O Pequeno Polegar

Charles Perrault Também disponível em audiobook: Baixe nosso app para ouvir gratuitamente.

Era uma vez, um lenhador, ele estava ao pé da lareira com sua esposa ao lado, e enquanto atiçava o fogo lhe falava:

— Quem nos dera ter um filho, nossa casa é tão silenciosa que os sons dos animais que vivem na floresta são os únicos a nos fazer companhia nessas horas.

— É verdade, - respondeu a mulher, cabisbaixa — Mesmo que tivéssemos um único filho, e ele fosse do tamanho deste polegar, nós o amaríamos mais que tudo nesse mundo! Lembro-me que outrora, quando vivia com meus pais e irmãos, por essas horas nossa casa era repleta barulho e alegria.

Passaram-se algumas semanas, até que a mulher começou a sentir-se indisposta, e após consultar-se com o médico do vilarejo mais próximo, descobriram que ela estava grávida. Desde este dia a alegria preenchia a casa que antes já era aconchegante, e agora repleta pela felicidade que lhes faltava.

A ansiedade era tamanha, o lenhador ocupava seus dias em recolher lenha para vender na cidade, e enquanto sua esposa tricotava as roupas do bebê, em frente à lareira o lenhador talhava na madeira o berço e os brinquedos para seu já tão amado filho.

No tempo previsto, a mulher deu à luz, o bebê nascera perfeitamente formado, mas para a surpresa e espanto de todos ele era do tamanho de um polegar. Então lhe deram o nome de Pequeno Polegar.

Todas as roupinhas tricotadas por sua mãe lhe ficaram enormes, então com muito gosto a mulher voltou a tricotar minúsculas roupinhas para o bebê.

Os pais cuidavam da criança com muito amor, alimentando-o com tudo que havia de melhor, porém o Pequeno Polegar nunca cresceu, era do mesmo tamanho desde que nasceu. Em contrapartida, era uma criança muito inteligente e vivaz, em tudo queria meter-se a aprender e desempenhava perfeitamente bem todas as tarefas que lhe confiavam.

A casa em que viviam era pequena e confortável, em seu terreno havia um celeiro para as vacas e cavalos da família. Era rodeada por uma vívida floresta, de onde o lenhador recolhia a madeira.

O lenhador que antes passava a maior parte do dia embrenhado na floresta a trabalhar, agora não se afastava tanto de sua casa, pois todos os dias após o almoço, com satisfação ele dedicava seu tempo à família, principalmente ajudando e ensinando coisas novas ao curioso e inteligente Pequeno Polegar.

Passaram-se 15 anos, Pequeno Polegar desenvolveu-se, porém sem crescer em estatura. Certo dia, o lenhador estava a organizar suas ferramentas de trabalho antes de começar sua labuta, e falando consigo mesmo dizia:

— Ah como eu queria que alguém guiasse a carroça até mim para carregar a lenha ao findar o trabalho, assim não seria tão cansativo o retorno para casa.

Escutando o que seu pai falava, o Pequeno Polegar logo se manifestou dizendo:

— Eu posso guiar a carroça papai! Sentarei na orelha do cavalo e lhe direi qual caminho seguir, por favor deixe-me lhe ajudar!

Então sua mãe falou:

— Acredito que ele seja capaz, é pequeno em tamanho, porém tão esperto que isso não será empecilho. Já é hora de delegar-lhe tarefas, deixe-o ajudá-lo.

Seu pai então concordou. Acertaram que ao meio dia Pequeno Polegar guiaria a carroça para buscar a lenha e trazer seu pai.

E assim foi, ao meio dia a mãe selou o cavalo e colocou o Pequeno Polegar sentado confortavelmente na orelha do bicho. Recomendou-lhe cautela, para que não levasse a carroça a toda carreira e que não falasse com estranhos. Depois de todas as recomendações lá se foi o menino, que comandava o cavalo lhe falando ao pé do ouvido: “irra, arroe, breca”.

Sucedeu que, ao trilharem o caminho de volta para casa, dois desconhecidos cruzaram seu caminho, e curiosos por não verem alguém conduzindo a carroça, ficaram a rodeá-la tentando entender como era possível o cavalo seguir a estrada sem alguém para guiá-lo. Instantes depois finalmente conseguiram avistar o Pequeno Polegar sentado confortavelmente na orelha do cavalo.

— Meu Deus! — exclamou um dos desconhecidos — eu nunca vi uma criança tão pequenina.

— Onde estão os seus pais menino? — perguntou-lhe o outro.

Pequeno Polegar apontou para trás, indicando a eles seu pai, que vinha andando a passos lentos e cansados.

Aos cochichos, os dois homens trocaram algumas palavras entre si, então foram de encontro ao pai do garoto e lhe disseram:

— Bom dia senhor! Hoje é seu dia de sorte, temos uma ótima proposta a lhe fazer. Lhe daremos uma boa quantia em dinheiro, se em troca você nos vender seu pequenino filho. Nós o levaremos para viajar conosco e o apresentaremos em shows; lhe garanto que ele será tratado muito bem. Conseguiremos uma fortuna com ele, pois em lugar nenhum neste mundo se viu criança tão pequena!

— Vocês são loucos? – perguntou indignado o pai do Pequeno Polegar —  Como têm coragem que me propor isso?! Polegar é meu filho e eu o amo mais que tudo. Ele não está a venda!

Ao escutar a proposta o Pequeno Polegar empertigou-se, e esperto como era, argumentando com seu pai falou:

— Deixa-me ir com eles papai! Aceite a proposta, pois recebendo este dinheiro você não precisará mais trabalhar. Logo você envelhecerá e não irá conseguir trabalhar duro como antes. Pegue o dinheiro e aproveite sua vida ao lado da mamãe, vocês merecem uma vida sem preocupações. Eu prometo que não irei demorar a voltar pra vocês.

O homem, que sempre escutou as palavras do seu filho, conhecia-o melhor que qualquer outra pessoa, logo era ciente de sua perspicácia e determinação. Sabia que o Pequeno Polegar era perfeitamente capaz. Com certeza se sairia bem na empreitada que insistia em ingressar.

Após muita conversa, mesmo que a  contra gosto, seu pai então concordou, deixando-o ir.

Então lá se foi o menino, empoleirado no chapéu de um dos homens a cantarolar.

Ao entardecer, após horas de uma caminhada cansativa, eles chegaram a uma pequena estalagem, sentaram-se em uma das mesas, pediram frango assado para jantar antes de seguirem viagem.

Enquanto estavam distraídos a comer frango, Pequeno Polegar escorregou do chapéu, pulou da mesa, entrou num buraco que ficava no rodapé da parede e embrenhou-se até o fundo dele.

Os homens deram-se conta da fuga e correram a cutucar o buraco com um cabo de vassoura.

— Saia já daí menino! — ralhavam os homens.

- Daqui em diante podem seguir sem mim senhores, façam uma boa viagem, e não demorem muito a ir, a noite já irá cair e no breu a estrada não é segura.

Todas as tentativas de tirar o garoto do buraco foram falhas. Frustrados e exaustos, os homens decidiram ir embora, deixando para trás o menino, e junto com ele suas esperanças em fazer fortuna.

Logo que percebeu a calmaria, Pequeno Polegar espreitou-se para fora do buraco e saiu correndo da estalagem.

— O que faço agora? — pensou em voz alta o menino — Como voltarei para minha casa? Já é noite e a estrada é perigosa.

Enquanto pensava, o garoto viu à distância um pequeno tronco de madeira, aproximou-se e viu que era oco. Aquele seria o esconderijo perfeito para passar a noite em segurança, esgueirou-se para dentro do tronco e lá repousou.

Após algum tempo, enquanto pensava nas aventuras que viveu naquele dia, Pequeno Polegar escutou vozes ao longe, quanto mais se aproximavam a conversa ficava mais clara. Eram dois homens, distinguiu o menino. Um deles falou:

— Como faremos para entrar na casa do pastor? Teremos que ser cuidadosos para não fazer alarde. Não queremos que isso acabe mal.

Percebendo que se tratavam de ladrões, Pequeno Polegar viu na ocasião uma oportunidade de percorrer parte do caminho para sua casa em segurança, e de quebra ainda ajudaria o pastor a evitar o assalto.

— Quantas aventuras em um só dia! — pensou consigo mesmo o menino.

— Olá, eu posso ajudá-los a entrar na casa do pastor! — gritou o menino — entrarei pela janela e lhes entregarei o que me pedirem.

— Você escutou isso? — falou um dos ladrões — De onde veio esta voz?

— Estou aqui embaixo, dentro do tronco. — o menino indicou.

Os homens ficaram surpresos ao verem o Pequeno Polegar, afinal esta era a reação de todos ao verem um garoto tão pequeno.

— Deixe-me subir em seu ombro — falou a um deles — assim chegaremos mais rápido.

Mesmo que desconfiados, os homens acabaram por concordar, afinal não tinham um plano melhor que aquele.

Andaram por algumas quando chegaram na casa do Pastor, Pequeno Polegar lhes pedir que o colocasse na beirada da janela.

Ele subiu e entrou facilmente, já dentro de um dos cômodos da casa, o garoto começou a falar muito alto com os ladrões, seu intuito era acordar o pastor ou quem quer que escutasse:

— Qual objeto vocês querem que eu pegue primeiro? — gritava o menino.

— O que você está fazendo garoto? Desse jeito vai acordar a todos e seremos pegos! – falavam desesperadamente os ladrões, mas o Pequeno Polegar fingiu não entender o que eles falavam e gritava cada vez mais alto para chamar atenção dos moradores da casa.

E assim aconteceu, logo começaram a escutar passos vindos do corredor, e quando a empregada da casa escancarou a porta, os ladrões fugiram antes que fossem flagrados.

Rapidamente, o Pequeno Polegar se escondeu, a empregada que empunhava uma espingarda revirou todo o quarto procurando indícios de um invasor. Como não encontrou nada, trancou a janela e voltou a dormir.

Pequeno Polegar se espremeu por baixo da porta e saiu da casa antes que o vissem. Avistou um celeiro ali perto e entrou, decidiu que dormiria ali mesmo em meio aos fenos.

Na manhã do dia seguinte, como de costume a empregada levantou com o cantar do galo, seguiu sua rotina diária, pegou uma pá de feno e enquanto a vaca comia, amarrou suas patas afim de ordenhá-la

Pequeno Polegar estava tão cansado que não se acordou ao sentir o feno remexer. Despertou de repente, sendo jogado de uma lado para o outro num lugar molhado, ele estava desesperado por não saber o que lhe acontecia. Rapidamente foi empurrado para um lugar escuro, e quando escutou o mugido da vaca entendeu onde estava.

— Não tragam mais feno! — gritava e repetia Pequeno , ele temia que o feno que a vaca engolia o cobrisse por completo, sufocando-o...

Ao escutar os gritos desesperados que vinham de dentro da vaca, a empregada se assustou e correu para a casa gritando a chamar o pastor, lhe dizendo que a vaca estava possuída por um espírito.

O pastor, incrédulo pelo relato da mulher, resolveu ir ele mesmo até a vaca. Chegando no celeiro assustou-se tanto quanto a empregada com os gritos vindos do animal, e em meio ao alvoroço decidiu matar a vaca, assim resolveria o problema.

E assim o pastor o fez, matou a pobre vaca com golpe na cabeça, jogando seus restos do outro lado da cerca para que os animais da floresta os comessem.

Depois disso, Pequeno Polegar tentava desesperadamente encontrar uma saída do estômago da vaca. E antes que conseguisse fugir, sentiu algo o suspendendo.

Era um lobo faminto que estava por perto, e sentindo o cheiro de carne fresca, aproximou-se da cerca, pegando para comer justamente a parte do estômago da vaca onde estava o Pequeno Polegar.

O lobo tinha tanta fome que nem mastigou a comida, engolindo tudo rapidamente. Esta foi a sorte do Pequeno Polegar, que estando novamente preso, só que desta vez no estômago do lobo, começou a pensar numa forma de sair dali.

— Oh Céus, o que farei agora? Como irei sair daqui? — Falou o menino.

Pequeno Polegar já sabia que sozinho não conseguiria sair da barriga do lobo, e se pedisse ajuda a alguém, essa pessoa provavelmente se assustaria, assim como aconteceu com a empregada e o pastor.

Então decidiu que levaria o lobo até a casa de seus pais, pediria ajuda a eles, que com certeza reconheceriam sua voz.

— Lobo, eu sei de uma casa aqui perto, onde tem muita carne fresca e frango assado. Se quiser posso te levar lá — disse o menino de dentro da barriga do lobo.

O lobo gostou da ideia, e logo seguiu as ordens do menino. Quando chegaram na casa dos pais do Pequeno Polegar, o lobo adentrou a cozinha pela janela, mas como não era nada cuidadoso acabou fazendo muito barulho.

A essa altura os pais do menino, que ainda dormiam durante aquela manhã, despertaram do sono por conta de todo barulho que vinha da cozinha.

O pai do pequeno polegar se armou de um machado que guardava atrás da porta de seu quarto, e saiu dali dizendo para sua esposa que cortaria em pedacinhos o invasor.

Chegando na cozinha, o pai viu o lobo, e quando o bicho percebeu que o lenhador tinha visto-o, parou de comer e começou a rosnar. Com o machado em mãos o lenhador estava pronto para se defender, e pouco antes que este o atacasse, o homem escutou a voz de seu filho, o Pequeno Polegar, que gritava com toda força de dentro da barriga do lobo:

— Estou aqui na barriga do lobo Papai, sou eu, o Pequeno Polegar!

Só houve tempo para o menino acabar de falar, então o lobo partiu para atacar o homem, que rapidamente desferiu um golpe no pescoço do animal, matando-o.

O pai cortou a barriga do lobo e tirou o Pequeno Polegar de lá, e ao mesmo tempo falava chorando:

— Meu filho querido, me desculpe. Nunca mais irei vendê-lo ou perdê-lo de vista, nem por toda riqueza do mundo!

— Nós te amamos meu filho, estávamos muito tristes e preocupados com você. Graças a Deus agora você está em segurança — falou a mãe.

— Eu também amo vocês — disse o Pequeno Polegar — deveria ter lhe dado ouvidos papai, e não ter ido com aqueles homens.

Depois de todas as aventuras e perigos, o Pequeno Polegar aprendeu que nunca se deve assumir compromissos que não temos intenção de cumprir. Se ele tivesse escutado os conselhos de seus pais, teria evitado tantos perigos desnecessários pelos quais passou.

Nossos pais sempre querem o nosso bem, eles são as pessoas que mais nos amam neste mundo.

 

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