Alguma Poesia

Carlos Drummond de Andrade Também disponível em audiobook: Baixe nosso app para ouvir gratuitamente.

Carlos Drummond de Andrade publica “Alguma Poesia” em 1930, dedicando a obra ao seu querido amigo e, também, poeta, Mário de Andrade.

Profundamente influenciado pelos novos paradigmas estabelecidos pela Semana de Arte Moderna de 1922, o autor reúne poesias que se concentram no dia a dia e nos problemas enfrentados pelos homens comuns, rompendo com o formalismo e a simbologia parnasiana que dominavam a literatura brasileira.

Poema da purificação

Depois de tantos combates

o anjo bom matou o anjo mau

e jogou seu Corpo no rio.

As águas ficaram tintas

de um sangue que não descorava

e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube

dizer de onde tinha vindo

apareceu para clarear o mundo,

e outro anjo pensou a ferida

do anjo batalhador.

Cantiga de viúvo

A noite caiu na minh'alma,

fiquei triste sem querer.

Uma sombra veio vindo,

veio vindo, me abraçou.

Era a sombra de meu bem

que morreu há tanto tempo.

 

Me abraçou com tanto amor

me apertou com tanto fogo

me beijou, me consolou.

 

Depois riu devagarinho,

me disse adeus com a cabeça

e saiu. Fechou a porta.

 

Ouvi seus passos na escada.

Depois mais nada...

acabou.

Papai Noel às avessas

A Afonso Arinos (sobrinho)

PAPAI NOEL entrou pela porta dos fundos .

(no Brasil as chaminés não são praticáveis),

entrou cauteloso que nem marido depois da farra.

Tateando na escuridão torceu o comutador

e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,

coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.

Papal Noel explorou a cozinha com olhos espertos,

achou um queijo e comeu.

 

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.

 

Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças

(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)

e avançou pelo corredor branco de luar.

Aquele quarto é o das crianças.

Papai entrou compenetrado.

 

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos

 

mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos

soldados mulheres elefantes navios

e um presidente de república de celulóide.

 

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo

no interminável lenço vermelho de alcobaça.

Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto

que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por

causa do aperto.

 

Os pequenos continuavam dormindo.

Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.

Papai Noel voltou de manso para a cozinha,

apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

 

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes

Explicação

Meu verso é minha consolação.

Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça.

Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,

folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

Para louvar a Deus como para aliviar o peito,

queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos

é que faço meu verso. E meu verso me agrada.

 

Meu verso me agrada sempre...

Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cam-

[balhota,

mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.

Eu bem me entendo.

Não sou alegre. Sou até muito triste.

 

A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.

 

Há dias em que ando na rua de olhos baixos

para que ninguém desconfie, ninguém perceba

que passei a noite inteira chorando.

Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,

de repente ouço a voz de uma viola...

saio desanimado.

Ah, ser filho de fazendeiro!

À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,

 

é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.

E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.

Aquela casa de nove andares comerciais

é muito interessante.

A casa colonial da fazenda também era...

No elevador penso na roça,

na roça penso no elevador.

Quem me fez assim foi minha gente e minha terra

e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.

Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.

A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro

e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.

o francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.

Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,

lê o seu jornal, mete a língua no governo,

queixa-se da vida (a vida está tão cara)

e no fim dá certo.

 

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.

Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?

Poema da purificação

Depois de tantos combates

o anjo bom matou o anjo mau

e jogou seu Corpo no rio.

As águas ficaram tintas

de um sangue que não descorava

e os peixes todos morreram.

 

Mas uma luz que ninguém soube

dizer de onde tinha vindo

apareceu para clarear o mundo,

e outro anjo pensou a ferida

do anjo batalhador.

Infância

A Abgar Renault

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

Minha mãe ficava sentada cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras

lia a história de Robinson Crusoé,

comprida história que não acaba mais.

 

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu

chamava para o café.

Café preto que nem a preta velha

café gostoso

café bom.

 

Minha mãe ficava sentada cosendo

olhando para mim:

- Psiu... Não acorde o menino.

Para o berço onde pousou um mosquito.

E dava um suspiro... que fundo!

 

Lá longe meu pai campeava

no mato sem fim da fazenda.

 

E eu não sabia que minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Sentimental

Ponho-me a escrever teu nome

com letras de macarrão.

No prato, a sopa esfria, cheia de escamas

e debruçados na mesa todos contemplam

esse romântico trabalho.

 

Desgraçadamente falta uma letra,

uma letra somente

para acabar teu nome!

 

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

 

Eu estava sonhando...

E há em todas as consciências um cartaz amarelo:

"Neste país é proibido sonhar."

Poesia

Gastei uma hora pensando um verso

que a pena não quer escrever.

No entanto ele está cá dentro

inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

e não quer sair.

Mas a poesia deste momento

inunda minha vida inteira.

Anedota búlgara

Era uma vez um czar naturalista

que caçava homens.

 

Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,

ficou muito espantado

 

e achou uma barbaridade.

Quero me casar

Quero me casar

na noite na rua

no mar ou no céu

quero me casar.

 

Procuro uma noiva

loura morena preta ou azul

uma noiva verde

uma noiva no ar

como um passarinho.

 

Depressa, que o amor

não pode esperar!

Notas finais

O humor que perpassa a maioria dos poemas desta obra são, antes de mais nada, uma forma de disfarce lírico dos sentimentos que, em certo sentido, angustiam o nosso autor.

Essa busca por uma expressão autônoma fundamenta a volta ao lugares-comuns do dia a dia, a partir da convicção de que, nas pequenas coisas, reside a verdadeira poesia – sempre universal e capaz de superar os rígidos limites do espaço e do tempo.

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