This Idea Must Die

John Brockman Também disponível em audiobook: Baixe nosso app para ouvir gratuitamente.

Neste microbook, o premiado editor John Brockman convidou alguns dos maiores cientistas, artistas e filósofos do mundo para responder a uma questão intrigante: quais ideias científicas devem ser postas de lado para que novos paradigmas avancem?

E aí, se interessou? Então, venha conosco desvendar, em 12 minutos, quais principais limitações ao desenvolvimento humano foram identificadas pelos grandes pensadores da atualidade. Boa leitura!

Comportamento = Genes + Meio ambiente

Você diria que o comportamento do seu computador ou smartphone é determinado pela interação entre o design interno e a forma como é influenciado pelo ambiente externo? É improvável.

Tal afirmação não seria falsa, mas obtusa. Sistemas adaptativos complexos possuem uma organização não-aleatória e recebem insumos. Entretanto, considerar que os insumos sejam capazes de "moldar" o comportamento do sistema não contribuiria em nada para compreender seu funcionamento.

O cérebro humano é muito mais complexo e processa seus insumos de maneiras mais intrincadas do que dispositivos criados por humanos, contudo, muitas pessoas o analisam a partir de perspectivas simplistas, fazendo com que todo termo nessa equação seja suspeito, para dizer o mínimo.

Comportamento

Mais de 50 anos após a revolução cognitiva, as pessoas ainda perguntam se o comportamento é determinado geneticamente ou ambientalmente. No entanto, nem os genes nem o meio ambiente podem controlar os músculos diretamente.

A causa do comportamento é o cérebro. Embora seja sensato questionar como as emoções, motivações ou os mecanismos de aprendizagem são influenciados pelos genes, não faz sentido perguntar isso do próprio comportamento.

Genes

A biologia molecular se apropriou do termo “gene” para se referir a extensões de DNA que codificam proteínas.

Infelizmente, esse sentido difere do usado na genética populacional, na genética comportamental e na teoria evolutiva: qualquer transportador de informações que seja transmissível entre as gerações e tem efeitos sustentados sobre o fenótipo.

Isso inclui qualquer aspecto do DNA que pode afetar a expressão gênica, e está mais próximo do que se entende por "inato" do que o conceito de genes no sentido estrito dos biólogos moleculares.

Essa confusão leva a inúmeros equívocos nas discussões acadêmicas, como a sustentação de que os genes, no sentido de sequências codificadoras de proteínas, são regulados por sinais do meio ambiente. Como poderia ser?

A alternativa é que cada célula sintetiza todas as proteínas o tempo todo! A bolha de epigenética inflacionada pelos meios científicos é baseada em uma confusão semelhante.

Ambiente

Este termo também pode ser igualmente enganador. De toda a energia que invade um organismo, apenas um subconjunto, processado e transformado de forma complexa, tem efeito sobre o subsequente processamento de informações.

A informação que é recolhida, o modo pelo qual é transformada, e como ela afeta o organismo, isto é, a forma como o organismo aprende, dependem da organização inata do próprio organismo. Portanto, a tese de que o ambiente é determinante sobre o comportamento é incompatível com a realidade.

Essencialismo

O conceito de essencialismo remete a Platão e sua visão geométrica das coisas. Para o filósofo grego, o círculo e o triângulo são formas ideais, matematicamente definíveis, mas nunca realizadas na prática. Um círculo desenhado na areia era uma aproximação imperfeita ao círculo platônico ideal pendurado em algum espaço abstrato.

Isso talvez funcione para formas geométricas, mas o problema é que o essencialismo foi aplicado aos seres vivos. O grande biólogo Ernst Mayr o culpou pelo tardio desenvolvimento da teoria da evolução das espécies.

Se você trata todos os coelhos de carne e osso como aproximações imperfeitas de um coelho platônico ideal, não lhe ocorrerá que eles possam ter evoluído de um antepassado e que continuaram essa evolução em direção a um descendente não-coelho.

Se você pensa, seguindo as postulações do essencialismo, que a essência do coelho é anterior à existência real de coelhos, a evolução não é uma ideia que surgirá de pronto em sua mente, podendo resistir quando alguém a sugerir.

Os paleontólogos argumentarão apaixonadamente sobre se determinado fóssil é Australopiteco ou Homo. Mas qualquer evolucionista sabe que deve ter existido indivíduos exatamente intermediários.

É uma insensibilidade essencialista insistir na necessidade de enquadrar o seu fóssil em um gênero ou outro. Nunca houve uma mãe Australopiteco que tenha dado à luz um filho Homo, pois todo indivíduo que nasce pertence à mesma espécie que sua mãe.

Todo o sistema de rotulagem de espécies com nomes descontínuos é orientado para uma fatia de tempo, o presente, no qual os antepassados ​​foram convenientemente expurgados de nossa consciência.

Se, por algum milagre, todos os antepassados ​​fossem preservados enquanto fósseis, a nomeação descontínua seria impossível. Os criacionistas são equivocadamente afiados em citar pretensas "lacunas" como algo constrangedor para os evolucionistas.

Entretanto, tais lacunas são uma benção fortuita para os taxonomistas que, com razão, querem dar nomes discretos às espécies. Disputar sobre se um fóssil é "realmente" Australopiteco ou Homo é como brigar sobre se George deveria ser chamado de "alto".

Ele tem dois 2,10m. Isso não é tudo o que você precisa saber?

O essencialismo mostra sua verdadeira face quando trata da chamada “questão racial”. A maioria dos "afro-americanos" é de etnia mista, porém, a mentalidade essencialista está tão enraizada que os formulários oficiais dos EUA exigem que todos optem por uma “raça” ou outra: não há espaço para intermediários.

Ainda estamos infectados com a praga do essencialismo de Platão.

As controvérsias morais, como as do aborto e da eutanásia, são criadas com a mesma infecção. Em que ponto uma vítima de acidente com morte cerebral é definida como "morta"? Em que momento de seu desenvolvimento um embrião se torna "pessoa"?

Apenas uma mente infectada pelo essencialismo formularia tais questões. Um embrião desenvolve-se gradualmente a partir do zigoto unicelular para bebê recém-nascido e não há um instante quando a "personalidade" deve ser considerada como tendo se instalado.

O mundo está dividido entre aqueles que compreendem essa verdade e aqueles que a lamentam: "mas tem que haver algum momento em que o feto se torne humano". Não há como definir um momento específico, assim como não há como definir em que exato momento um idoso se tornou velho.

A evolução, como o desenvolvimento embrionário, é gradual. Todos os nossos antepassados, de volta à raiz comum que compartilhamos com chimpanzés e além, pertenciam às mesmas espécies que seus próprios pais e filhos.

Estamos ligados a chimpanzés modernos por uma cadeia em forma de V, composta por indivíduos que antes viveram e se reproduziram, sendo, cada um deles, membros dessa cadeia, não importa que os taxonomistas insistam em dividi-los em pontos convenientes para forçar rótulos descontínuos.

Se todos os intermediários, abaixo de ambos os garfos do V do antepassado compartilhado, tivessem sobrevivido, os moralistas teriam que abandonar seu hábito essencialista e "especista" de colocar o Homo sapiens em um seno sagrado, infinitamente separado de todas as outras espécies.

O aborto não seria mais "assassinato" do que matar um chimpanzé ou qualquer animal. De fato, um embrião humano em estágio inicial, sem sistema nervoso e presumivelmente incapaz de experimentar dor e medo, deveria gozar de menos proteção moral do que um porco adulto, claramente bem equipado para sofrer.

O nosso impulso essencialista em relação a definições rígidas de "humanos", nos debates sobre o aborto e os direitos dos animais, e "vivo", nos debates sobre a eutanásia e as decisões de fim de vida, não faz sentido à luz da evolução e de outros fenômenos gradualistas.

Sendo cientificamente confuso e socialmente pernicioso, o essencialismo já está fazendo “hora extra”: deveria ser aposentado.

Nossas expectativas em relação aos robôs e à inteligência artificial

Os seres humanos têm corpos e um ciclo de vida, vivem em famílias e passam da dependência para a independência. Isso nos dá experiências de apego, perda, dor, medo da doença e, claro, a experiência da morte, elementos específicos e não compartilháveis com máquinas.

As máquinas podem ficar cada vez mais inteligentes e aprender uma quantidade incrível de coisas – certamente mais do que as pessoas podem saber. Contudo, elas são a escolha errada quando buscamos amor e companheirismo.

A companhia de uma máquina para obter auxílio instrumental, como mantê-lo seguro em sua casa, ajudar com a limpeza ou com prateleiras altas, é uma ótima ideia. Uma máquina para falar sobre relações humanas parece ser ruim.

Uma conversa sobre relações humanas é específica à nossa espécie. Elas dependem de ambas as partes vivenciando experiências advindas de possuir um corpo, limitações e um ciclo de vida humano.

Estamos embarcando em uma jornada de esquecimento. Esquecemos dos cuidados e dos diálogos que só podem ocorrer entre pessoas. A própria palavra "conversar" deriva de outras que significam a tendência de curvar-se um para ou outro.

Para falar, você tem que ouvir alguém, colocar-se em seu lugar, ler sua linguagem corporal, atentar à sua voz, seu tom, seus silêncios. Você traz sua preocupação e experiência para oferecer apoio, e espera o mesmo.

Por outro lado, um robô que compartilha informações é um excelente projeto. Mas se o projeto é companheirismo e reciprocidade de apego, você deve se inclinar para outro ser humano.

Quando pensamos, por exemplo, em adquirir sistemas robotizados de baby-sitters, nos esquecemos de que o que faz as crianças se desenvolverem saudavelmente é aprender que há pessoas que cuidam delas constantemente.

Quando as crianças estão com outras pessoas, reconhecem como o movimento e o significado da fala, voz, inflexão, rostos e corpos fluem juntos. Desse modo, aprendem como as emoções humanas fluem: algo que a inteligência artificial é incapaz de ensinar.

Existe um padrão geral nas discussões atuais acerca da utilização de robôs pessoais. Em geral, elas giram em torno das ideias de que isso “é melhor do que nada” e de que “não há pessoas para tais empregos” – por exemplo, em lares de idosos.

O passo seguinte é exaltar as possibilidades do que a simulação computadorizada pode oferecer. Ao longo do tempo, as pessoas começam a falar como se o que é possível obter artificialmente fosse qualitativamente superior ao que a vida pode oferecer.

Disseminam-se, então, justificativas esdrúxulas: “há cuidadores abusivos”, “profissionais da saúde estão sujeitos a erros que comprometem a vida”, “as enfermeiras não são bem-educadas ou gentis” etc.

O apelo ao “companheirismo robótico”, sinal dos tempos nesse primeiro quartel de século, revela nossa ansiedade sobre a vida em sociedade. Vemos a inteligência artificial como um meio, livre de riscos, para evitar a solidão.

Tememos que não nos cuidem. Somos atraídos pela robótica porque ela oferece a ilusão de companheirismo sem as exigências da amizade. Muitos chegam a sugerir que os robôs poderão oferecer a ilusão do amor sem as exigências da intimidade.

Durante muito tempo, colocar nossa esperança em inteligência artificial ou em robôs expressou um otimismo tecnológico duradouro – a crença de que, como as coisas vão mal, a ciência deve oferecer todas as respostas. Em um mundo complicado, os robôs sempre pareciam oferecer o suporte ideal.

Os robôs salvam vidas em zonas de guerra, em salas de operação; podem funcionar no espaço profundo, no deserto, no mar, onde quer que o corpo humano esteja em perigo.

No entanto, não é disso que se trata: na busca desenfreada pelo companheirismo artificial, não estamos à procura de redenção, mas dos benefícios inerentes à interação humana recíproca e verdadeira.

Teoria de tudo

Questionar a “teoria de tudo” talvez seja o mesmo que “chutar cachorro morto”, uma vez que não são poucos aqueles que se incomodam com sua hipérbole implícita.

Embora tenha estado em voga por apenas um período relativamente curto e já estar “morrendo de causas naturais”, esse conceito deve ser retirado de qualquer literatura e discurso científico que se pretendam minimamente sérios.

A busca de grandes sínteses, em termos comuns, regularidades, ideias e conceitos que transcendam os limites restritos de problemas ou disciplinas específicas, é um dos grandes impulsionadores da ciência e dos cientistas.

Como a invenção dos deuses e de Deus, o conceito da Teoria de Tudo conecta a visão mais grandiosa do todo, a inspiração de todas as inspirações: a saber, que podemos encapsular e compreender a totalidade do universo em um pequeno conjunto de preceitos e equações matemáticas.

Assim como o conceito de Deus, no entanto, é uma ideia potencialmente enganadora e intelectualmente perigosa.

Entre as grandes sínteses clássicas da ciência estão:

  • as leis de Newton, que nos ensinaram que as leis celestiais não eram diferentes das terrenas;
  • a unificação de eletricidade e magnetismo de Maxwell, que trouxe o éter efêmero a nossas vidas;
  • a teoria da seleção natural de Darwin, que nos lembrou que somos apenas animais e plantas;
  • as leis da termodinâmica, que sugerem que não podemos continuar para sempre etc.

Cada uma delas teve consequências profundas – não só em mudar a forma como pensamos sobre o mundo, mas também em lançar as bases para os avanços tecnológicos que levaram ao atual padrão de vida que desfrutamos. No entanto, elas são todas, em graus variados, incompletas.

De fato, a compreensão dos limites de sua aplicabilidade e a busca contínua por exceções, violações e falhas provocaram questões e desafios ainda mais profundos, estimulando o progresso contínuo da ciência e o desenrolar de novas ideias, técnicas e conceitos.

Um dos grandes desafios científicos é a busca de uma Grande Teoria Unificada das partículas elementares e suas interações, incluindo sua extensão para a compreensão do cosmos e mesmo a origem do espaço-tempo.

Essa teoria seria baseada em um conjunto parcimonioso de princípios universais matemáticos que integram e explicam todas as forças fundamentais da natureza, da gravidade e do eletromagnetismo às forças nucleares fracas e fortes, integrando as leis de Newton, a mecânica quântica e a relatividade geral.

Quantificações fundamentais como a velocidade da luz, a dimensionalidade do espaço-tempo e as massas das partículas elementares seriam todas preditas e, assim, as equações que regem a origem e a evolução do universo poderiam ser, finalmente, derivadas.

É uma missão verdadeiramente extraordinária e extremamente ambiciosa, que ocupou milhares de pesquisadores há mais de cinquenta anos, com um custo de bilhões de dólares.

Medido por quase qualquer indicador, essa busca, que ainda está longe de seu objetivo final, tem sido extremamente bem-sucedida, levando, por exemplo, à descoberta de quarks e bósons de Higgs, buracos negros, o Big Bang, a cromodinâmica quântica e a teoria das cordas.

Esses avanços são indiscutivelmente relevantes para o progresso do conhecimento humano. Mas englobam literalmente tudo? Bem, dificilmente. E quanto à vida, animais e células, cérebros e consciência, cidades e corporações, amor e ódio, etc.?

Como surge a extraordinária diversidade e complexidade vista na Terra? A resposta simplista é que estas são resultados inevitáveis ​​das interações e dinâmicas encapsuladas na Teoria.

O tempo evolui a partir da geometria e da dinâmica das cordas, o universo se expande e esfria, enquanto uma espécie de deus ex machina continua girando a manivela de equações e cálculos cada vez mais complexos. Qualitativamente, essa versão extrema do reducionismo pode ter alguma validade, mas falta algo.

Esse "algo" inclui conceitos como informação, emergência, acidentes, contingência histórica, adaptação e seleção – todas as características de sistemas adaptativos complexos, sejam organismos, sociedades, ecossistemas ou economias.

Sistemas adaptativos, por definição, são compostos por uma infinidade de constituintes ou agentes individuais, que assumem características coletivas geralmente imprevisíveis de seus componentes subjacentes, mesmo que a dinâmica interativa seja conhecida.

Ao contrário do paradigma newtoniano em que se baseia a Teoria de Tudo, a dinâmica completa e a estrutura de sistemas adaptativos complexos não podem ser codificadas em um pequeno número de equações.

De fato, na maioria dos casos, provavelmente nem mesmo em um número infinito! Além disso, as previsões para graus arbitrários de precisão não são possíveis, mesmo em princípio.

Talvez, então, a consequência mais surpreendente de uma teoria visionária de tudo é que isso implica, em grande escala, que o universo, embora extremamente complicado, não é complexo, mas, de fato, surpreendentemente simples, uma vez que pode ser codificado em um número limitado de equações.

Isso contrasta radicalmente com o que encontramos aqui na Terra, onde somos parte integrante de alguns dos fenômenos mais diversos e complexos que requerem conceitos adicionais, possivelmente não matemáticos, para serem compreendidos.

O desafio de desenvolver um quadro paradigmático, quantitativo, analítico e preditivo para a descrição de sistemas adaptativos complexos é certamente um grande desafio para o século XXI.

Como todas as grandes sínteses, ela inevitavelmente permanecerá incompleta, mas, sem dúvida, inspirará ideias, conceitos e técnicas importantes e, até mesmo, revolucionárias.

A uniformidade e a singularidade do Universo

Durante a maior parte do século XX, o pensamento científico foi dominado pela ideia da uniformidade do universo e da singularidade das leis da física. De fato, observações cosmológicas indicaram que o universo, nas maiores escalas possíveis, é quase exatamente uniforme, com uma precisão superior a 1 em 10.000.

A situação é semelhante em relação à singularidade das leis da física. Sabíamos, por exemplo, que a massa de elétrons é a mesma em todos os lugares da parte observável do universo, então a suposição óbvia era que ele tomava o mesmo valor em todos os lugares.

Por um longo tempo, um dos grandes objetivos da física era encontrar uma teoria que unisse todas as interações fundamentais e fornecesse uma explicação inequívoca para todos os parâmetros conhecidos da física de partículas.

Há cerca de trinta anos, surgiu uma possível explicação para a uniformidade do universo. A principal ideia era que nossa parte do mundo surgiu como resultado de um alongamento exponencialmente rápido do espaço, chamado inflação cósmica.

À medida que todas as não-uniformidades do espaço se estenderam e desapareceram, o universo tornou-se incrivelmente homogêneo. Adicione a isso algumas flutuações quânticas, estenda-as, e você verá como a uniformidade tornou-se um pouco menos perfeita, possibilitando o surgimento de galáxias.

No início, a teoria inflacionária parecia o produto exótico de uma imaginação vívida. Todavia, graças ao entusiasmo e empenho de milhares de cientistas, suas previsões foram confirmadas por muitas observações.

A teoria inflacionária não prevê que essa uniformidade deve ultrapassar a parte observável do universo.

Considere a seguinte analogia: suponha que o universo seja a superfície de uma grande bola de futebol composta por hexágonos pretos e brancos. Se a inflarmos, o tamanho de cada parte branca ou preta se tornará exponencialmente grande.

Se a inflação for poderosa o suficiente, aqueles que vivem na parte preta do universo nunca verão a parte branca. Eles acreditarão que todo o universo é preto, tentarão explicar cientificamente porque não poderia ser de outra cor.

Aqueles que vivem na parte branca nunca verão as partes pretas e, portanto, pensarão que o mundo inteiro deve ser branco. Todavia, as partes em preto e branco podem coexistir num universo inflacionário sem contradizer observações científicas.

Ao contrário da analogia do universo preto e branco, na Física o número de diferentes "cores" – isto é, diferentes estados da matéria – tende a ser muito alto.

O melhor candidato atual para uma Teoria de Tudo é a teoria das cordas, que pode ser formulada com sucesso em um espaço-tempo de dez dimensões: nove de espaço e uma de tempo.

Porém, vivemos em um universo com três dimensão, não é mesmo? Sendo assim, onde estão as outras seis? A resposta é que elas estão compactadas, ou seja, apertadas e reduzidas a proporções tão pequenas que não podemos nos mover nessas direções e, assim, percebemos o mundo como se fosse tridimensional.

Desde os primeiros dias da teoria das cordas, os físicos sabiam que era possível usar formas diferentes de calcular a compactação das seis dimensões extras, mas ainda não compreendiam o que as impedem de se expandirem.

Esse problema foi resolvido há cerca de dez anos, e a solução validou a expectativa anterior do número de possibilidades. Algumas estimativas são tão grandes que giram em torno de 10.500.

E cada uma dessas opções descreve uma parte do universo com uma energia de vácuo própria e diferentes tipos de matéria. No contexto da teoria inflacionária, isso significa que a realidade pode consistir em 10.500 diferentes tipos de universos.

Um pessimista argumentaria que, uma vez que não vemos as demais partes do universo, não podemos provar que esta imagem está correta. Um otimista, por sua vez, afirmaria que não podemos descartar a ideia, pois o principal pressuposto é que os outros universos estão longe de nós.

Portanto, qualquer um que defenda que o Universo deve ter as mesmas propriedades em todos os lugares obriga-se, antes de mais nada, a provar que apenas um desses 10.500 universos é possível.

Os limites da compreensão científica da realidade

Há uma percepção amplamente admitida de que nossa capacidade de entendimento se aprofundará indefinidamente e de que todos os problemas científicos acabarão por ceder ao ataque de nosso intelecto e a métodos inovadores de investigação.

Contudo, precisamos abandonar esse otimismo. O intelecto humano pode atingir muitos de seus objetivos, embora, na maioria das ciências, certamente há um longo caminho a percorrer antes disso.

Há negócios completamente inacabados na Cosmologia, por exemplo. A teoria de Einstein trata o espaço e o tempo como continuidades. Sabemos, no entanto, que nenhum material pode ser cortado em pedaços arbitrariamente pequenos.

Do mesmo modo, o próprio espaço possui uma estrutura granulada e "quantizada". Simplesmente ainda não podemos dispor de uma compreensão unificada dos fundamentos do mundo físico.

Tal teoria faria com que Big Bangs e multiversos se tornassem paradigmas comumente aceitos. Mas isso não indicaria o fim da descoberta. Na verdade, seria irrelevante para os 99% dos cientistas que não são físicos de partículas ou cosmólogos.

Nosso entendimento de qual a melhor alimentação ou a forma mais adequada para educar nossos filhos muda a cada ano. Isso pode parecer um contraste incongruente em comparação à naturalidade que demonstramos ao discutir sobre galáxias e partículas subatômicas.

Contudo, os biólogos se ancoram em problemas de alta complexidade – e estes são mais assustadores do que os muito grandes ou os muito pequenos.

O conhecimento científico é frequentemente comparado aos diferentes níveis que compõem um edifício: física de partículas no piso térreo, depois o resto da física, em seguida a química, e assim por diante – todo o caminho até a psicologia e os economistas instalados confortavelmente na cobertura.

Há uma hierarquia de complexidade correspondente: átomos, moléculas, células, organismos e assim por diante. Essa metáfora é, de certa forma, útil, pois ilustra como cada ciência é construída.

Porém, em um aspecto fundamental, a analogia é fraca: em um prédio, fundações inseguras colocam em risco as estruturas superiores. Mas as ciências de "nível superior" que lidam com sistemas complexos não estão em perigo por uma base frágil.

Cada ciência tem seus próprios conceitos e explicações particulares. Mesmo que tivéssemos um hipercomputador capaz de resolver a equação de Schrödinger para quadrilhões de átomos, ele não produziria o tipo de compreensão desejada pela maioria dos cientistas.

Notas finais

O lugar privilegiado que a ciência ocupa nas sociedades contemporâneas se justifica pelo fato de que, enquanto forma específica de conhecer a realidade, ela oferece respostas e, finalmente, soluções.

Embora nem todos o admitam publicamente, qualquer cientista sabe o que a ciência realmente faz: descobrir e revelar a profundidade de nossa ignorância.

A crescente esfera do conhecimento científico não é a luz dissipadora das trevas obscurantistas, mas uma pequena fogueira que brilha na escuridão de um vasto mistério.

Promover descobertas é o que garante financiamento e reconhecimento aos cientistas e suas pesquisas. Talvez tenha chegado a hora de rever esse status: eliminando a descoberta como última medida do progresso científico.

Para que o conhecimento humano continue a avançar é necessário pararmos de qualificar o sucesso das investigações científicas por sua quantidade de novas descobertas.

Em vez disso, o foco deve ser colocado na crescente lista de novos mistérios e objetos de investigação – justamente aqueles capazes de nos lembrar quão pouco realmente sabemos acerca do mundo à nossa volta.

Dica do 12’

Leia também “Sapiens” e conheça os pontos centrais da nossa evolução enquanto seres humanos, bem como os pontos positivos e negativos advindos das mudanças pelas quais passamos ao longo das eras!

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