O Ciclo da Autossabotagem

Patrícia Hermes & Stanley Rosner Também disponível em audiobook: Baixe nosso app para ouvir gratuitamente.

Foi depois de uma conferência na American Psychological Association, ao sair de um hotel, que o psicólogo Stanley Hosner teve uma luz ao ver um porteiro muito sorridente. Mesmo às vezes até sendo maltratado pelos clientes, ele seguia esbanjando alegria e educação. Ao mesmo tempo, recebia em seu consultório um pai de família cuja vida parecia estar nos trilhos certos, mas reclamava pelo rumo das coisas, por ver tudo mal e sem perspectiva de futuro. A partir dessa inspiração, ele e a escritora Patrícia Hermes traçaram esta obra que traz um guia de como a repetição de costumes ruins nos leva a um caminho autodestrutivo. O estudo de casos reais, como traumas de infância e separações, é o norte para nos mostrar como dilemas inconscientes nos fazem lutar contra nós mesmos, de forma automática. Você tem 12 minutos para entender melhor esse ciclo e melhorar sua vida?

Repetição de comportamentos de identificação primária: conformidade versus autonomia

Apesar de ser um sonho quase unânime, não são todos os que conseguem criar, experimentar, viajar, aprender, crescer e tornar-se alguém bem sucedido da forma desejada. Há quem não consiga enfrentar desafios e aventuras, sendo incapazes até de imaginar uma vida além da atual e limitada. Esses indivíduos agarram-se à crença de que a única maneira realmente boa e correta de levar a vida é seguir precisamente os passos de outrem — frequentemente dos pais. Essa imitação dos pais é conhecida como “identificação arcaica”. Eles acreditam que essa repetição é a maneira correta de agir. É errado ter a postura de alguns pais, que comunicam aos filhos que só a sua maneira de ser é a superior e a correta. Há inúmeros exemplos de pessoas que repetem comportamentos irracionais dos pais e familiares, mesmo que isso os leve para o buraco. Certamente você também conhece alguém assim. E para eles, é a única forma correta de agir. Mas é possível ir além de um replay da vida dos pais.

Repetição no casamento: contratos não escritos e comportamentos complementares

Todo mundo casa porque quer e precisa de amor compartilhado com alguém. Não são à toa as inúmeras obras de arte de todos os tipos com tal sentimento como tema. Mas, muitas vezes, o que chamamos de amor não tem nada a ver com isso. Quase sempre, ele — e, consequentemente, os casamentos — é constituído de uma expectativa inconsciente de que o parceiro poderá suprir nossas necessidades não atendidas, e até propiciar uma sensação de completude. Uma espécie de contrato não escrito, presente na maior parte dos casamentos. Esta percepção ou motivação raramente é explícita, porque o indivíduo quase nunca tem consciência dela. Ele só está consciente do amor que sente por aquela pessoa. Esse desejo de ter as necessidades atendidas nem sempre é algo ruim? Se as percepções e expectativas são realistas, o casamento se desenvolve e prospera, porque temos clareza do que queremos e de como esperamos atingir o que queremos. Acontece que o fracasso em muitos casamentos, evidenciado pelos assustadores índices de divórcio, não é uma necessidade ou desejo consciente. O problema está nas expectativas inconscientes de um ou de ambos os parceiros, que são irreais e distorcidas. São estes os casais que estão condenados a engrossar as estatísticas do divórcio. Tal desejo e muitos outros são expressos no ciclo de repetição matrimonial. Há aqueles que cresceram em lares desajustados, e que buscam um parceiro que lhes ofereça a estabilidade que não conseguiram ter na família de origem. A repetição de experiências traumáticas é baseada antes na sua expressão por meio de comportamentos manifestos do que na lembrança do trauma e dos sentimentos que o acompanharam.

Repetição de comportamentos na criação dos filhos

Como é difícil criar os filhos no mundo moderno, não? Não é novidade que uma criação saudável é vital para gerar filhos emocionalmente saudáveis. No entanto, isto é tão difícil de alcançar quanto de definir. Difícil saber o que é saudável e bom para nossas crianças. Alguns pais vêm de um ambiente familiar de intolerância e desarmonia. Outros, de um meio repleto de empatia e compreensão. Ambos, indubitavelmente, foram educados por seus próprios pais. Será que eles poderão se transformar em pais saudáveis? Há muita coisa envolvida nesta questão. Os pais podem divergir na capacidade de ver os filhos como indivíduos que estão se tornando adultos. Alguns podem interpretar o comportamento dos filhos como parte de uma experimentação no processo de crescimento. Esta abordagem aberta e liberal pode se basear no desejo de ver os filhos se transformarem em adultos independentes e autoconfiantes. Tais pais sabem que os filhos cometerão erros e aceitam essa possibilidade, enxergando-a como parte do processo de aprendizagem; assim os filhos se preparam para tomar suas próprias decisões. E às vezes, de uma maneira nem tão saudável, esses mesmos pais podem ficar relutantes em estabelecer limites, pelo medo de reprimir a espontaneidade e a imaginação dos filhos. Em vez de encarar tais cenários como certos ou errados, bons ou maus, é importante enxergá-los como um reflexo do modo que os pais foram criados e de suas crenças. Toda criação é herança da bagagem cultural adquirida pelos pais há décadas e décadas.

Os filhos do divórcio

Todo filho deseja que os pais vivam harmoniosamente. Eles querem, precisam, merecem ser acolhidos no refúgio de uma família, qualquer que seja a forma dessa família. E, ainda assim, coisas acontecem, tais como a morte, conflitos ou mesmo o divórcio. E o divórcio não é bom, especialmente para as crianças. Pergunte a qualquer um que já tenha se envolvido em um divórcio, e pergunte especialmente a uma criança, e o que você vai ouvir é que não é algo fácil. Há estudos provando que as crianças cujos pais haviam se separado apresentam mais dificuldades no amor, em sua vida íntima e no comprometimento com seus casamentos. Isso também pode influenciar, futuramente, na hora de criar seus filhos. É falso comemorar a ausência de brigas antes do divórcio. Como também é esconder os desentendimentos das crianças: elas sabem o que se passa ao seu redor.

Repetição de comportamentos punitivos: salvamento e penitência

É comum ver crianças acreditarem que o mundo gira ao seu redor. Esse é um estágio normal do desenvolvimento humano. Com o desenvolvimento normal, esse sentimento, gradativamente, se dissipa. Mas alguns pais colocam os filhos no centro de tudo, incluindo seus conflitos. A consequência é que muitas dessas crianças desenvolvem um forte senso de responsabilidade, culpa e de recriminação a si mesmas. Elas recebem de herança uma consciência severa e punitiva, dúvidas sobre si mesmas e falta de confiança. Se algo vai mal com seus pais ou com sua família, acreditam que, além de ser culpa delas, é também sua responsabilidade corrigir os erros e consertar o estrago. Essa atitude pode se reverberar no trabalho, nos relacionamentos e em todos os ambientes nos quais tal criança se via como o centro das atenções. As chances de ela se sentir culpada pelos problemas do mundo no decorrer da vida são enormes.

Repetição de comportamentos no trabalho

Quem nunca teve de responder sobre o que queria ser quando crescesse? Tal questionamento mostra a importância que damos ao trabalho. As crianças, motivadas ou não, ponderam e exploram, por meio de jogos e da imaginação, o que serão quando crescerem. Elas mudarão de ideia milhares de vezes. Astronautas, veterinários, jogadores de futebol, modelos e outros sonhos. Copiarão os pais, ou, então, rejeitarão suas escolhas. É daí que surge a percepção do trabalho como um meio para ganhar a vida apenas e tão somente ou uma realização pessoal. Os sonhos e as metas que tanto nos movem surgem daí, da visão desde cedo de como deve-se relacionar com o lugar no qual passaremos ao menos um terço de nossas vidas.

Repetição de comportamentos nos vícios

Os vícios que nos afligem vão desde a dependência química até a compulsão por jogos e comida. E é possível entendê-los a partir de uma lógica perversa de repetição de comportamentos que levam tanta gente a se chafurdar na lama de costumes que nos escravizam.

Dependência química

O abuso de substâncias, tanto pela frequência quanto pela sua utilização, causando danos aos usuários e seus familiares, está presente em qualquer discussão sobre ciclos de autossabotagem Esse não é um conceito unitário, porque, em alguns casos, o fundamento é fisiológico, enquanto, em outros, o fundamento é psicológico. Mas, qualquer que seja o fator causal, há fatores psicofisiológicos atuando em conjunto quando há dependência química. É provável que alguns tipos de comportamento compulsivo sejam desencadeados por fatores psicológicos, enquanto outros sejam motivados por fatores fisiológicos e bioquímicos, que afetam o funcionamento do cérebro e o comportamento correspondente. As substâncias influenciam negativamente nas interações psicológicas e isso afeta demais as terapias de todos os tipos. E, analisando todo o histórico dos dependentes químicos, é comum ouvir relatos de traumas ou outros desacertos com o desenvolver do paciente, que desencadearam em seu vício.

Dependências de jogos de azar e sexo

Não são apenas o álcool e as drogas que se traduzem em dependência, decorrentes de desejos íntimos. Jogos de azar, compulsão por sexo e alimentação volta e meia são relatados. Não são raros os casos em que essas dependências surgem justamente em pessoas com problemas de aceitação de sua própria imagem desde cedo, ou que passaram por traumas de comportamento relacionados a isso desde a infância, escola ou ambientes de trabalho mais conturbados.

A compulsão à repetição

Você não acha que é fácil perceber quando as pessoas estão presas a comportamentos repetitivos? É possível observar de que modo aquele comportamento está lhes fazendo mal ou fazendo com que se movam em círculos. Podemos nos perguntar: Por que ela continua se sentindo atraída pelo mesmo tipo maléfico de homem? Por que todos os seus filhos estão apresentando as mesmas dificuldades? Por que ele trocou de mulher — já que, para nós, ela age e se parece muito com todas as ex-esposas dele? Perguntamo-nos porque vemos o que está acontecendo. Ainda assim, frequentemente ficamos cegos aos nossos próprios padrões de repetição profundamente enraizados. Por que isso acontece? Porque a compulsão à repetição possui uma infinidade de características, e a mais importante delas é que os indivíduos que a apresentam têm pouco ou nenhum discernimento do que está causando suas dificuldades. Tal comportamento parece estar mesmo além do princípio do prazer, significando que se, para a maioria, o comportamento humano é motivado pelo desejo do prazer, para aqueles que estão presos a essa compulsão, até o princípio do prazer é subvertido pela necessidade da repetição. Ao lado da compulsão à repetição, há uma intensa e intolerável ansiedade, o medo de que o pior pode acontecer e um círculo vicioso que impede o compulsivo de livrar desses males.

Como reconhecer e solucionar as repetições de comportamentos de autossabotagem

Entender o que é um trauma e a repressão associada a ele é fundamental para compreender o conceito de compulsão à repetição. Na linguagem comum, usamos o termo “trauma” para fazer referência a acontecimentos extrínsecos, como eventos apavorantes que afetam todos os que são expostos a eles — como tornados, guerras, tsunamis e furacões. Entretanto, do modo que está sendo empregado aqui, o trauma se refere a experiências seletivas, pessoais, que chocam e horrorizam, que arruínam gradativamente a suposição de que existe alguma estabilidade em nosso mundo. Em outras palavras, o trauma, aqui, é definido pela maneira com que é vivenciado pelo indivíduo. Assim, o que é ameaçador e traumático para uma pessoa pode não ser para outra. Para aqueles que vivenciam esses eventos traumáticos, há uma necessidade profunda, compulsiva e inconsciente de dominar aquilo que foi experimentado como algo fora de controle. Quando não podemos obter o controle, às vezes reprimimos ou enterramos nossos sentimentos e memórias. Tal repressão é uma forma de nos proteger de experiências que perturbam nosso equilíbrio emocional, experiências tão terríveis que não conseguimos mantê-las na consciência. Mas a repressão, como vimos claramente até agora, não enterra só o evento — nem os sentimentos e lembranças a ele associados — mas também os elementos que o acompanham. O resultado é que tais memórias e sentimentos reprimidos estão sujeitos a muitas distorções.

Traumas escondidos

O obstáculo maior está no momento em que os traumas ficam lá, escondidos, como algo que não pode ser mexido de forma alguma. Vivemos nossa vida como se ele não estivesse pronto a aparecer, de uma hora para outra. Por que incitar a fera que está escondida? Por que não evitá-la e abandonar tudo? Divorciar-se, largar o emprego, abandonar as crianças, e justificar tudo isto como má oportunidade, um chefe estúpido, uma esposa traiçoeira, crianças ingratas. É mais fácil seguir em frente, apesar das consequências reais, do que mergulhar na causa das tensões, frustrações e decepções. Mas quando o trauma foge do controle e volta a aparecer, é incontrolável: eis o start para mais um ciclo de autossabotagem.

Notas Finais

Se é comum conhecermos pessoas que nunca conseguem atingir seus objetivos por estarem envolvidas em um eterno ciclo de autosabotagem, também é normal não sabermos o que fazer para ajudá-los ou sair desse problema quando afundamos nossos próprios pés na lama. Os diversos ciclos que nos fazem repetir atitudes negativas no trabalho, em casa ou nos relacionamentos são detalhadamente destrinchados nesse livro que é um guia para fugirmos das mesmas atitudes que nos afundam. Quantas vezes você mesmo não se viu em meio a um problema tantas vezes e não se perguntou onde estava errando? Pois, ao final da leitura, percebemos que é olhando para dentro de nós e de nosso passado que podemos mudar nosso futuro, alterando nossa rotina e nos enxergando melhor como seres humanos que erram. Mas que não precisam e não devem repetir sempre os mesmos erros. Quanto mais conscientes de onde falhamos, mais facilmente evitaremos os mesmos passos errados. E assim será possível fugir desse ciclo que parece não ter fim, mas pode, perfeitamente, acabar. Basta encontrar o caminho.

Dica do 12'

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