Misbehaving

Richard H. Thaler Também disponível em audiobook: Baixe nosso app para ouvir gratuitamente.

Em “Misbehaving”, Richard Thaler, economista especializado em finanças e um dos fundadores da economia comportamental, aborda os conceitos principais e a conformação histórica dessa disciplina, abrindo um amplo caminho para todos os que almejam compreender o futuro econômico de nossas sociedades.

Se você ficou interessado, venha conosco e descubra, em apenas 12 minutos, como tomar decisões mais racionais e usar a imprevisibilidade humana em seu favor. Boa leitura!

Primeira parte: Primórdios

A economia formal é considerada, pela maioria das pessoas, um sistema à prova de balas. No entanto, grande parte dos modelos econômicos negligencia o estudo dos seres humanos.

Em épocas como a que vivemos, nas quais os modelos falham drasticamente, economistas buscam se livrar de todas as críticas e, assim, evitam assumir seus próprios erros, referindo-se ao que nosso autor chama de Fatores Supostamente Irrelevantes (FSI).

Quais são alguns desses FSIs? Considere o efeito dotação. Diversos estudos e experimentos mostraram que as pessoas tendem a valorizar mais as coisas que elas já possuem ou com as quais se sentem conectadas. Essencialmente, quanto mais pessoal for a decisão, menos precisos serão os modelos econômicos.

Além disso, Thaler pede que levemos em consideração os custos irrecuperáveis (também chamados de “custos afundados”) ou os recursos que foram articulados para a realização de determinadas atividades e/ou projetos. Normalmente, os economistas enfatizam que a utilidade de um projeto ou ação não depende e não deve depender de custos irrecuperáveis.

No entanto, como prova o autor, esse não é o caso dos seres humanos. As pessoas pensam, constantemente, sobre o que gastaram e sua utilidade pode estar relacionada a esses custos.

Os seres humanos usam regras simples, chamadas heurísticas, para ajudá-las a fazer julgamentos. Esperar que pessoas normais se engajem em análises complexas é algo irrealista. Segundo Thaler, os indivíduos possuem claramente uma “racionalidade limitada”.

Para explicar esses FSIs, o autor introduz a “teoria dos prospectos”, deslocando as noções tradicionais de utilidade, à medida que uma descoberta central serve de sustentáculo à sua teoria: a felicidade das pessoas tende a se elevar à medida que elas se tornam mais ricas, porém, a uma taxa decrescente.

A utilidade é essencialmente marcada pela “diminuição da sensibilidade”. No entanto, isso não quer dizer que a teoria dos prospectos seja perfeita. Uma abordagem mais abrangente e enriquecedora capaz de levar a pesquisa científica a entrar em contato com a vida real das pessoas é de que a economia comportamental é imperativa e, felizmente, já começou a florescer.

Segunda parte: Contabilidade mental

Na segunda parte, Thaler introduz novos FSIs. Primeiro, ao contrário do que sustenta a teoria econômica moderna, apresenta que existem dois tipos de utilidade: utilidade de transação e utilidade de aquisição.

A utilidade de aquisição baseia-se na teoria econômica clássica, assemelhando-se ao conceito de “excedente do consumidor”, segundo o qual ganha-se devido às diferenças entre os preços de determinados produtos.

Por outro lado, a utilidade de transação é a diferença entre o preço efetivamente pago por uma mercadoria e o preço que se esperaria pagar em uma determinada situação. Trata-se, basicamente, de um julgamento de qualidade com base em custos afundados e fatores situacionais.

O que torna a utilidade de transação problemática, porém, é que os seres humanos têm dificuldade em separar os custos irrecuperáveis dos custos diretos e de outras despesas. Esse fato permite que os vendedores alterem os preços de referência percebidos e, assim, criem a ilusão de um acordo.

Terceira parte: Autocontrole

Com muitos FSIs estabelecidos, Thaler foca especificamente no autocontrole. Diferentemente dos postulados econômicos tradicionais, que pressupõem os homens como atores racionais, o autor ressalta que somos incapazes de nos conter.

Isso ocorre porque nós, como humanos, somos constantemente atormentados por uma forte tensão entre paixão e razão, emoção e lógica – como  Adam Smith já havia reconhecido no século XVIII.

Como a moderna teoria econômica tem se mostrado incapaz de explicar nossos problemas de autocontrole, Thaler começou a criar uma estrutura conceitual para solucionar tais questões. O modelo que ele e seus colaboradores elaboraram fundamenta-se na metafórica dualidade entre o planejamento e a realização.

Em qualquer momento de sua vida, o indivíduo divide-se em dois “eus”: o primeiro é um planejador voltado para o futuro idealizado que deseja concretizar; o segundo, por sua vez, é um realizador que vive para e no presente.

Para o autor, em um nível mais prático, as relações com as empresas seguem, também, uma espécie de modelo planejador-realizador. Assim, os planejadores são os chefes (na maioria das vezes, proprietários e administradores de empresas), enquanto o realizador é aquele a quem a autoridade é delegada.

As tensões que ocorrem entre ambos podem ser explicadas pelo fato de que os realizadores sabem algumas coisas que os planejadores ignoram, uma vez que não é plausível supor que os planejadores monitorem todas as ações dos realizadores.

Em consequência dessa tensão, as empresas instituem conjuntos de regras, procedimentos e normas que visam minimizar os conflitos de interesse.

Descobertas e teorias desse tipo revelam, para Thaler, que empregar força de vontade requer esforço: os homens podem reconhecer que têm problemas de autocontrole, mas, de modo geral, ainda calculam mal sua importância.

Quarta parte: Trabalhando com Danny

O que faz uma transação econômica parecer “justa”? Em primeiro lugar, as percepções de justiça estão relacionadas ao efeito dotação. Isso é, tanto os compradores quanto os vendedores se sentem no direito de firmar certos termos de troca e tratam qualquer rebaixamento desses termos como uma “perda injusta”.

Persuadir as pessoas a irem contra os seus interesses imediatos é uma tarefa difícil – independentemente de fatores “racionalizadores”, como os mercados e a educação. Além disso, a justiça percebida de uma ação não depende apenas de identificar quem ela ajuda ou prejudica, mas também de como ela é interpretada.

As “promoções” e os “descontos” são exemplos de barganhas que podem ser vistas como positivas e muita justas, uma vez que elas divergem dos preços “normais”. Não obstante, a próxima questão a ser levantada é: as pessoas estariam dispostas a punir empresas que se comportam de forma injusta?

Os resultados de vários experimentos indicam fortes evidências de que as pessoas não apreciam ofertas injustas e estão dispostas a punir as empresas que as fazem. No entanto, é menos claro que as pessoas se sintam moralmente obrigadas a fazer, elas mesmas, ofertas justas.

Essencialmente, os economistas precisam de uma visão mais complexa da natureza humana – e não aquela que é simplesmente dominada pela racionalidade científica e a frieza dos números.

Quinta parte: Interações com economistas

Na quinta parte, o nosso autor se concentra no surgimento e na história da economia comportamental. Em outubro de 1985, finalmente havia chegado a hora em que os economistas comportamentais confrontariam os economistas tradicionais.

O debate começou com os tradicionalistas apoiando a ideia de que a racionalidade é necessária. No entanto, a última questão discutida referiu-se às empresas e dividendos: por que as organizações puniam os acionistas pagando dividendos?

A teoria econômica tradicional postula que as empresas não devem pagar dividendos. Porém, ainda assim, elas o fazem. Sem embargo, os modelos comportamentais descrevem melhor os padrões seguidos na realização desses pagamentos. Portanto, os comportamentalistas poderiam reivindicar, pelo menos, uma vitória no rescaldo do debate.

Sexta parte: Finanças

Após dedicar a maior parte da obra a discorrer sobre economia, Thaler se volta brevemente às finanças e a uma de suas principais premissas: a Hipótese do Mercado Eficiente (HMI). Ela tem dois componentes:

O primeiro componente diz respeito à racionalidade dos preços; o segundo, à possibilidade de obter sucesso no mercado.

O conceito de racionalidade dos preços baseia-se na ideia de que qualquer ativo tem um “valor intrínseco” pelo qual ele é vendido. Se uma avaliação racional de uma companhia apontar que ela vale 100 milhões de dólares, suas ações serão negociadas de tal forma que o valor de mercado da empresa seja de, exatamente, 100 milhões.

Entretanto, Robert Shiller publicou um artigo em 1981 apresentando uma conclusão que contraria o primeiro componente. Ele argumentou que as ações não possuem valor intrínseco; o preço das ações era apenas uma previsão em constante mudança da expectativa do mercado em relação ao valor presente de todos os pagamentos futuros de dividendos.

Adicionalmente, Thaler escreve que, para o desgosto dos defensores da HMI, uma violação da lei de um preço e valor intrínseco dos ativos existe de forma bastante proeminente, se considerarmos os fundos fechados: ao contrário de outras modalidades de investimento, um fundo fechado pode vender ativos com um prêmio ou desconto.

Agora, considere o segundo componente, que se baseia no princípio de que “não existe almoço grátis” – ou a ideia de que não há como vencer no mercado.

Os defensores da HMI defendem que, assim como todas as informações publicamente disponíveis estão contidas nos preços atuais das ações, não é possível prever preços futuros e obter lucro para si mesmo. Todavia, até mesmo esse componente é discutível.

De acordo com Keynes, as emoções desempenham um papel significativo nas tomadas de decisões. Com efeito, a emotividade se manifesta na seleção dos investimentos, uma vez que a chamada “sensibilidade” dos mercados influencia diretamente nas decisões individuais e coletivas.

Sétima parte: Bem-vindo a Chicago

Quando Thaler se transferiu para a Universidade de Chicago, passou a explorar como o campo interdisciplinar do Direito e da Economia poderia ser modificado à luz das mais recentes descobertas da economia comportamental.

Em suma, a fim de resolver questões tradicionais de política econômica e jurídica, o autor propõe o chamado “paternalismo libertário”. A ideia implica na construção de sistemas em empresas e em organizações públicas que incentivariam as pessoas a fazerem melhores escolhas, mas, sempre permitindo que cometam erros.

Embora o seu paternalismo libertário enfrente muitos críticos, Thaler aponta que os detratores de suas ideias negligenciam a complexidade e a diferença entre o paternalismo libertário e outros tipos de paternalismo.

Prestando ajuda

As descobertas da economia comportamental passaram a ser aceitas nos meios científicos em meados dos anos 2000, quando Thaler dedicou-se a aplicar insights comportamentais a situações práticas.

A principal questão enfrentada foi encontrar formas de ajudar as pessoas a economizarem para suas próprias aposentadorias, uma vez que existem numerosos problemas com a teoria econômica tradicional e seu tratamento no que se refere a assuntos relativos à formação de poupança para a aposentadoria.

No entanto, depois de advogar por soluções paternalistas libertárias, o autor foi acusado de coerção. Para contrariar essa acusação, Thaler divulga uma importante réplica. Para começar, é importante lembrar que o paternalismo libertário oferece respostas diferenciadas a problemas complexos e de difícil resolução.

Não se pode esperar que as pessoas tomem excelentes decisões, dadas as camadas de complexidade encontradas em quase todas as escolhas a serem feitas na vida. Todavia, todos gostariam de ter o direito de escolher, ainda que erros sejam cometidos.

Assim, o paternalismo libertário defende, principalmente, que é necessário oferecer às pessoas um “empurrãozinho” na direção certa. Esses “toques” não poderão, obviamente, solucionar todos os problemas. Trata-se, antes, de incentivar os indivíduos a superar os seus desafios da maneira certa, segundo princípios científicos amplamente desenvolvidos e testados.

Notas finais

As descobertas de Thaler têm implicações numerosas e de longo alcance para a projeção e a implementação de sistemas éticos dentro das organizações. Com o objetivo de promover uma forte cultura ética, a conscientização generalizada das políticas e moldar  comportamentos responsáveis permanece sendo uma imperiosa necessidade em todos os níveis.

No lado gerencial, incentivar o comportamento ético no local de trabalho é algo que pode ser alcançado por meio de diretrizes simples.

Primeiro, se houver problemas, torne mais fácil para os funcionários se manifestarem dentro de sua empresa. Isso deve ser feito a partir da redução de medidas burocráticas, da criação de um sério programa de mediação de conflitos e de denúncia de irregularidades.

Em segundo lugar, é importante lembrar que as pessoas – e não os modelos econômicos – são altamente sensíveis à imparcialidade e aos impactos emocionais.

Se você deseja que os seus funcionários atuem de forma justa e produtiva, deverá reconhecer o fato de que as decisões de negócios afetam toda a comunidade à qual sua organização pertence.

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