Endgame

John Mauldin & John Mauldin Também disponível em audiobook: Baixe nosso app para ouvir gratuitamente.

O superciclo da dívida – quando o crescimento da dívida resulta em enormes débitos e crises de créditos – está afetando diversos países no mundo. E isso inclui os desenvolvidos e potências como os Estados Unidos! Essas nações precisam enfrentar decisões complicadas: buscar uma reestruturação da dívida ou reduzi-la através de medidas de austeridade. No livro, o autor introduz o conceito do superciclo da dívida e revela por que a economia mundial ainda vai passar por um longo período de pouco crescimento, desemprego alto e mercados voláteis. Quer entender um pouco mais sobre isso e se preparar para essa realidade? Vem com a gente!

Como chegamos aqui: anos de gastos exagerados que culminaram na crise

O superciclo da dívida é definido por décadas de crescimento de dívidas de níveis pequenos e gerenciáveis, para um nível em que os mercados de título se revoltam e o débito precisa ser reestruturado ou reduzido. Muitos países do mundo estão, agora mesmo, em diversos estágios desse superciclo.

Os economistas ainda não entraram em um acordo sobre o período de turbulência econômica enfrentado pelo mundo inteiro nos dias de hoje. Em uma coisa, porém, todos concordam: essa turbulência vai impor muitas dificuldades para todos os governos e contribuintes ao redor do mundo. O problema é que escolhas ruins geram consequências ruins. Por isso, esses governos precisam se responsabilizar e encontrar maneiras para melhorar a tomada de decisão, antes que seja tarde demais.

Na véspera da recessão de 2008, os consumidores americanos, líderes de negócios e até mesmo políticos, estavam gastando todas as suas economias de maneira acelerada. Como um adolescente que não consegue calcular a proporção em longo prazo de suas escolhas ruins, os Estados Unidos gastaram muito dinheiro e pouparam pouquíssimo. A irresponsabilidade da nação culminou em uma grande mudança econômica: dessa vez os EUA não serão capazes de gastar durante a crise. Ao invés disso, o país está em uma “recessão de balanço patrimonial”, que vai levar anos para melhorar.

Essa crise demorou décadas para se formar. A proporção da dívida atual total dos EUA em relação ao PIB excede o valor máximo alcançado em 1993, durante a Grande Depressão. Naquela época, o endividamento americano – gerado pelo governo, pelos negócios, financiamentos e empréstimos domésticos – era três vezes o PIB. Mas era assim graças ao fato de que a produtividade do país caiu, e não por novas dívidas. Em anos subsequentes, a proporção caiu, mas em 2009, os empréstimos financeiros ultrapassaram a produtividade. E atualmente, a dívida ultrapassa 370% do PIB.

Esse tipo de empréstimo estimula um crescimento insustentável. Os dias finais do “superciclo de dívidas” terminaram com o colapso dos Leman Brothers em 2008. Mas é claro que os americanos não foram os únicos que fizeram muitos empréstimos. A Islândia, com uma população menor que a da cidade de Wichita no Kansas, por exemplo, conseguiu acumular €50 bilhões ($62.7 bilhões) em dívidas.

Depois da bagunça causada pelo superciclo de dívidas, vem o “endgame”: um retorno súbito mas inevitável da sanidade econômica e restrição fiscal. Os lares americanos controlaram seus gastos e estão pagando suas dívidas, mas os empréstimos do governo subiram. Então a dívida não desapareceu - a sociedade meramente a transferiu dos balanços patrimoniais domésticos, para o setor público. Quando o governo alcançar seus limites de empréstimos, os políticos terão três escolhas: a inflação, a inadimplência ou a desvalorização. Muitos economistas e analistas acreditam, equivocadamente, que a recessão de 2008 foi apenas outro recuo, e que um pouco de estímulo vai reviver a economia. Na realidade, o fim do superciclo de dívidas e o começo do endgame, significa que esse mal-estar não tem solução rápida e fácil.

Uma solução é possível?

Banqueiros da Reserva Federal americana geralmente aderem às teorias do economista John Maynard Keynes. Por isso mesmo eles têm respondido à crise global de dívidas de maneira Keynesiana usual: confiando na liquidez para parar a deflação, estimular a economia e induzir os empréstimos e gastos. Mas a realidade econômica é que o PIB só cresce através de produção real.

As startups são os drivers principais de crescimento de empregos nos Estados Unidos. De acordo com pesquisas realizadas pela Kauffman Foundation, empresas grandes e bem estabelecidas desocuparam um milhão de empregos por ano, de 1977 a 2005. Enquanto isso, as novas empresas compensaram esse déficit e, ainda mais, acrescentaram três milhões de novas posições por ano no mesmo período.

O crescimento populacional é outro ingrediente importante para salvar a economia. A verdade é que as únicas maneiras de expandir uma economia são acrescentando trabalhadores ou aumentando a produtividade. Em nações como o Japão, onde a população está envelhecendo muito, o crescimento da produtividade é o único caminho para a expansão econômica.

Um PIB próspero é necessário para países que querem sair das dívidas. Enquanto a dívida de um governo crescer mais lentamente que sua taxa de crescimento econômico, emprestar dinheiro pode ser uma política fiscal responsável. As nações que têm superávit em momentos bons estão em uma posição melhor para pegar emprestado quando a crise chegar. Mas as cargas de dívidas fazem as economias mais voláteis. Um colapso na confiança pode surgir de repente, e quando o governo não consegue restringir seus empréstimos, um desastre pode acontecer. A crise na Grécia oferece um exemplo do pior cenário. Os Estados Unidos podem ser capazes de se livrar desse aumento de sua dívida nacional projetando $1,5 trilhões por ano, mas essa não é uma estratégia sustentável. Aumentar a dívida até essa quantia anual significa que os Estados Unidos precisam encontrar investidores dispostos a gastar $1,5 trilhões por ano em títulos do tesouro. Isso funcionou até agora, mas a novidade é que alguns governos estão considerando uma alternativa ao dólar como uma moeda reserva.

O déficit americano comercial de $500 bilhões por ano marca outro ponto fraco. As importações americanas de petróleo valem $300 bilhões a cada ano, então reduzir sua necessidade por petróleo estrangeiro seria uma maneira longa de diminuir sua falta de orçamento. Desenvolver poder nuclear e fontes de energias alternativas são outras duas soluções.

O governo também poderia estimular a transição de frotas de caminhões da gasolina para o gás natural, uma fonte de energia abundante nos Estados Unidos. Outra opção é reduzir os impostos sobre o petróleo para diminuir a demanda por importações. Os EUA poderiam impor aumentos nos impostos do gás de dois a três centavos de dólar por mês. Então, depois de diversificar suas fontes de energia, poderia reduzir o imposto sobre o gás. Esse aumento do imposto encorajaria a conservação e levantaria dinheiro para melhorias em infraestrutura do país.

Um relatório sobre a infraestrutura emitido em 2009 pela Sociedade Americana de Engenheiros Civis deu aos Estados Unidos uma nota de reprovação “D”, com notas especialmente baixas para vias navegáveis interiores, estradas e diques.

Mudanças estruturais na economia

Depois de décadas de economia tranquila, as coisas estão ficando mais duras para os consumidores e investidores. Aqui estão as coisas que pode esperar que aconteçam:

  • Volatilidade mais alta: desde o início da década de 1980 até 2008, a economia americana segurou a inflação em ordem e aproveitou um período de crescimento estável do PIB e de empregos. Esses anos foram tão tranquilos que os analistas cunharam a frase “the great moderation” (a grande moderação) para descrevê-los. Banqueiros do governo pareciam ter dominado seus papéis de gerenciar as economias. Essa estabilidade surpreendente levou os investidores a baixar suas guardas. E então, na queda da bolsa de 2008, a volatilidade voltou com mais força.

Para termos um vislumbre do que está por vir, vamos observar a experiência do Japão. Durante a década de 1980 as bolsas japonesas eram estáveis, até que, depois de uma queda em 1989, a Nikkei se tornou de repente uma roda gigante. A globalização também tem um papel importante na volatilidade. Agora que as cadeias de suprimento estão maiores e mais complexas, até mesmo mudanças suaves na demanda podem criar um “efeito chicote”, onde um pequeno movimento resulta em uma reação muito maior em uma área muito maior.

  • Tendência de crescimento menor: a economia mundial não está, de modo algum, condenada a recessão permanente, mas vai precisar se ajustar a taxas menores de crescimento. Rendimentos pessoais, PIB, produção industrial e mercados de trabalho irão crescer mais lentamente do que no passado. E as recessões serão um pouco mais frequentes. A dívida pública age como uma atraso para o PIB.
  • Maiores níveis estruturais de desemprego: o desemprego “cíclico” despenca e flui com a economia, mas o desemprego “estrutural” pode ser mais insistente, porque é o resultado de mudanças intrínsecas no mercado de trabalho. Trabalhadores altamente educados resistiram à recessão muito bem: em 2009, a taxa de desemprego para pessoas com um diploma de bacharelado era de 5,2% e a média de salário semanal era de $1.025. Por outro lado, para os trabalhadores apenas com diploma de ensino médio, o desemprego era de 9,7% e a média de salário semanal era de $626. Pessoas que não completaram o ensino médio estavam ainda piores, com 14,6% de desemprego e uma média salarial semanal de $454 nos Estados Unidos.

Essas estatísticas ilustram o abismo largo entre os ricos e pobres na economia americana. Além disso, muitos dos antigos funcionários em setores como o imobiliário e financeiro agora encontram pouca demanda para suas habilidades antigamente valiosas. Trabalhadores que perdem seus empregos enfrentam buscas por novos empregos muito mais longas do que no passado – e quanto mais uma pessoa fica sem trabalho, menos empregável ela se torna.

Com esses fatores em mão e com os déficits federais subindo, é óbvio que a rede de segurança para os desempregados, doentes e idosos será muito menos generosa. Mas mesmo os cortes acentuados em programas assistencialistas só podem ir até um certo limite. Até mesmo para manter essas políticas a uma taxa muito menor do que as taxas atuais, os Estados Unidos vão precisar de grandes quantidades de dinheiro. Essa necessidade provavelmente levará para a criação e imposição de um imposto de valor agregado, que vai atrapalhar ainda mais qualquer recuperação da economia.

A “hipótese do mercado eficiente” é a ideia de que os preços estão sempre certos porque os mercados são racionais. Esse conceito, que guiou os mercados por décadas, é uma outra casualidade do superciclo de dívidas. Se os mercados são racionais, então as bolhas e quedas não podem acontecer. Esse pensamento cegou a maioria dos participantes do mercado e dos políticos para a bolha imobiliária que estava se expandindo no início do século 21. Até mesmo o presidente da Reserva Federal americana, Ben Bernanke, acreditava que o espiral dos preços das casas era razoável. “O mercado de imóveis americano meramente reflete uma economia americana forte”, ele disse no final de 2006.

Enfrentando a inflação e a deflação

Os banqueiros do governo sempre viram a inflação como um período claro para as economias mundiais. Agora, porém, a deflação emergiu como uma ameaça real. Uma economia frouxa com excesso de capacidade impulsiona os produtores a baixarem seus preços. Um aumento nas poupanças pessoais e um declínio nos gastos dos consumidores também contribuem para a deflação.

No que Keynes chamou de “o paradoxo da economia”, poupar dinheiro é bom para o indivíduo que poupa, mas ruim para a economia em geral. Uma vez que os preços começam a cair, os consumidores têm um incentivo para atrasar as compras, o que atrapalha a economia.

A deflação também pode arruinar os balanços patrimoniais dos bancos. Quando o valor das garantias (colateral) começa a diminuir, falhas e falências acontecem em seguida. À medida que os bancos aumentam os critérios para empréstimos, o dinheiro não se move pela economia tão rápido quanto antes, criando mais pressão deflacionária.

A longo prazo, os especialistas estão preocupados com a inflação e até mesmo com a hiperinflação, que acontece quando os preços sobem 50% ou mais em um mês. Ao redor do mundo, a hiperinflação se tornou muito mais comum na história moderna, desde que as nações abandonaram o padrão do ouro. Livres do ouro, o papel moeda está sob controle dos legisladores que pegam emprestado e gastam com propósitos políticos. Os governantes estão criando déficits enormes e emitindo muito mais moeda para cobrir os gastos, causando a hiperinflação. Um exemplo extremo ocorreu na Alemanha na década de 1920, quando a inflação chegou a 29.500% em um único mês.

Se você acredita que a deflação está em jogo, você precisa gerenciar seu portfólio comprando títulos de tesouro, títulos que produzem receita e dólares, enquanto se livra de ações de empresas de construção, bancos e fabricantes de bens de consumo. Se, por outro lado, você acredita que a inflação é mais provável, você precisa comprar metais preciosos e moedas baseadas em commodities como as dos países Nova Zelândia, Canadá, Noruega, Brasil e Austrália (mas tome cuidado com o mercado imobiliário na Austrália).

Os períodos de “endgame”

Os Estados Unidos exemplificam bem os períodos do endgame. Os déficits são enormes, mas a disposição política é minúscula. Resolver o déficit de orçamento americano vai exigir uma reforma agressiva na Segurança Social e saúde pública, mas os políticos sabem que propõem cortes a seus próprios riscos. Salários e benefícios de trabalhadores federais ultrapassaram e muito os salários dos funcionários do setor privado.

Os contribuintes americanos não têm saída dessa bagunça. A nação poderia seguir a abordagem de taxar e gastar que o Japão criou depois da crise e que resultou em 20 anos de estagnação. O porém é que os políticos têm algumas maneiras de suavizar os golpes. Um imposto de valor agregado parece inevitável, mas se o governo americano cortar impostos corporativos, a nação poderia manter sua competitividade global. Os Estados Unidos poderiam também emular as políticas de imigração canadenses, permitindo que estrangeiros ricos e bem instruídos entrem no país.

Embora a situação dos Estados Unidos seja complicada, a Europa está ainda pior. Sua realidade desagradável é que uma união de moeda sub-ótima apoia o euro. Idealmente, uma união de moedas permite que trabalhadores se movam livremente, e que empregadores definam salários e preços livremente, tudo dentro de uma região com ciclos de negócios uniformes. Diferentemente dos Estados Unidos, onde os trabalhadores podem se mover de estado para estado para procurar por empregos e empregadores são livres para aumentar salários para atrair funcionários, na Europa eles não possuem essa mesma mobilidade. E a Europa tem visto gaps de salários muito desconcertantes. Na Grécia, por exemplo, os trabalhadores do setor público já ganharam até três vezes mais que os trabalhadores do setor privado.

Ainda assim, apesar de todos os prognósticos sombrios, os cidadãos do mundo têm muito o que esperar. Os avanços em biotecnologia, telecomunicações e educação vão melhorar a vida de muitas pessoas ao redor do mundo. As mudanças são inevitáveis, então procure por oportunidades e aproveite-as!

O problema do Japão

O Japão passou 20 anos tentando se recuperar de uma das maiores bolhas da era moderna. Até nos dias de hoje, o país ainda tenta se livrar dos problemas da deflação. O Japão é muito importante já que é um dos principais exemplos dos efeitos trazidos pela declaração em um país.

A bolha do país na década de 80 foi causada parcialmente por uma política monetária muito frouxa. Em 1985 os governantes decidiram intervir no dólar que estava muito forte e o iene ganhou muita força depois disso. Com isso, os japoneses enfrentaram uma perda de moeda nos ativos controlados pelo dólar – como os títulos do governo americano. E por isso, os japoneses passaram a trazer o dinheiro para casa. O banco japonês tentou resolver isso diminuindo as taxas de juros e a taxa de desconto oficial baixou cinco vezes até 1987 para ajudar as exportações japonesas. Com a inflação acima da taxa de desconto, o dinheiro circulava livremente.

As taxas baixas e a moeda forte incentivaram o boom imobiliário no Japão e no preço das ações. As empresas japonesas compraram muitos imóveis no Havaí e na Califórnia, incluindo em lugares luxuosos como o Hotel Bel Air em Los Angeles. Mas eventualmente, a bolha explodiu. O pico da bolha aconteceu em 1989, quando a Nikkei alcançou notas históricas. Dois anos depois disso, as ações caíram cerca de 60% do valor – o único exemplo próximo disso aconteceu na Grande Depressão.

Então, em 1989 mudou a política monetária e em 1990, depois que o mercado de ações começou a cair, a taxa de desconto oficial subiu para 6%. Além disso, o governo fez com que os bancos restringissem os financiamentos em imóveis. O problema foi que essa política monetária mais rígida só fez com que as coisas piorassem. Em 1993 o governo finalmente reconheceu o colapso da bolha, mas já era tarde demais e a deflação começou a fazer seu efeito. Os preços caíram 1,1% no primeiro trimestre e no meio do ano os preços das mercadorias caíam a uma taxa de 4,2% por ano. Em 1990 o Japão representava 14% da economia mundial. Em 2010, era apenas 8% e não existem empresas japonesas no top 10.

O Japão era uma economia saudável e dinâmica, mas atualmente tem uma dívida pública que corresponde a 200% do PIB. O número pode ficar ainda pior se analisarmos a dívida como porcentagem do PIB privado: quase 240%. Os níveis de dívida estão tão altos que só podem ser comparados a países com hiperinflação. O Japão agora se junta a países como o Zimbábue, o Líbano, a Jamaica, o Sudão e o Egito.

Notas Finais

Depois de analisar todas essas situações, o que você pode fazer para proteger seus investimentos? Em caso de cenários de deflação você pode: comprar títulos do tesouro; comprar dólar; vender ações; vender junk bonds; vender a maioria das commodities e assim por diante.

Mas se você acredita que está vivendo em um cenário inflacionário, busque comprar coisas que o governo não pode “imprimir ou criar”. Você pode investir em: metais preciosos; títulos corporativos de curto prazo; moedas baseadas em commodities e assim por diante.

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