos: uma visão das preocupações estatísticas e teóricas ao modelar e assumir riscos, mas também uma preocupação ao aplicar os conhecimentos teóricos no mundo real.

Distorção da simetria

Nesse aspecto o autor aborda o problema de agência do atual modo de fazer ciência. Protegido em suas “torres de marfim”, os acadêmicos típicos podem fazer as suas pesquisas sem, no entanto, terem de lidar com as consequências do que é publicado, transferindo os riscos para leitores que, assim, enfrentam sozinhos eventuais problemas, como os representados pela atual crise na reprodutibilidade das pesquisas científicas.

Ao transferir os riscos para um sistema que não foi projetado para evitá-los, tanto o acadêmico em si quanto o próprio sistema social mostram-se incapazes de aprender com os erros uns dos outros.

O compartilhamento de informações assimétricas

Taleb sustenta que a distorção na simetria parece ser composta por um frequente compartilhamento de informações assimétricas. Para ter uma carreira científica promissora, os pesquisadores de hoje em dia não dependem apenas da publicação de seus estudos, mas de uma publicação de impacto, isto é, que prenda a atenção do público em geral e que alcance um forte apelo mercadológico.

Os cientistas guardam, sigilosamente, todas as informações sobre os métodos utilizados, os modelos aplicados para a análises de dados e os resultados que deverão ser publicados para atingir os seus objetivos.

Enquanto isso, os leitores são deixados com uma impressão de alta excelência. Essa paisagem assimétrica pode ser comparada, segundo o autor, ao “dilema do free rider” (também conhecido pelo termo “tragédia dos comuns”).

Racionalidade

Um último insight apresentado pelo autor refere-se ao teste do tempo sobre a racionalidade. Para Taleb, a ciência, incluindo o atual sistema de revisão por pares, não representa um método confiável.

Consequentemente, grande parte da ciência contemporânea não deve ser considerada neutra e, tampouco, adequada para embasar a tomada de decisões importantes.

Estruturação dos mecanismos de pesquisa científica

De modo intercalado a outras argumentações, o autor apresenta, também, possíveis soluções para esse estado de coisas. Uma primeira solução é sistêmica: oferecer uma estrutura adequada para garantir um bom desempenho geral do sistema, ainda que o desempenho individual varie.

Embora chamar uma tal estrutura de “mão invisível” possa ser um tanto exagerado, ela certamente funcionaria como um ponto de referência sobre o qual os pesquisadores poderiam retroceder de tempos em tempos.

O sustentáculo primordial é a educação contínua a respeito das ferramentas de pesquisa. Isto é, educar os cientistas e permitir que eles se reeduquem, além de usar bem os métodos e as estatísticas que permitam interpretar apropriadamente as probabilidades.

A regra da minoria

A segunda proposta do autor é social e, necessariamente, de alcance mais limitado: a regra da minoria. Podemos vê-la nas reações à crise de reprodutibilidade, com alguns periódicos proibindo o uso de valores-P, a inveja dos defensores do pré-registro científico e do fator Bayes.

A articulação de tais movimentos (que, apesar de “minoritários”, têm aprimorado as ciências) pode ajudar a trazer mudanças proporcionalmente maiores e mais profundas do que seria possível se levássemos em consideração apenas o alcance isolado de cada um deles.

Arriscar a pele

A terceira solução de Taleb é ética e destinada ao pesquisador individual: colocar um pouco de sua alma no jogo, isto é, arriscar a própria pele.

O cientista deve se esforçar, antes de mais nada, em fazer um trabalho de qualidade para honrar seu compromisso existencial, preocupando-se mais em garantir que suas inferências sejam substanciadas; e menos em meramente publicar mais pesquisas.

Notas finais

A ciência é um dos sistemas mais complexos que existe, uma vez que múltiplos agentes competem continuadamente por resultados que contradizem não apenas os de outros agentes, mas, até mesmo, os propósitos gerais do conhecimento humano.

Não há “fórmulas mágicas” ou “soluções padronizadas” que possam consertar esse sistema. O livro de Taleb merece ser lido na íntegra, pois esmiúça, ao longo de suas 312 páginas, todas essas complicações, confirmando as dificuldades e propondo alternativas viáveis: tempo, compreensão e comprometimento. Em outras palavras: arriscar a própria pele.

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