O Livro do Ego

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Por meio de uma série de reflexões Osho nos convida a descobrir como a sociedade impõe padrões de comportamento para que sejamos cada vez melhores que todos à nossa volta.

Com temas como política, poder, violência e amor, relacionados à influência do ego, seus ensinamentos proporcionam a libertação por meio da autoaceitação, que só é possível quando nos despimos de toda vaidade que fomos ensinados a carregar.

Ao longo dessas páginas, o autor nos provoca o despertar da consciência demonstrando que a única coisa que temos a perder, por mais difícil que pareça, são as ilusões.

Esta leitura contribui de maneira imprescindível para a criação de um mundo melhor. Embarque nessa viagem de autoconhecimento com o 12 minutos.

Iniciando

O homem é um ser simples. Nasce somente como um ser e nele é depositada uma camada sobre outra de expectativas. A educação o prepara para ser melhor que os outros, seus pais esperam que ele seja cada vez melhor, e caso isso não aconteça, ele não serve para nada.

A Psicologia afirma que devemos ser mais fortes e melhores. O homem simples é considerado simplório, fazendo com que a simplicidade seja a morte do ego. Dessa forma, somos condicionados a nos tornarmos outros seres além daqueles que somos por natureza.

O homem simples não pode ser o objetivo da sociedade, pois já nascemos simples. A educação ambiciona que sigamos na direção de outro ser que ainda não nos tornamos e, assim, jamais alcançamos o objetivo, já que sempre estaremos inferiorizados se comparados a outras qualidades de alguém.

A vida é multidimensional, logo não é possível seguir em todas as direções sendo o primeiro em todas elas. A existência não funciona assim. No entanto, os interesses instituídos pela sociedade nos fazem acreditar que devemos ser melhores em tudo o que fazemos.

Por esse motivo ninguém que ser simples e não sendo simples é impossível estar à vontade consigo mesmo em total aceitação do ser. O ego é a doença do homem, já que o faz andar em círculo para tornar-se e não para ser.

Tornar-se é doença, enquanto ser é saúde, mas não experimentamos isso ainda, pois a sociedade não permite, já que isso seria um perigo para os interesses pré-estabelecidos. Tornar-se livre e feliz é abandonar a ideia do ego.

Nada está em risco. O homem está atrás de capturar sombras que jamais será capaz de capturar, esquecendo que todos os tesouros que possui já trouxe consigo para o mundo. Antes que satisfaça seu ego, a morte o terá alcançado e a vida é muito curta para esse tipo de jogo.

O que é o ego

Quando nascemos somos um ser autêntico. O ego é o oposto de o verdadeiro ser. É uma ilusão criada pela sociedade, que, a partir de um nome, erguem-se ambições e condicionamentos que nos levam ao desejo de ser o primeiro em tudo.

Dessa forma, tudo que disseram sobre nós não é autêntico, pois somente o próprio ser é capaz de saber o que é em sua essência. As crianças não nascem com ego, mas o tem embutido. Elas não têm qualquer noção do eu. Sua consciência marca o início do funcionamento de uma energia distinta.

A partir disso o “eu” quer crescer, destacar-se, buscar níveis de reconhecimento em todas as fases da vida. A comparação com os outros traz complexos de inferioridade e sentimento de fracasso, gerando assim todos os conflitos humanos.

O ego humano é a fonte de todos os problemas e sofrimentos, um dispositivo artificial criado pela sociedade que teme o desmoronamento das expectativas. Mantém o homem numa teia de conformismo, na qual se quiser se destacar ainda mais amanhã, terá que sofrer hoje, mas o amanhã nunca chega.

O ego só pode existir com o não existencial, pois ele próprio é inexistente. Ele não está no passado, que já não é mais e não está no futuro, que ainda não é. Ainda assim não tem contentamento ou finalidade no momento presente. É um jogo político de frustração e uma estratégia para manter as pessoas em sofrimento.

O ego mantém o homem na expectativa: a alegria só será alcançada quando atingir certo grau de algo que sempre está no futuro. No entanto, no presente, no momento puro, o homem não vai encontrar nenhum ego em si, e sim uma alegria silenciosa, um nada silencioso e puro.

Para sobreviver e para lutar pela sobrevivência, todas as pessoas precisam ter certa ideia de quem são. E ninguém tem a menor ideia porque no mais profundo âmago o homem é um mistério. Ele não pode ter nenhuma ideia disso. No âmago, o homem não é individual e sim universal.

Quando nascemos recebemos um nome, que é uma ficção, já que não viemos com ele. É uma ficção necessária e útil com a qual passamos a nos identificar por sua repetição.

Os nomes são necessários para que as pessoas chamem umas às outras, e o “eu” é necessário para que cada pessoa chame a si mesma, mas é apenas ficção.

Porém, se a pessoa penetrar fundo dentro de si, vai descobrir que o nome desapareceu, que a ideia do “eu” desapareceu, e que restou apenas um ser puro, uma existência. Assim também é o ego: uma ficção útil. Use-o, mas não se deixe enganar por ele.

Visto que o ego é uma ficção, há momentos em que a pessoa fica livre dele. Por se tratar de uma ficção, o ego pode ficar presente apenas se a pessoa continuar a mantê-lo. A ficção precisa de bastante manutenção. A verdade não precisa de nenhuma manutenção, e é essa a beleza dela.

Então, às vezes, sem que a pessoa perceba, há momentos em que se tem um vislumbre da realidade sem que o ego funcione como uma barreira. Sem a tela do ego, há momentos assim, mas sem que a pessoa perceba, é bom lembrar.

Por exemplo, toda noite, quando a pessoa cai em sono profundo, e o sono é tão profundo que não pode nem mesmo sonhar, o ego não é mais encontrado, todas as ficções se foram. Portanto, tenha em mente que o sono é muito valioso, e não o perca, de jeito nenhum.

A segunda maior fonte de experiências sem ego é o sexo, o amor. Se a pessoa conseguir desfrutar do ato de amor totalmente, o ego desaparece, porque no clímax, no mais alto clímax do ato de amor, a pessoa é pura energia. A mente não consegue funcionar.

É tamanha a explosão de energia que a mente fica desorientada, não sabe mais o que fazer. A mente é perfeitamente capaz de permanecer em funcionamento em situações normais, mas, quando alguma coisa muito nova e muito vital acontece, ela para. E o sexo é o que há de mais vital.

Se a pessoa puder se aprofundar no ato sexual, o ego desaparece. Essa é a beleza de se fazer amor, que é outra fonte de um vislumbre de Deus, assim como o sono profundo, mas muito mais valioso, porque, no sono, a pessoa fica inconsciente. Ao fazer amor, ela fica consciente, porém, sem a mente.

Existem outros momentos em que o ego escapa da sua própria vontade. Em momentos de grande perigo, por exemplo. É por isso que há uma grande atração para se envolver em situações perigosas.

Sempre que o perigo está próximo, a mente para. A mente consegue pensar somente quando a pessoa não está em perigo, pois não há nada a dizer em perigo. O perigo torna as pessoas espontâneas e, nessa espontaneidade, elas, de repente, sabem que não são o ego.

Mas as pessoas são diferentes e esses momentos podem acontecer em outras circunstâncias, como quando apreciamos a natureza. Graças a esses momentos a religião ainda não morreu.

Ideais

O ideal quer dizer que o homem não é aquilo que deveria ser. O ideal cria tensão, ansiedade, angústia e divide o homem. É algo inalcançável porque quanto mais perto do ideal estivermos novos ideais serão criados. O ego precisa do impossível, mas o impossível, por sua própria natureza, não vai acontecer.

Portanto, para viver em busca do ideal restam duas opções: a primeira é começar a se sentir culpado e a culpa é um estado de doença. A segunda é a hipocrisia que fará o homem tentar enganar os outros e a si mesmo sobre ter alcançado a perfeição.

Fingir, viver uma vida de pretensões, é muito pior do que a vida de um homem culpado. O homem culpado é simples, mas o homem hipócrita é um trapaceiro. Ele é basicamente desumano, sobretudo consigo mesmo, porque reprime a si, já que essa é a única forma de fingir.

O ideal remete a perfeição e a perfeição significa a morte, já que não há como ir além dela. Não devemos nos preocupar com a perfeição, mas com a totalidade. O homem deve querer ser inteiro e não perfeito, isso lhe dará uma dimensão diferente.

Sucesso

A ambição é venenosa. Um pintor que coloca toda sua energia em uma obra a terá aqui e agora. O sucesso e a fama são absolutamente aleatórios. O sucesso é intrinsecamente bom, mas não devemos escolhê-lo como motivação.

O nome e a fama são inerentes, mas o balanço final depende da felicidade com a qual se viveu. Estamos sempre sendo torturados pelo conceito de sucesso, que envolve competição e luta. Cada ser é único, não pode ser outro, devendo apenas ser criativo, amável, consciente e meditativo.

Devemos deixar de lado o desejo de nos tornarmos especiais, pois já o somos. O ego nos faz travar essa batalha conosco e com os demais em busca de destaque. A originalidade já existe dentro de nós, basta reconhecê-la. Qualquer comparação resulta, obrigatoriamente, em conflito.

A comparação dá asas à ambição e à imitação e assim é difícil encontrar alguém que se respeite. Deus não gosta de repetir suas criações, portanto, somos seres únicos. Nunca imite. Seja você mesmo e respeite seu ser, que é uma dádiva de Deus.

Mente

A mente é um biocomputador. Ao nascer, a criança não tem qualquer mente e seu mecanismo só é acionado aos três ou quatro anos. A mente precisa ser alimentada com informações e, por isso, as crianças sentem alegria quando aprendem coisas novas e a repetem incansavelmente.

Uma nova palavra vira uma frase e se transformam em perguntas. Não estão interessadas em respostas, por isso devem-se evitar respostas longas. É somente um mecanismo aprendendo a funcionar.

Em nossa sociedade o silêncio não compensa, mas sim as palavras. Quanto mais articulado o discurso, melhor, pois a sociedade é dominada por pessoas verbalmente versáteis.

A mente trabalha incessantemente por setenta ou oitentas anos. Se treinarmos nossa mente será possível desligá-la. A isso se dá o nome meditação. Meditar possibilita atingir a paz e, em silêncio, conhecer a nós mesmos. A mente descansada acumula energia para funcionar de uma forma mais racional.

Descansada, a mente trabalhará com mais vivacidade, fornecendo respostas mais eficientes e honestas, com real sentido. A meditação possibilita a comunicação entre o mundo que conhecemos e com o divino e sagrado, dando mais poder a nossa mente.

A fonte de todas as tensões reside na nossa mente e por isso os problemas aparecem quando ela assume o controle, substituindo o coração e o ser. É o fenômeno mais evoluído da humanidade.

Esteve na base de toda tecnologia e ciência porque se baseia na lógica, mas o coração tem um valor superior. O homem é o único animal que ri. A lógica em si é insípida e não tem serventia para as relações humanas. A mente está para a lógica, o coração para o amor e o ser para a meditação.

Para a mente a casa é uma simples casa, para o coração é um lar e para o ser é um templo. A mente serve ao coração, o coração serve ao ser e o ser integra uma massa intelectual espalhada por todo o mundo.

A mente nos pertence ou foi implantada por terceiros. É uma projeção da sociedade. O cérebro é o mecanismo e a mente é a ideologia, por isso, para cada sociedade existe um tipo de mente. Elas servem aos interesses dessas sociedades como se nos fossem emprestadas.

A nossa mente não é sofisticada, tem séculos de existência e a vida deve passá-la numa constante apreciação da liberdade.

Identificação

Identificar-se com algo que você não é: essa é a estrutura do ego. Sempre que alguém diz “eu” há identificação com algo, seja um nome, uma forma, um corpo, um passado, seja com a mente, com pensamentos, com memórias. Somente quando há alguma identificação profunda é que a pessoa pode afirmar “eu”.

A própria identidade se torna a prisão do indivíduo. É preciso que ele se mantenha não identificado e seja quem ele é para que a liberdade seja possível.Essa identificação é o ego.

Se o indivíduo não estiver identificado com algo, com um nome ou com uma forma ou qualquer coisa, então, onde está o ego? Nesse caso, o indivíduo é, e, ainda assim, ele não é. Consequentemente, ele está em sua pureza absoluta, mas sem ego.

O ser humano se identifica com qualquer coisa. As pessoas se identificam com pessoas e, depois, criam sofrimento para si mesmas. Identificam-se com coisas, e, depois, ficam infelizes se essa coisa está ausente. A identificação é a raiz da infelicidade humana. E toda identificação é uma identificação com a mente.

Somos observadores identificados com tudo àquilo que é agradável à mente. Mas, ao nos identificarmos, a parte desagradável surgirá como uma sombra. A consciência é uma e a mente tem sua dualidade e por isso desvia as pessoas do estado de contemplação.

Poder

O poder, em si, é neutro. Nas mãos de um homem bom, vai ser uma bênção. Por outro lado, nas mãos de um homem inconsciente, vai ser uma maldição. Porém, há milhares de anos o poder é condenado, sem se pensar que ele, na verdade, não tem de ser condenado.

As pessoas é que têm de ser purificadas de todos os instintos horríveis que estão escondidos dentro delas, porque todas vão ter um tipo ou outro de poder. Até mesmo os pais usam o poder. Os professores usam o poder, maridos usam o poder, esposas usam o poder. Não importa onde o indivíduo esteja.

Se a humanidade vier a compreender as profundas raízes psicológicas e mudar o inconsciente do homem de modo que não haja sementes, o poder poderá continuar a chover, mas não haverá flores de corrupção.

O poder torna-se um alimento para o indivíduo, uma oportunidade. Não que o poder corrompa, o homem é que é corrompido. Não é o poder que corrompe o homem, o homem é que carrega a corrupção dentro de si. O poder apenas lhe dá a oportunidade de fazer o que quiser.

Só a meditação proporciona à pessoa um coração puro, que não pode ser corrompido. Com isso, o poder nunca pode ser corrompido e, então, será uma bênção, e vai ser criativo. A pessoa fará algo para tornar a vida mais amável, mais acolhedora, para tornar a existência mais bela.

Política

Todos foram programados para ser ambiciosos. E é aí que entra a política. Não é só no mundo comum da política, ela polui até mesmo a vida comum do indivíduo.

Portanto, é preciso entender que a política não é só aquela que se conhece pelo nome. Sempre que alguém coloca em prática uma série de poderes, isso é política. Não importa se diz respeito ao Estado, ao governo e assuntos como a utilização do poder.

As crianças vêm ao mundo sem qualquer ambição ou desejo de poder. Os padres, políticos, pais, sociedade e educação moldam as crianças. Mais tarde, elas repetirão o ciclo.

A política conduziu ao sofrimento, sendo desnecessária e ultrapassada. Um governo mundial, meramente funcional e sem necessidade de prestígio é necessário para que os indivíduos possam decidir individualmente.

Os padres e os políticos são as pessoas que podem quebrar esse ciclo, pois as nações e as religiões foram inventadas por eles. Sem nações ou religiões nascerá um mundo novo e único.

Violência

Todos os ditadores do mundo são criados por nós. A razão é que ninguém quer ter nenhuma responsabilidade. Porém, no momento em que a pessoa perde sua responsabilidade, por achar que é um fardo e que alguém deve assumi-la, perde também sua individualidade, perde também sua liberdade.

O homem perde sua alma no momento em que coloca sua responsabilidade nas mãos de outra pessoa.

O homem quer ser desobrigado de responsabilidade e, é claro, há algumas pessoas que estão preparadas para assumir todas as responsabilidades, porque estão assumindo toda a liberdade do homem.

O homem não é um ser uno, é o passado e o futuro ao mesmo tempo. Ao olhar para o passado é um animal e, para o futuro, o divino. O conflito entre religião e ciência é o ponto de vista. Enquanto um olha para o passado, o outro olha para o futuro.

A violência e o sangue são recordações de uma condição animal, mas há uma lei fundamental: nada volta atrás. A herança animal tem uma energia imensa. Nascemos nessa condição e a única diferença é a mente. Reprimir essas energias gera instinto violento.

Tudo que é reprimido acaba por estabelecer raízes sólidas e isso acaba por afetar nossas ações de uma forma muito sutil. Por isso a energia que nos move é distribuída por diferentes canais, porque nenhuma energia deve ser reprimida.

O sexo reprimido, por exemplo, leva a ações violentas. Em virtude disso os soldados são proibidos de ter relações sexuais antes das batalhas de forma a acumular raiva, assim se tornam mais violentos. O mesmo acontece com atletas.

Se o amor se espalhar, a guerra desaparecerá – os dois não podem coexistir. As pessoas não devem reprimir nada. Se a sexualidade está lá, não deve ser reprimida, pois, do contrário, cria-se uma nova complexidade, que vai ser mais difícil de ser resolvida.

Para aqueles que forem capazes de vir para a sexualidade natural, espontânea, as coisas serão simples, de um modo que nem se pode imaginar. E, depois, a energia resultante é natural, e não cria nenhum obstáculo para a transformação. Assim, pode-se dizer que o melhor é: do sexo para a superconsciência.

A transformação pode acontecer somente se, primeiro, a pessoa aceitar o seu ser natural. O que quer que seja natural é bom. É possível obter mais, mas isso só será possível se a pessoa aceitar sua natureza como um todo, se acolhê-la, se não se sentir culpada em relação a ela.

Terapia

O homem precisa ser necessário; é uma necessidade humana fundamental. A menos que uma pessoa sinta que é importante para alguém, toda a sua vida se torna insignificante. Por isso, o amor é a maior terapia que existe. O mundo precisa de terapia porque nele está faltando amor.

Os psicólogos sabem bem que se uma criança não for abraçada e beijada ela sentirá falta de carinho. Assim como o corpo precisa de alimento a alma precisa de amor. O amor é nossa conexão, o amor é nossa raiz.

A análise não vai fazer isso. A inteligência e a clareza, o conhecimento e a formação acadêmica não vão fazer isso. A intimidade é necessária, é um requisito básico.

A análise é o caminho da mente, o abraço é o caminho do coração. A mente é a causa de todas as doenças e o coração é a fonte de toda cura.

O passado foi mais saudável espiritualmente, e o motivo foi que a mente não era alimentada com tantas coisas ao mesmo tempo, a mente não ficava sobrecarregada. A mente moderna é sobrecarregada, e aquilo que deixa de ser assimilado gera neurose.

A pessoa realmente saudável é aquela que leva 50% de seu tempo para assimilar suas experiências. 50% de ação, 50% de inércia, esse é o equilíbrio certo; 50% de pensamento, 50% de meditação, essa é a cura.

Nesses momentos, tudo o que acumulou foi assimilado. Aquilo que não tem valor é jogado fora. A meditação funciona como uma faca de dois gumes: de um lado, assimila tudo o que é nutritivo e, do outro, rejeita e joga fora tudo o que é lixo.

As pessoas estão ficando cada vez mais neuróticas, porque continuam caminhos que não funcionam. O homem que é capaz de aprender nunca se torna neurótico. Ele vê imediatamente quando há uma parede. Ele abandona a ideia toda. Começa a passar para outras dimensões. Há outras opções disponíveis. Ele aprendeu algo.

Isso é aprendizagem. Tentar uma experiência e, ao ver que ela não dá certo, tentar uma opção e, ao ver que esta não funciona, o homem sábio a abandona. O tolo se apega a ela.

Assim, se os problemas são controláveis, e a pessoa consegue conviver com eles, ela permanece sã. Quando a pessoa percebe que isso se torna insuportável, ela enlouquece. A insanidade é um processo incorporado para evitar problemas, realidades, ansiedades e situações de estresse.

São maneiras de as pessoas protegerem o ego, maneiras pobres, maneiras lastimáveis, mas, ainda assim, maneiras de proteger o ego. Em vez de abandonar o ego, as pessoas o protegem.

A pessoa estava exatamente como um iceberg, um décimo acima da superfície e nove décimos abaixo da superfície. Nove décimos de sua mente estavam inconscientes. A loucura significa abandonar aquele décimo consciente, de modo que todo o iceberg vá para baixo da superfície.

Pode-se fazer com que o homem funcione de forma mais eficiente na sociedade por meio da Psicanálise, mas ela nunca dá solução a um problema. E sempre que um problema é protelado, alterado, cria outro problema.

A Psicanálise é um alívio temporário, porque ela não pode conceber nada que transcenda o ego. Um problema pode ser solucionado somente quando a pessoa pode ir além dele. Se ela não puder ir além dele, então, ela é o problema.

Soluções não são necessárias. O que se necessita é clareza. Um problema devidamente compreendido é resolvido, porque um problema surge a pairtr de uma mente que não compreende. Você cria o problema porque não o compreende. Então, a questão não é solucionar o problema, a questão é criar maior compreensão.

A meditação cria uma distância, dá à pessoa uma perspectiva. Ela vai além do problema. O nível de consciência muda. Por meio da Psicanálise a pessoa permanece no mesmo nível.

Assim, toda a técnica de meditação consiste em criar uma distância entre os problemas e a pessoa. Em um determinado momento ela se encontra tão envolvida com seus problemas que não consegue pensar, não consegue contemplar, não consegue enxergar através deles, não consegue testemunhá-los. A Psicanálise ajuda somente no reajuste.

A meditação é um esforço, em primeiro lugar, para tornar as pessoas independentes e, em segundo, para mudar seu tipo e sua qualidade de consciência. Com uma nova qualidade de consciência não podem existir problemas antigos: eles simplesmente desaparecem.

Meditação

A ausência de pensamento é meditação. Por meio da observação é possível alcançar gradualmente a paz. Com a consciência desperta o ego deixará de existir.

A reflexão, a concentração e a meditação não são as mesmas coisas. A reflexão requer concentração e a meditação é o oposto. Para pensar de uma forma racional é necessário se concentrar no objeto de estudo, por isso a concentração é o método de todas as ciências.

A meditação não advém da mente, já que meditar é transcender a mente e suas limitações. A reflexão pode revelar segredos do mundo exterior, mas a meditação revela o segredo da subjetividade do ser.

A concentração implica em afastamento, enquanto a meditação direciona ao centro do ser. Basta conhecer o silêncio, assim conhecerá o ser. Ao alcançar o silêncio do coração, somos testemunhas da mente. A meditação consiste em observar esse trânsito de pensamentos.

Meditação significa consciência, sem pensar em nada, apenas observando o que se coloca à sua frente. Serve para nos conscientizar em relação ao verdadeiro ser que não é criado porque sempre existiu.

Esse verdadeiro eu precisa ser descoberto, mas a sociedade pode inviabilizar por ir contra seus interesses. A meditação leva as pessoas para longe da mente dominada. E o coração o acolhe pronto para lhe dar um caminho, para guiá-lo para o seu ser, sua plenitude, e o seu bem-estar supremo.

A meditação ajuda a pessoa a desenvolver a própria faculdade intuitiva. Fica muito claro o que vai satisfazê-la, o que vai ajudá-la a florescer. E o que quer que seja, será diferente para cada indivíduo. Esse é o significado da palavra “indivíduo”: cada um é único.

Amor

O amor gera medo, porque o amor é a morte, uma morte maior do que a morte comum, que todos conhecem. Se a pessoa ama, vai ter que abandonar todos os conceitos que tem sobre si mesma.

Se a pessoa ama, não pode ser o ego, porque o ego não permitirá que ame. Eles são antagônicos. Se escolher o ego, não poderá escolher o amor. Se escolher o amor, terá que abandonar o ego. Daí o medo.

O que chamam de amor é apenas uma moeda falsa: as pessoas a inventaram porque é muito difícil viver sem amor. Com amor, pela primeira vez, a pessoa se torna substancial. Com amor, pela primeira vez, surge nela a alma. O ego cai, mas surge a alma.

Por isso a humanidade criou um truque: viver um falso amor, de modo que o ego continue por conta própria. As pessoas devem examinar profundamente suas relações amorosas. Elas se parecem mais com relações de ódio do que de amor, mas todos vivem da mesma maneira e não percebem isso.

A verdadeira moeda do amor é muito cara: só se pode comprá-la ao custo de perder a si mesmo. Não existe outra maneira.

Portanto, a questão é bastante relevante. O amor dá a ela sua alma de volta, enquanto o ego continua a esconder a pessoa de sua alma. E o medo está lá, é natural, mas é preciso ir, apesar dele.

O amor é transformação e é fundamental para o autoconhecimento. A relação é um espelho e o amor exige que nos exponhamos a ele. Temos que aceitar o desafio, pois o amor é o primeiro passo rumo a Deus e não pode ser ignorado.

O amor é uma escada que começa na individualidade e acaba na totalidade absoluta, mas o homem moderno é narcisista. Se não nos envolvermos no amor, ficamos presos em nós mesmos. Ele requer níveis de coragem que não se encontram no homem atual.

A diferença entre o amor próprio saudável e o orgulho egoísta é muito distinta. Quem não amar a si próprio não pode amar a outra pessoa. Quem se ama faz tudo para desenvolver seu potencial e nos leva a escolhas constantes. Escolha o amor.

Uma pessoa que não se ama é destrutiva. Por isso passa a odiar outras pessoas, e não terá como esperar que outros a amem. Amar a si mesmo é de grande valor religioso.

Ausência de ego

O ego não pode ser abandonado. É como a escuridão, não se pode abandonar a escuridão, pode-se, apenas, introduzir a luz. A meditação é a luz necessária para essa iluminação.

Isso é algo básico a ser entendido: o ego deve chegar a um pico, deve ser forte, deve ter atingido uma integridade, e somente depois é possível dissolvê-lo. Um ego fraco não pode ser dissolvido. Isso se torna um problema, mas o conceito é simples: você só pode perder algo se o possuir.

Se o ego ainda não se tornou tão doloroso, então pode ser carregado. É natural! É importante lembrar que tudo tem um tempo para crescer, para ficar maduro, para cair na terra e se dissolver. O ego também tem um tempo. Ele precisa ficar maduro.

Esse é o mecanismo da vida: a pessoa tem que ser egocêntrica, tem que lutar, à sua maneira, tem que lutar com milhares de desejos em torno de si, tem que lutar, tem que sobreviver. O ego é uma medida de sobrevivência.

O ego é a casca do ovo que protege a pessoa. Mas quando estiver pronta, ela deve quebrar a casca e sair do ovo. O ego é a casca. A própria vontade de se livrar do ego é uma manifestação do ego em essência.

Mas isso não significa que o ser humano tem que permanecer com o ego para sempre. É um crescimento natural e, depois, há um segundo passo, quando ele tem de ser descartado. Isso também é natural.

A mente segue sempre por uma via lógica, mas a vida é ilógica. Sair da mente é o trabalho mais árduo. Mas não se trata de esforço, e sim de consciência, não é esforço, é um estado de intenso alerta.

A meditação implica trabalho árduo porque implica driblar a mente.

Iluminação

A iluminação é a própria natureza das coisas,mas isso nunca foi dito desse modo; pelo contrário, a mente das pessoas tem sido corrompida ao se criar um objetivo contra a natureza, dando-lhe nome bonito, como “sobrenatural”.

Pode acontecer em qualquer lugar, pode acontecer a qualquer momento. Só é preciso permitir que ela aconteça. Não é uma questão de tempo e lugar, é uma questão de se permitir isso.

Isso é exatamente o que a iluminação é: a personalidade morre e a individualidade, que foi reprimida pela personalidade, começa a crescer, a florescer. A iluminação é o nome de uma experiência interior, em que ambos estão envolvidos: a morte da personalidade e o renascimento da individualidade.

O caminho consiste na descoberta camada por camada da personalidade. Nunca aceite um critério que não o faça feliz, algo que se oponha à sua própria natureza, seja você mesmo e será perfeito.

Dessa forma, não basta desejar a iluminação, isso é um apelo do ego. O homem pode ser iluminado, mas não pode querer isso, não pode desejá-lo. Não se trata de alguma mercadoria que pode ser comprada. Não se trata de algum país que pode ser invadido.

A iluminação não é algo a mais acrescentada à pessoa. A iluminação é a pessoa por inteiro. É um fenômeno de subtração – a pessoa não está mais lá. Isso não acontece com ela, acontece quando ela não está mais impedindo isso, quando ela não é.

Simplicidade

Ser iluminado é o fenômeno mais comum que existe. Primeiro cria-se um obstáculo para, em seguida, ultrapassá-lo. Isso é feito para obter um sentimento de superioridade, pois o ego não se satisfaz com a ausência de obstáculos.

Basta ser simples e inocente para que toda a existência se abra diante de nós. A simplicidade leva ao desaparecimento da tensão e da angústia. Ser inocente, por sua vez, implica em viver uma vida simples.

A inocência é um estado de pensamento com a ausência do barulho da mente, fluindo com o movimento da vida, mas o ego resiste porque se desenvolve por meio dessa luta.

A pessoa inocente renuncia à luta porque não está interessada em provar que é especial, não tendo, assim, nenhum objetivo final. Para ter um objetivo teria que ser manipulador, e não inocente.

A simplicidade é um subproduto da inocência, portanto não pode ser cultivada. Uma pessoa simples não é possessiva e nunca olha para trás.

A maturidade confere característica de uma criança inocente. Traz sensações de infantilidade e velhice, não sendo somente experiência acumulada ao longo da vida, mas a relação que tem com o conhecimento interior.

De qualquer forma, não torna a pessoa uma rocha, mas sim, vulnerável, suave e simples.

Liberdade

O homem não é apenas livre, o homem é a liberdade. Isso é o núcleo essencial, isso é sua própria alma. No momento em que a liberdade é negada ao homem, nega-se o seu tesouro mais precioso, seu próprio reino.

De certa forma, a cada momento ele está criando a si mesmo. Se a pessoa aceita a teoria do destino, isso também é um ato de decisão sobre sua vida. Ao aceitar o fatalismo, a pessoa terá escolhido a vida de um escravo, a escolha é dela!

Mas as pessoas têm medo, e há razões para se ter medo. Primeiro, porque é arriscado, uma vez que somente a própria pessoa é responsável. Segundo, porque a liberdade pode ser usada de forma indevida, uma vez que a pessoa pode optar pelo caminho errado a ser seguido.

No entanto, aquele que deseja elevar a consciência, aquele que deseja subir no mundo da beleza, da verdade, da felicidade suprema, anseia pelos picos mais altos possíveis, esses, com certeza, são difíceis. A liberdade é uma escada: de um lado da escada chega-se ao inferno, do outro lado toca-se o céu.

Os desejos dominam o homem e ser livre deles é a total ausência de desejo que obriga a romper com a vida. A opção correta é poder escolher entre o desejo e a negação dele.

O amor dá liberdade total. O amor é liberdade para a pessoa e para o objeto de seu amor. O ego é escravidão para a pessoa e escravidão para sua vítima.

Se estiver no caminho do ego, vai se tornar destrutivo em relação aos outros, porque o ego tenta destruir o “você”. Se estiver se movendo em direção ao amor-próprio, o ego desaparecerá. E quando o ego desaparece, a pessoa permite que o outro seja ele mesmo, pois ela lhe dá total liberdade.

Notas Finais

A vida tornou-se apenas uma batalha para sobreviver, e nessa luta o ego tem sua finalidade. No entanto, é primordial sabermos qual sua função e, sobretudo, identificá-lo para que não sejamos dominados por ele.

Entender o ego e suas artimanhas, alimentadas pelos padrões impostos pela sociedade, é o primeiro passo para desconstruir o poder que ele exerce sobre nós. Despertando a consciência e aplicando técnicas de domínio da mente, obteremos a compreensão necessária de sua presença no ser individual.

Por meio da meditação e da simplicidade é possível despir-se da influência negativa do ego, vivenciando plenamente a liberdade e o amor em sua forma mais pura e divina, isentos de culpas opressoras municiados da inocência inerente na essência de “eu” mais primitivo.

Seja sincero em sua busca. Faça tudo por ela.Ela é a sede de conhecer o original por meio do reflexo que o torna digno do acidente final: a iluminação.

Dica do 12'

Se você tem interesse em saber mais sobre meditação e como trocar as palavras pelo silêncio no mundo agitado em que vivemos, vai se encantar com o jeito leve e irreverente de Osho, conheça-o!

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