Guga

Gustavo Kuerten Também disponível em audiobook: Baixe nosso app para ouvir gratuitamente.

Uma das figuras mais carismáticas em todos os tempos no esporte brasileiro, Gustavo Kuerten viu a sua vida ser transformada no ano de 1997, quando conquistou o torneio de Roland Garros, na França, um dos mais importantes do Grand Slam. 

Ali, Guga se converteu de coadjuvante a protagonista no cenário do tênis mundial. Até então, pouca gente conhecia aquele catarinense cabeludo. E sua trajetória ascendente no ranking mundial começou muitas anos antes daquele título.

Este livro fala um pouco sobre o caminho traçado por Guga, contado memórias de alguém que não esperava chegar no topo e conquistar o mundo. Guga, um brasileiro é o relato pessoal de um esportista querido por todo o país, que teve na base familiar o apoio para não cair nos momentos de baixa e não se vislumbrar nos tempos de alta. 

E nos próximos 12 minutos, você vai conhecer um pouco mais sobre o maior tenista masculino da história do Brasil. 

Esta obra é destinada aos fãs de esporte e de Gustavo Kuerten. Conhecer um pouco de sua trajetória ajuda a entender quem é este grande atleta brasileiro, para além dos jogos dentro das quadras pelo mundo. 

O monstro

Guga começa a sua narrativa contando um pouco sobre a magnífica trajetória no Roland Garros em 1997, quando venceu quatro jogos em nove dias, derrubando gente muito mais cotada que ele na competição. 

Logo na primeira rodada, derrotou o tcheco Slava Dosedel. Meses antes, Guga foi vencido por ele em duas partidas seguidas. Depois, derrotou Jonas Björkman, então 24º do mundo. Daí, ganhou do austríaco Thomas Muster, quinto do ranking mundial e  número 1 no ano anterior, campeão de Roland Garros em 1995.

Guga ainda passou por cima do Urso, apelido dado ao ucraniano Andrei Medvedev. Uma arrancada sensacional! 

Então, um monstro de filme de terror se punha à sua frente nas quartas de final: era hora de encarar o russo Yevgeny Kafelnikov, que venceu o Roland Garros em 1996 na simples e em duplas. 

Meses antes, Guga havia perdido dele. Que era um monstro e, sim, dava medo no tenista brasileiro, que começou em meio a tantas dificuldades. 

Acadêmicos Unidos da Raquete

Com chances mínimas de vitória, Guga sabia que só um maluco apostaria em sua vitória contra Yevgeny Kafelnikov. Aliás, só um maluco apostaria que ele tivesse sucesso no tênis mundial.

Desde os 6 anos, quando começou, tudo jogava contra. Florianópolis não tinha a menor tradição no tênis. Eram apenas quatro ou cinco catarinenses remando contra a maré, pois apenas paulistas e gaúchos se destacaram no tênis mundial. 

Mal havia onde treinar no começo da década de 1980 e no Brasil os tenistas conhecidos eram o gaúcho Thomaz Koch e Maria Esther Bueno. Havia pouco espaço na TV para a modalidade.

Mesmo assim ele persistiu, seguindo o caminho do irmão Rafael, com quem dividia o quarto, decorado pôsteres de tenistas de sucesso no mundo. Era um sonho. Tudo isso era lembrado ali, na quadra, ao ser visto por tanta gente. 

Valendo!

Quando o jogo das quartas de final de Roland Garros começou, a plateia estava em silêncio e Guga sentia, sim, bastante medo. 

Yevgeny Kafelnikov tinha o mesmo 1,90 metro que Guga. Naquela partida, seguiu a estratégia traçada por seu técnico, Larri Passos, para chegar a vitória. E por mais incrível que parecesse, ganhou por 3 sets a 2. 

Guga chegava entre os grandes. E para entender essa vitória, é preciso voltar um pouco para entender a herança talentosa de sua mãe. 

Uma grande dupla 

Alice Thümmel é o nome de solteira de sua mãe. Foi a primeira tenista da família, chegou a vencer um torneio estadual de duplas. Herdou o gosto pela prática de esportes de sua mãe, Olga Schlösser Thümmel, que Guga chamava de oma, avó em alemão. Nascida em 1949, em Blumenau, sua infância não foi comum: seus pais se separaram quando ela tinha quatro anos em uma época muito diferente da nossa. 

Foi morar com a mãe em Brusque e desde cedo queria ser professora. Ainda no colégio,  começou a jogar tênis no clube Sociedade Esportiva Bandeirantes. Conheceu Aldo Amadeu Kuerten em um curso.

Depois de muito se encontrarem em festas, bailes, na igreja ou no cinema, começaram um namoro. Entre idas e vindas, quando sua mãe foi morar no Rio de Janeiro, sempre davam um jeito de se ver, até que se casaram em 8 de julho de 1972.

Um periquito na muda

Guga relata o ano de 1997 como o mais atípico e fabuloso que viveu. Afinal, foi o de sua primeira vitória em um Grand Slam. Sua ânsia por vitórias veio pelo ensinamento de Larri Passos, seu técnico, de ter uma fome de leão. 

Naquele ano, o Banco Real juntou-se à Diadora como seus patrocinadores, depois de dez anos de cálculos e apertos financeiros para se manter no esporte até chegar às taças, que contavam com um amado guardião.

O guardião das taças

Quando seu irmão mais novo Guilherme nasceu, ninguém notou nada de diferente. Foi por volta dos três meses que a mãe de Guga notou que, ddepois de passar por quase dez médicos, a criança era acometida por  microcefalia e paralisia cerebral. 

Gui nunca falou uma palavra, mas demonstrava expressões e sons de felicidade, contrariedade ou irritação. Dependia da família para tudo. Depois que o pai deles morreu, os cuidados com o irmão aumentaram.

Gui era o chamado guardião das taças de Guga e morreu aos 28 anos em 2007. A previsão dos médicos era de que vivesse apenas sete anos. Guga fala dele com muito carinho até hoje.

A faísca

Nos intervalos das partidas, Guga mordia uma toalha. Pode parecer lunático, mas todo tenista tem uma atividade que traz sensações, parecendo superstições. 

Nas partidas, Guga também puxava as mangas da camisa e gemia ao tocar na bola. E antes dos jogos, nunca pisava nas linhas da quadra. É como se acendesse uma faísca depois do ritual para tudo começar a dar certo, para não errar.

Não vou errar mesmo!

E o medo de errar veio na segunda rodada do Roland Garros de 1997. Depois de vencer Slava Dosedel, enfrentar o sueco Jonas Björkman lhe faria subir da 66ª posição do ranking mundial para ficar entre os 50 primeiros. 

Seria um recorde pessoal. O ranking da ATP relaciona os melhores 1.500 tenistas em atividades, mas apenas os 100 primeiros têm acesso aos Grand Slams. E com algum esforço, a vitória por 3 sets a 1 colocou Guga, de vez, no radar mundial do tênis. 

A maior perda em todos os tempos 

Chegamos à metade deste microbook para falar de uma derrota. Ninguém gosta de perder. E a maior perda para Guga aconteceu quando seu pai tinha 41 anos de idade e 12 de casamento. Guga era uma criança.

Seu pai, que costumava apitar alguns jogos de tênis e durante um torneio em Curitiba, não estava ali, assistindo. Apenas ao chegar em casa, ele e o irmão Rafael foram informados e não acreditaram na morte de seu super-herói. Sua pior derrota. 

A zebra feliz no cemitério dos campeões

Quando venceu o austríaco Thomas Muster pela terceira rodada, não imaginava que chegaria tão longe. Jogaria na quadra central, com capacidade para 8 mil pessoas.  

Pelas oitavas de final, enfrentou o ucraniano Andrei Medvedev e venceu por 3 sets a 2 em um jogo que durou dois dias. Depois do quarto set, o jogo parou para continuar no dia seguinte devido ao fim da luminosidade pelo sol. Ninguém acreditaria numa vitória de Guga, tampouco que ele derrubaria o urso nas quartas de final. 

A batalha dos sobreviventes 

A partida contra o belga Filip Dewulf valia a semifinal do Roland Garros de 1997. Depois de vencer Kafelnikov, houve pouca festa. Para Guga, faltava a presença da mãe e da “oma” para comemorar de fato. 

A movimentação foi corrida, mas houve uma mobilização para que elas estivessem em Paris depois de um telefonema para acompanhar o momento de glória, em que a vitória por 3 a 1 garantiu sua presença na final daquele torneio.  

Larri Passos pediu apenas para que o “cavalo”, como chamava Guga, seguisse da mesma forma. Era um momento histórico, certamente. 

Bem-vindo à terra da magia

Quando tinha 13 anos, em 1989, Guga viajou com a família para a Disney, onde disputaria seu primeiro Orange Bowl. Em 1992, com 15 anos, disputou torneios ao lado de Larri Passos na Europa, onde pisou pela primeira vez em Roland Garros e Wimbledon. 

Em 70 dias na Europa, conheceu outro mundo do tênis, financiados por uma vaquinha na família e muito controle financeiro. 

Foi o momento em que Guga notou que era, de fato, um tenista. Um marco, como outros que viriam.

Um marco definitivo

Treze dias antes da final, a revista diária que circula em Roland Garros trazia Guga como uma nota de rodapé. Ao vencer Thomas Muster, na terceira rodada, virou foto minúscula no canto da página. Na final, seu rosto estava frente a frente com o do espanhol Sergi Bruguera, seu adversário. 

No início do torneio, precisava se virar para chegar às quadras. Na final, tinha tratamento de superstar. 

No começo do torneio, o vestiário estava abarrotado de gente. Naquele 8 de junho, havia pouquíssima gente nos vestiários. Apenas a sua equipe. 

Mas o mundo viu sua vitória por 3 sets a 0. Campeão, conhecia um novo mundo, atingia outro patamar no mundo do tênis.

Bi em Roland Garros

Depois de uma temporada de torneios na Europa, Guga e Larri permaneceram na França para a busca pelo bi em 2000, que escapou pelas mãos em 1999. Entre 1997 e 1999, foram seis títulos vencidos em oito finais disputadas. 

Durante a disputa de torneios na Europa, disputou 12 jogos em 13 dias, venceu 11, ganhou um título em duas finais e estava em um ritmo desgastante, mas proveitoso. Chegou a Roland Garros como um dos favoritos. Chegou a fazer 16 games seguidos no sueco Andreas Vinciguerra. Na segunda rodada, atropelou o argentino Marcelo Charpentier. Já na terceira rodada, ganhou de Michael Chang. 

Nas oitavas de final, venceu por 3 a 0 o equatoriano Nicolás Lapentti. Nas quartas,  Kafelnikov foi novamente o adversário derrotado, com muita dificuldade.

O espanhol Juan Carlos Ferrero foi derrotado na semifinal em seu primeiro confronto com Guga. Por fim, o adversário da decisão foi o sueco Magnus Norman, então número 2 do mundo. Larri preparou Guga para resistir e vencer por 3 sets a 1, seu segundo Roland Garros na carreira. Guga chegava ao topo mais uma vez, e ia se acostumando a isso. 

O número 1

Ao disputar o Masters Cup em Portugal, Guga achou estranho ao ver portugueses torcendo pelo norte-americano André Agassi na final. De nada adiantou: a vitória naquele dezembro de 2000 posicionou o brasileiro pela primeira vez como líder do ranking da ATP. 

De Florianópolis para o topo do tênis! Um verdadeiro campeão, que passava a até mesmo jogar de outra forma, mais inteligente, a partir de então. 

O tri

Em 2001, Guga aprendeu a jogar como um campeão de fato, que resolve os pepinos que aparecem no meio de um jogo, agindo com inteligência e estratégia. Se o adversário não exigisse tanto, resolvia a partida com 70% da capacidade.

Sem essa atmosfera de tensão, querido pelos franceses, venceu de virada o espanhol Alex Corretja naquele ano e ouviu os gritos de “allez Guga” com o tricampeonato. 

Quer mais? Reconhecido por sua trajetória, naquele ano ainda ouviu alemães saudando a “oma”, sua avó, ao ganhar o Torneio de Stuttgart, quando ela entrou na Mercedez que o vencedor da competição tinha como premiação. 

Guga chegou ao topo e só não foi mais longe por uma lesão. 

A lesão e os últimos lampejos

Foi durante as férias em Fiji que começou a suspeitar da dor esquisita na virilha. Não parecia nada comprometedor até uma sequência de jogos ruins lhe afligir tempos depois. 

A lesão do lábrum do quadril fez com que ele se submetesse a uma cirurgia, que o fez temer pelo futuro na carreira. Notou que perdia de adversários que não o derrotariam em condições normais, pois o medo da lesão afetou seu desempenho. 

Precisou, ainda, fazer uma segunda cirurgia, quando nos Estados Unidos o Doutor Marc Philippon teve de encurtar um tendão da musculatura que unia fêmur e quadril. Para piorar, deixou de ser treinado por Larri Passos.

Entre 2005 e 2007, só consegui jogar 21 torneios. Muito menos do que disputava em um único ano, sem passar das oitavas de final. Ficou mais claro que não tinha mais condições de jogar tênis em alto nível até se aposentar em 2008, aos 32 anos. 

Uma carreira vitoriosa, de um brasileiro que encheu seu país de orgulho!

Notas finais 

Quando um personagem como Gustavo Kuerten chega ao topo do mundo em sua atividade, nós, como brasileiros, sentimos uma ponta de orgulho por ele ter saído daqui, da terrinha.

Ler um pouco sobre sua trajetória em suas próprias palavras é fantástico, pois nesse Guga, um brasileiro, podemos notar o quanto o medo e as inseguranças surgiram em sua trajetória. Afinal, ninguém é de ferro. 

E quando pensamos no quanto sua carreira poderia ser ainda melhor se não houvessem as lesões, há ainda mais motivos para orgulho desse catarinense que derrubou gigantes e se tornou um deles. 

Guga é um exemplo de perseverança, insistência e garra!

Dica do 12’

Se você gosta de ler sobre detalhes saborosos na trajetória de personalidades do esporte nacional, leia o microbook Ayrton Senna: A trajetória de um mito e conheça um pouco mais sobre esse gigantesco ídolo das pistas.

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