João e Maria

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Era uma vez, um lenhador pobre, que morava com sua mulher e dois filhinhos, Joãozinho e Maria, numa cabana feita de troncos de árvore, às margens de uma imensa floresta.

A vida sempre fora difícil para aquela família, mas nos últimos meses com a carestia dos alimentos nas feiras da cidade, as coisas tinham piorado ainda mais: o lenhador não estava conseguindo prover o sustento para sua casa. Havia noites, por exemplo, que o pai e a madrasta iam dormir sem jantar, pois o pão mal dava para alimentar as crianças.

Muitas noites, o pobre lenhador mal conseguia dormir atormentado pelas preocupações. Certa noite, quando se recolheram aos seus aposentos, já deitados para dormir, o pobre homem falou quase chorando:

— Mulher, o que será de nós? Temo que morramos de necessidade, e as crianças serão as primeiras...

Então a mulher, cansada da situação que há meses o assolavam, respondeu:

— Ouça! Pare de lamentar-se e encontre uma solução! — disse ela com muita irritação, e continuou: — Amanhã cedo, acordaremos as crianças e daremos-lhe um pedaço de pão e levaremos-as até o fundo da floresta, acenderemos uma fogueira para espantar os animais selvagens, e lá as abandonaremos.

— Não, de maneira alguma! Enlouqueceste, mulher?— retrucou o pai relutante.

Mas a malvada mulher, muito esperta e insistente, não dando sossego ao marido, o persuadiu, e conseguiu convencê-lo de que um outro lenhador, ou caçador de melhores condições financeiras poderiam encontrar as crianças e adotá-las, dando-lhes melhores condições de vida.  

No aposento ao lado, João e Maria, que ainda não conseguiram dormir de tanta fome, ouviram tudo, e Maria pôs-se à chorar.

— E agora, Joãozinho, o que será de nós?

Joãozinho, que já elaborara um plano, tranquilizou a irmã:

— Não te aflinjas, Maria, durma sossegaga! Eu tenho um plano.

Maria que sempre confiara no irmão foi dormir, com fé de Deus não os abandonaria. Assim que o casal adormerceu, Joãozinho levantou-se e foi de mansinho até lá fora, e catou uma boa quantidade de pequeninos seixos brancos, que reluziam no clarão da lua, colocou-as no bolso, e voltou para cama.

Quando amanheceu, a madrasta foi até o aposento das crianças, e as acordou.

— Levantem-se! Vamos passar o dia todo na floresta cortando lenha. — Entregou-lhes um pedaço de pão e disse-lhes: — Este pão é para o almoço, não comam-no antes, pois ficarão sem ter o que comer depois.

Então se levantaram e vestiram-se. Mariazinha colocou o pão no avental, e partiram os quatro rumo ao fundo da floresta. O pai e a madrasta na frente, e as crianças atrás. Joãozinho muito esperto, colocou em prática a ideia que lhe ocorreu: a cada dez passos, discretamente, deixava um seixo cair no chão. Porém de vez em quando ele olhava para trás, e a madrasta sem entender, ficava intrigada:

— Vamos crianças, andem, senão não chegaremos lá. Porque que você tanto olha para trás, Joãozinho? — perguntou a madrasta com aspereza na voz.

— Você não viu, madrasta? Um esquilo muito rápido acabou de correr em nossa frente. — disfarçava o menino.

O pai das crianças escondendo o choro, continuava a andar sem nada dizer.

Quando chegaram no fundo da mata a madrasta falou:

— Crianças, catem e juntem um pouco de lenha. Vamos acender uma fogueira aqui, pois enquanto seu pai e eu vamos rachar lenha, vocês ficam. Ao terminarmos, viremos buscá-los.

E assim foi, Joãozinho e Maria sentaram-se em torno da fogueira, e ao meio dia comeram o pão. Vencidos pelo cansaço, caíram no sono. Quando despertaram, nenhum sinal de seu pai e de sua madrasta, então Maria pôs-se a chorar dizendo:

— Viu, Joãozinho? Papai foi mesmo capaz de abandonar-mos.

— Não guardes rancor de nosso pai, Maria. Sabes bem quão malvada é nossa madrasta. E nosso pai, ingênuo como é, mais uma vez, caiu nas armadilhas daquela cruela. — e continuou: — Agora não te desesperes, eu sei o que fazer. Quando a lua surgir, irá iluminar os seixos que propositalmente deixei cair no chão, e eles irão reluzir. Basta só a gente seguí-los, que irão levar-nos de volta ao lar.

Assim sendo, após andar a noite toda, antes do despertar da aurora, conseguiram chegar na cabana. Ao bateram na porta, o pai e a madrasta saíram espantados. A madrasta, fingindo preocupação falou:

— Crianças teimosas! Ordenamos-lhe que não saíssem do lugar que a deixamos. Quase morremos de tanta preocupação.

— Mas nós não saímos do lugar que vocês nos deixaram. Esperamos-lhes até a lua aparecer, depois partimos de volta para casa.

— Menina insolente! — disse a madrasta. — Vão! Apressem-se! Vão banhar o rosto e os pés, e já para a cama! Antes que o sol nasça e não mais podereis dormir.— ordenou-lhes a madrasta.

O pai das crianças ficou imensamente aliviado do remorso por tê-los abandonado. Mas o tempo foi passando e a miséria continuava. E numa noite, a madrasta sugeriu prosseguir novamente com o mesmo plano, mas o marido lenhador, recusou-se, e prometeu à si mesmo jamais se afastar dos seus filhos.

No outro aposento, as crianças escutavam. Assim que o casal adormeceu, João novamente levantou-se para catar os seixos. Mas eis que desta vez o parafuso da taramela estava muito apertado, e joãozinho não conseguiu girá-lo para abrir a porta. Maria estava aos prantos, sem esperança:

— E agora, Joãozinho? Desta vez não teremos como voltar.

— Não te preocupes, Mariazinha, vá descansar! O bom Deus há de nos ajudar!

No dia seguinte, quando o marido saiu para serrar lenha, a madrasta má seguiu sozinha com o plano. Entregou-lhes um pedaço de pão, e partiram em direção ao lugar ainda mais profundo da floresta. Enquanto caminhavam, Joãozinho teve a ideia de esmigalhar o pão ao longo do caminho. Ao chegarem no fundo da floresta, a madrasta acendeu uma fogueira, e disse-lhes:

— Fiquem aqui! Vou encontrar vosso pai, e ajudá-lo a cortar lenha. Quando terminarmos, viremos buscá-los.

E partiu. Ao meio dia, Maria dividiu o seu pão com Joãozinho e  depois adormeceram. Ao acordarem, sem o menor sinal de que o pai e a madrasta viriam buscá-los, resolveram retornar por conta própria, antes de escurecer, confiando nas migalhas de pão que Joãozinho havia espalhado no chão.

Porém, para sua decepção, andaram, andaram, e não havia migalha nenhuma: Joãozinho não contava que os passarinhos iriam comê-las. Neste momento, entraram em desespero, pois desta vez não teriam como voltar para casa. Eles estavam perdidos no meio da floresta, já era escuro, e não sabiam o caminho de volta.     

Mesmo assim, caminharam a noite toda, pararam um pouquinho para descansar, e depois continuaram, caminhando durante o dia seguinte inteiro, mas cada vez que caminhavam, perdiam-se ainda mais, e não conseguiam sair daquela imensa floresta.

Estavam com muita fome, mas para sua sorte, encontraram umas amoras caídas pelo chão, e as comeram. Com as pernas bambas de tanto andar, deitaram-se em baixo de uma árvore e dormiram.

Já na terceira manhã, acordaram com o piar de um passarinho, que voava em torno deles repetidamente, como querendo convidá-los para algo lhes mostrar, então as crianças levantaram-se, e o seguiram. O pássaro levou-os até uma casinha feita com muitas variedades de doces.

Chegaram bem perto, e viram que as paredes eram de biscoitos recheados de morango, as janelas e portas de gominhas de açúcar, o telhado era todo de barras de chocolate, e tudo na casinha era decorado com muitas outras variedades de doces.

Então vendo isso, e com tamanha fome que estavam, os seus olhinhos brilhavam, e Joãozinho e Maria comemoraram:

— Viva! — gritaram em uníssono.

E correram para morder um pedacinho do telhado, comer uma gominha de açúcar das janelas, um bolinho que estava preso nas paredes… Quando de repente, uma velha muito feia com os cabelos arrepiados, desdentada e com uma grande verruga no grosseiro nariz, ouvindo a farra, saiu para fora da casinha, para ver o que estava acontecendo. Ao vê-la, Joãozinho e Maria acabaram com as risadas e ficaram imóveis, deixando cair os docinhos que tinham nas mãos. Então ela falou:

— Quem são vocês, e o que estão fazendo aqui, beliscando a minha casinha? — perguntou a velha com a voz rouca e aguda.

Joãozinho e Maria, assustados com a aparência da velha, responderam:

— Nós somos João e Maria, e estamos perdidos na floresta há dois dias, quando nesta manhã, um passarinho nos acordou com o seu pio, e trouxe-nos até aqui.

A velha com um longo chapéu na cabeça, e unhas curvas de tão compridas, era míope, mas tinha um olfato muito apurado. Logo percebendo que Joãozinho e Maria eram duas crianças, desceu os dois degraus da soleira da porta, aproximou-se, e tomou-os pela mão dizendo:

— Venham, minhas queridas criancinhas, não tenham medo! Podem ficar aqui o tempo que for preciso, e nenhum mal lhes acontecerá. — e continuou, dizendo: — Entrem, vou servi-lhes deliciosas comidinhas, pois vejo que estão com fome.

Chegando na casa, sentou-os à mesa, e serviu-lhes leite com chocolate, bolinhos, pães, nozes e maçãs. Joãozinho e Maria, com fome de três dias, esqueceram o susto, e comeram até se fartarem. Então a velha fingindo bondade, disse:

— Vejo que há dias não dormem bem. Agora venham e descansem.

Levou-os até um aposento, que parecia já pertencer à criancinhas, pois tinha duas caminhas com cobertores infantis, e doces e brinquedos por todos os cantos. Joãozinho e Maria, ao ver tudo isso, maravilharam-se! E cansados como estavam, correram para a cama, ajeitaram-se, fizeram as preces e foram dormir, julgando estar no céu.

Joãozinho e Maria, ingênuos como eram, nem suspeitaram, de que a velha, na verdade, era uma bruxa muito má, que atraía as criancinhas com a sua casinha de doces, e engordava-as, para depois cozinhá-las e comê-las.

Durante a noite, a bruxa má foi espiar Joãozinho e Maria, e vendo-os dormindo como anjinhos, pensou: "Agora estão em meu poder! E de mim não poderão escapar! Que petisco delicioso vou ter!" .

No dia seguinte, bem cedinho, tratou logo de começar a engordá-los. Primeiro, acordou o Joãozinho, agarrando-o com as mãos tão forte que as suas unhas chegaram à machucá-lo. Joãozinho ainda sonolento, e sem entender o que estava acontecendo, mal pôde defender-se, então ela atirou-o em um porão escuro, e o trancou. Depois, foi até a Mariazinha e acordou-a com um safanão, e gritando disse:

— Levanta-te preguiçosa! Vá tirar água do poço e prepare uma deliciosa refeição para o teu irmão, que está trancado no porão e deverá ficar bem gordinho, e quando chegar no ponto, hei de comê-lo.

Mariazinha começou a chorar de desespero, dizendo:

— Por favor, não faça isso com o meu irmãozinho!

A bruxa má, muito irritada gritou:

— Cala-te menina! E faça rápido o que lhe ordenei. Ou então irei comê-lo magrinho mesmo como está. Caminhe!

Mariazinha sem ter outra escolha, foi obrigada a obedecer. Tinha aprendido com a sua mãezinha, que era filha de nobre, à cozinhar os manjares mais requintados, e assim o fez. Cada dia cozinha um prato mais gostoso que o outro. E Joãozinho comia tudo com muito gosto.

A cada manhã, a velha bruxa caminhava com muita dificuldade até o porão para ver se Joãozinho já estara no ponto. Como o porão era escuro, e a bruxa não enxergava um palmo do nariz, dizia:

— Joãozinho, dê-me o seu dedinho, quero ver se já está gordinho.

Mas Joãozinho, muito esperto, que havera escutado as intenções da bruxa má, comia todas as delícias que sua irmãzinha preparava, mas em vez de mostrar o seu dedinho, dava um ossinho de frango para a velha apalpar.  

Depois de muitos dias, numa manhã bem cedinho, percebendo que embora o alimentasse bem, Joãozinho não engordava, a velha bruxa perdeu a paciência e zangou-se:

— Maria, acenda o fogo e coloque água para ferver. Cansei de esperar! Gordo ou magro, o seu irmão vai para a panela. Quero um cozido bem gostoso.

A menina desesperada, com o rosto vermelho de tanto chorar, tinha de obedecer, mas implorava em silêncio:

— Deus misericordioso, atendei as minhas preces! Obra um milagre, e nos salva desta peste. — implorava com muita fé.

Enquanto Mariazinha buscava a água no poço para ferver, a velha má preparava uma massa de pão e tratava de acender o forno. Quando a menina chegou com o caldeirão cheio de água, a velha falou:

— Maria, por favor, veja se este forno já está bem quente.

Então Maria aproximou-se do forno, e vendo que já estava bem aquecido, falou:

— Está sim!

A velha bruxa então falou:

— Incompetente! Não é assim que se vê se um forno já está quente. É preciso entrar nele para averiguar. Vamos, entre no forno! E diga-me, se já está quente o suficiente para assar o pão.

A bruxa, queria que Mariazinha entrasse no forno, para então assá-la e comê-la também. Mariazinha muito perspicaz, entendendo a intenção da malvada bruxa, disse:

— Mas eu não sei entrar no forno, por favor, mostre-me como se faz! — disse Mariazinha, fingindo não saber.

Então a bruxa, já sem paciência falou:

— Menina tonta! Vou mostrar-lhe como se faz!

E enfiou a cabeça e até quase a barriga dentro do forno. Mariazinha, sem tempo à perder, empurrou a velha pelos quadris, até que ela entrasse toda no forno, e rapidamente fechou o forno. Então a bruxa má urrava e berrava, sendo toda queimada.

Nesse momento, Mariazinha, muito assustada, foi até o porão, e libertou o seu irmão, dizendo:

— Estamos livres, Joãozinho! A bruxa má morreu!

Joãozinho, tão contente, parecia um passarinho sendo liberto da gaiola. Os dois abraçavam-se, chorando de alegria, estavam livres e aliviados. Eles que sempre adoravam aventuras e novas descobertas, sem ter o que temer, foram explorar a interessante casinha de doces, então ficaram maravilhados quando descobriram aqui acolá muitas arcas cheias de pérolas e pedras preciosas.

— Olha isso, Mariazinha! Essas pedrinhas brilham mais que os seixos de nosso jardim! — disse Joãozinho com muita empolgação, enchendo os bolsos até não mais caber.

— É mesmo, Joãozinho, essas pedrinhas são lindas de viver! Olha, essa vermelha que linda! Ah, e essa verde também! Ah, e essa azul, mais parece o céu! — dizia Mariazinha também enchendo o avental.

— Agora vamos, Maria, precisamos sair desta floresta.

E os dois caminhavam pela floresta, ainda sem saber para onde ir. Três horas depois, chegaram às margens de um rio, então disse, Maria:

— Joãozinho, e agora? Como iremos atravessá-lo? Não vejo ponte alguma!

— E nem um barquinho! — acrescentou Joãozinho.

— Mas olha, veja! Lá está uma patinha. Vamos pedir sua ajuda! — exclamou Maria.

Mas a patinha estava longe, e Joãozinho, não perdendo tempo, começou a entoar:

— Patinha, minha patinha,

    Venha cá nos ajudar,

    Somos João e Mariazinha,

    Ao nosso lar queremos voltar.

A patinha, ouvindo o canto, aproximou-se. Joãozinho saltou em suas costas, e fez sinal para Mariazinha fazer o mesmo. Mas Mariazinha falou:

— É melhor um de cada vez, Joãozinho. É muito peso para uma patinha só.

E assim foi, um de cada vez atravessou o rio, na carona da patinha. Os dois ficaram muito agradecidos, pelo belo gesto que a patinha fez. E continuaram a caminhar de volta ao lar.

Após uma hora de caminhada, Joãozinho e Maria chegaram em um bosque que muito lhes era familiar, e os dois já sabendo, muito alegraram-se, encontraram o vosso lar. Achegaram-se até a casinha, e à porta foram bater, o paizinho lenhador, os foram receber.

Com os olhos cheios de lágrimas abraçaram-se e beijaram-se, a família reunida novamente estava. E quanto a cruela madrasta, no assunto ninguém quis tocar, o lenhador, com tanta culpa e remorso que sentira, dela quis se separar.

Agora eram só os três, o pai, o filhinho e a filha, numa casinha de amor. Joãozinho e Mariazinha, esvaziaram os bolsos e o aventalzinho, tinham tantas pedrinhas preciosas, que mal podiam contar.

Agora, viveriam com fartura, adeus sofrimento e preocupação, e deste dia em diante, viveram felizes pelo resto de suas vidas.

 

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