Como a Música Ficou Grátis

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É possível ouvir a música que quisermos por meio de vídeos da internet e aplicativos que reproduzem os principais trabalhos de hoje e de ontem. E os independentes também. Mas como a indústria fonográfica chegou ao ponto atual? Stephen Witt, um jornalista americano, explora como a indústria musical entrou em declínio nessa era de muita pirataria. Reserve os próximos 12 minutos para aprender um pouco mais sobre os bastidores da música, sua indústria e diversos aspectos que a tornam tão plural quanto atualmente.

Ponto de vista

Mitt conta toda a história a partir da ótica de três personagens: o pesquisador e cientista alemão Karlheinz Brandenburg, do Instituto Fraunhofer; Dell Glover, funcionário de uma fábrica de CDs na Carolina do Norte e o executivo da indústria fonográfica Doug Morris.

A longa jornada do mp3

Brandenburg havia resolvido um dos problemas mais complexos da área do áudio digital. O volume de pesquisa dispensado por um comitê reunido na Alemanha em 1995, e engenheiros vinham elaborando teorias sobre algo parecido com o mp3 desde o final dos anos 1970. Agora, algo belíssimo havia surgido naquela obscura periferia científica: o produto refinado de uma linha de pesquisa que datava de três gerações. Só que os homens de terno na sala não davam a mínima para o fato do mp3 ser superior ao mp2. A derrota era sempre amarga, mas essa foi ainda mais, pois, após treze anos de trabalho, Brandenburg havia resolvido um dos problemas mais complexos da área do áudio digital. O volume de pesquisa dispensado pelo comitê remontava a décadas, e engenheiros vinham elaborando teorias sobre algo parecido com o mp3 desde o final dos anos 1970. Agora, algo belíssimo havia surgido naquela obscura periferia científica: o produto refinado de uma linha de pesquisa que datava de três gerações. O Moving Picture Experts Group (MPEG) era o comitê de padronização que até hoje decide quais tecnologias devem chegar ao mercado consumidor. Ainda assim, o mp3 foi abandonado depois de muitos anos e foi aderido o mp2.

Do chão de fábrica

Dell Glover começou como um mero funcionário da Polygram trabalhando na parte operacional da fabricação de CDs. Sempre nutriu muito interesse por tecnologia. No primeiro dia na fábrica, Glover recebeu a montanha-padrão da papelada do trabalho, como a norma de tolerância para frutos, que proibia a retirada não autorizada de CDs inéditos sob a ameaça de demissão. Os termos dessa norma eram amplos, estendendo-se à cópia não autorizada e a conspirações. Glover assinou, datou e rubricou o documento, que foi anexado ao seu arquivo. Em seguida, foi levado ao chão da fábrica. E foi em uma festa em seu começo na empresa que ele conheceu quem animava confraternizações com músicas que roubara da fábrica.

O complexo Morris

Em junho de 1995, Doug Morris era o presidente para a América do Norte da Warner Music, caminhava pelos corredores do escritório de Manhattan da Time Warner para uma reunião com seu chefe. Tinha 56 anos de idade e postulara uma carreira na indústria fonográfica depois de fracassar nas tentativas como compositor e músico. Sempre pragmático, foi demitido da empresa depois de uma série de lançamentos de discos de rap, com palavreados chulos demais para o puritanismo empresarial.

Ainda sobre o MP3

O mp3 continuava mostrando aspectos melhores de qualidade, mas o financiamento público para suas pesquisas era algo raro, pois achava-se complicado demais seu uso. Para Brandenburg, era necessário buscar continuamente o consumidor doméstico. Ele tentava buscar e programar um aplicativo para PC capaz de codificar e executar arquivos mp3. A maior limitação ainda era o processo de codificação. O mp3 tocava música de CD com uma fidelidade quase perfeita a 1/12 do tamanho original. E Brandenburg via o mp3 como uma nova peça natural para a indústria. Era só uma questão de fazê-los entender suas vantagens econômicas.

Glover, o vazador

Em 1996, Dell Glover trabalhava em tempo integral na fábrica da PolyGram. Havia subido de cargo e conseguido alguns aumentos. Glover tinha uma facilidade notável para fazer contabilidade de cabeça. Ainda assim, enfrentava dificuldades financeiras em casa com a família. O técnico a cuja festa Glover comparecera em 1995 havia acabado de ser demitido depois de denúncias anônimas de outros funcionários para a gerência sobre como ele vinha obtendo seu condenado acervo musical. A segurança da fábrica não havia conseguido provar nada, mas levaram as acusações a sério e usaram os serviços de um especialista em polígrafo para conduzir um teste de detecção de mentiras. Quando ele descobriu que era possível rastrear outros usuários e rastrear seu endereço de Protocolo de Internet, o IP, descobriu maneiras de burlar essa forma para ser o mais bem sucedido “vazador” de novas músicas dentro da fábrica e complementar renda. Em especial, os novos rappers.

Retorno à indústria

Doug Morris conseguiu um novo emprego quase de imediato. Menos de um mês depois de sua demissão, trabalhou em uma destilaria até chegar a uma divisão da MCA, que enfrentava dificuldades financeiras. Talvez na tentativa de exorcizar os fantasmas, Morris mudou o nome da MCA para Universal Music Group. Com foco na venda de lançamentos do rap, que estavam no auge do sucesso.

Sofisticando as cópias

Em 1998, Glover construiu uma torre: sete gravadores de CD empilhados que faziam cópias perfeitas do original. Os gravadores tinham uma velocidade de quatro vezes. Assim, em uma hora, Glover podia produzir cerca de trinta clones. Ele se concentrou principalmente nos filmes. A compressão de vídeo estava apenas começando a chegar às redes piratas, o que levou a uma profusão de ripagens de baixa qualidade. Os gravadores domésticos de DVD ainda não haviam sido lançados, e os grupos de compartilhamento usavam uma tecnologia inferior chamada “Video Compact Disc”. Glover baixava esse material, fazia cópias com a torre e depois vendia as mídias piratas por um valor de 5 a 10 dólares cada. A qualidade dos vídeos era baixa, mas o negócio era promissor. Logo, Glover estava comprando CDs virgens em grandes quantidades. A única coisa que ele não vendia eram os CDs vazados da fábrica. Embora fossem vendidos no mercado negro, Glover não chegava nem perto deles.

Naspter

Em junho de 1999, um rapaz de dezoito anos, Shawn Fanning, que havia largado a Universidade Northeastern, lançou um software que havia desenvolvido, chamado Napster. O Napster era um monopólio natural cujo acervo e velocidade só aumentavam à medida que mais pessoas se juntavam a ele. No início de 2000, havia quase vinte milhões de usuários, e no meio do ano mais de catorze mil músicas eram baixadas a cada minuto. Toda música já produzida em qualquer lugar podia ser encontrada em segundos. As velocidades de download aumentavam rapidamente, mesmo em conexões domésticas, e as músicas com frequência chegavam em menos tempo do que sua própria duração. Em essência, era praticamente um streaming. O Napster não era só um serviço de compartilhamento de arquivos, era a jukebox digital infinita. E era gratuito. Foram inúmeras as tentativas de fazê-lo sair do ar, bloquear os usuários mas a cultura imposta por essa novidade era irreversível: a da pirataria de músicas e filmes.

O maior vazador

Embora fosse um dos melhores clientes dos contrabandistas, por um bom tempo Dell Glover não conseguia descobrir como eles tiravam os CDs da fábrica. A segurança na Universal era inviolável. Além das revistas aleatórias, os funcionários agora precisavam colocar as mochilas em uma esteira para passar por uma máquina de raios X. A fábrica não tinha janelas, e as saídas de emergência disparavam um alarme alto. Laptops eram proibidos em qualquer lugar das instalações, assim como sistemas de som, players portáteis, aparelhos de fita cassete ou qualquer coisa que pudesse gravar ou ler um CD.

Na linha de produção, as máquinas de prensa eram controladas digital­mente e produziam registros à prova de erros do que entrava e saía. Os discos embalados produzidos no final eram imediatamente incluídos no in­ventário com um leitor de códigos de barra. A gerência produzia um relatório automático para cada leva, registrando o que tivesse sido impresso e o que tivesse sido de fato enviado para venda, e qualquer diferença precisava ser justificada. Para um álbum popular, a fábrica podia prensar mais de meio milhão de cópias em um período de 24 horas, mas a gravação automática de registros permitia que os chefes acompanhassem o inventário disco a disco. E então vinha a fila da revista, na saída do serviço. A partir de 2000, Glover tornou-se o maior responsável pelo vazamento de músicas antes do lançamento no mundo após aprimorar meios de burlar a segurança, ajudado por seus melhores cargos na Universal.

Declínio

O negócio do rap estava em expansão, porém o da música encolhia ainda mais depressa. A pirataria estava acabando com as vendas da indústria e, desde o pico em 2000, as vendas de CDs tiveram uma queda de 30%. Apesar do crescimento impressionante de sua participação de mercado, não havia nada que a Universal pudesse fazer para estimular o aumento das vendas. Nas outras gravadoras se desenrolava um massacre. A Tower Records beirava a falência. O selo Columbia, da Sony, estava em guerra contra a própria divisão de eletrônicos. A EMI estava afogada em dívidas. A Bertelsmann colocara seus ativos da área musical à venda.

Um acordo vantajoso

Desde 2002, Steve Jobs tentava convencer Morris a embarcar na iTunes. Os dois iniciaram um longo e às vezes cáustico flerte. Eles eram verdadeiros opostos. Morris acreditava no poder da pesquisa de mercado e estava disposto a deixar os consumidores lhe dizerem o que vender. Já Jobs encarava a pesquisa de mercado com ceticismo. Entretanto, de alguma forma, os dois se entendiam, e Morris estava sob pressão. No final de 2002, em uma reunião no escritório de Morris na Universal, Jobs lhe mostrou pela primeira vez o protótipo de uma experiência intuitiva de compra pela web que levaria a distribuição legal de música para as massas. O site foi ao ar no final de abril, e, pela primeira vez, todas as músicas da Universal estavam disponíveis para download legal e pago. A iTunes Store foi um sucesso instantâneo. Vendeu mais de setenta milhões de músicas no primeiro ano.

Vazamentos

À pirataria somava-se o problema recorrente dos vazamentos pré-lançamento. Qualquer um que já tivesse trabalhado numa loja de discos sabia que terça-feira era o dia mais movimentado, quando novos lançamentos chegavam às prateleiras. A terça-feira era o termômetro da indústria e metade das vendas de um álbum típico ocorria nas primeiras quatro semanas após o lançamento. No passado, os danos do vazamento de um álbum eram localizados, mas com a tecnologia peer-to-peer um vazamento pré-lançamento podia se espalhar pelo mundo inteiro em questão de horas. Seguindo o antigo modelo de negócios, o iTunes também lançava a maioria das novas músicas às terças-feiras. Contudo, muitas vezes elas já estavam disponíveis em mp3 semanas antes nos sites peer-to-peer. É óbvio que isso atrapalhava as vendas e, por alguma razão que Morris não conseguia entender, a Universal parecia mais suscetível do que outras gravadoras a tais vazamentos. Em 2002, surgira a suspeita de que alguém na fábrica de controle rígido onde Glover trabalhava vazava músicas.

Várias formas de downloads

Em 2001, Brandenburg e seus amigos pesquisadores tinham seguido seus caminhos. Os defensores da propriedade intelectual estavam um passo atrás. O Napster, porém, estava arruinado, e os herdeiros de seu império não chegavam nem perto de sua qualidade e alcance. Kazaa, eDonkey, LimeWire, BearShare, Gnutella, Grokster. Iniciar o download de uma música ou filme nessas redes significava entrar em uma fila atrás de centenas de usuários. O tempo de espera podia ser de horas, às vezes até dias, e durante todo esse período na fila o usuário era forçado a deixar o endereço de IP vulnerável aos advogados loucos por intimações. Pior ainda, quando enfim o arquivo era baixado, em geral se provava ser uma codificação corrompida de baixa fidelidade ou uma música completamente diferente, ou até uma falsificação deliberada com algum som extremamente desagradável.

Os torrents

Bram Cohen criou o BitTorrent. Nascido em Manhattan, Cohen era um excelente programador que em seu tempo livre participava de torneios de matemática. O cargo de Cohen na MojoNation lhe permitira analisar de perto a mecânica do compartilhamento de arquivos, e o que ele viu era chocante. Podia haver milhões de cópias da música no mundo virtual, mas, num site como o Napster ou o Kazaa, só era possível acessar uma de cada vez. Isso não fazia sentido para Cohen. A lógica serviu de base para a tecnologia do BitTorrent, mas a eliminação das filas de download foi só o início. O ponto mais positivo do torrent foi ter resolvido um dos velhos problemas da internet: o gargalo da transmissão de dados. Com os torrents, quanto mais pessoas tentassem baixar um arquivo ao mesmo tempo, mais rápido o download se tornava. Em setembro de 2003, mais de dois anos após os servidores do Napster serem fechados, foi que o primeiro site público de torrents a ter sucesso foi colocado no ar: o Pirate Bay. Hospedado na Suécia, o Pirate Bay logo se tornou o principal catálogo de material pirateado do mundo. Filmes, músicas, programas de TV, programas crackeados.

Crises e mais crises

Devido à crise nas vendas na indústria fonográfica, Morris fora forçado a fechar divisões inteiras da companhia. Desde 2002, mais de dois mil funcionários da Universal haviam perdido o emprego em três ondas sucessivas de demissões em massa. Houve um congelamento nas contratações, e os adiantamentos aos artistas começaram a encolher. Os gastos com marketing foram reduzidos, e os orçamentos para videoclipes passavam a ser restritos. Embora em 2005 os CDs ainda representassem mais de 98% do mercado de vendas legais de álbuns, Morris não estava preso ao formato. O CD era o passado; o iPod, o futuro.

Vazamentos e prejuízos

No final de 2006, Glover já havia vazado quase dois mil CDs. Apesar de todas as reclamações que a companhia fazia em público sobre os vazamentos, a segurança da cadeia de abastecimento da Universal estava pior do que nunca. A Universal mais uma vez havia atualizado as linhas de produção, e a fábrica agora podia produzir um milhão de CDs por dia. Mas esse tinha sido seu último aperfeiçoamento. A fábrica agora era um ativo em depreciação e era tratada como tal. Desde a transferência para a nova sede, nenhum novo equipamento fora instalado, as contratações foram congeladas, os cuidados mais básicos de manutenção estavam sendo negligenciados, a atmosfera era de pessimismo e muitos funcionários haviam começado a buscar novos empregos. Ainda assim, Glover continuava fazendo hora extra, pois supervisionar a linha de embalagem estava se tornando cada vez mais difícil. Quase todos os lançamentos agora vinham em várias edições, com DVDs bônus, cartazes dobrados e encartes de luxo. Nessa época, ele já pensava em largar o vazamento de CDs.

Cerco se fechando

Em janeiro de 2007, um dos topsites europeus de downloads desapareceu misteriosamente. O servidor, localizado na Hungria e contendo vários terabytes de arquivos pirateados, começou a rejeitar todos os acessos, e a companhia de hospedagem não respondia às ordens de serviço. Após onze anos e vinte mil vazamentos, o RNS chegara ao fim. Seu último dia no ar foi uma mistura de alegria e tristeza. O canal de bate-papo estava cheio, com dúzias de ex-membros deixando suas mensagens de despedida. Eles relembravam amizades e façanhas do passado. Apesar de continuar existindo um alto grau de anonimato entre os membros do grupo, muitas amizades haviam sido formadas. Para Glover, foi a oportunidade de deixar infantilidades de lado e continuar com seu meio de vazamento de CDs, ainda que cada vez mais o cerco se fechasse para quem exercesse esse tipo de serviço.

O paradoxo

No fim de 2007, as vendas dos CDs haviam sofrido uma queda de 50% desde seu auge, em 2000, e isso com descontos agressivos nos preços. As vendas digitais de arquivos mp3 legais nem começavam a compensar a diferença. As margens de lucro e os lucros encolheram, e mais uma vez Morris foi forçado a demitir centenas de funcionários de todos os departamentos. Os problemas continuaram: começaram a aparecer servidores que trilhavam uma linha tênue entre legalidade e criminalidade, como o Megaupload; o compartilhamento de arquivos peer-to-peer agora acontecia nos sites de torrents; grupos de vazamento rivais surgiram para ocupar o lugar do RNS. A guerra contra a pirataria parecia a guerra contra as drogas: cara e sem grandes chances de vitória, mesmo tendo condenados em processos criminais. Os CDs estavam morrendo. Doug Morris, por sua vez, ia muito bem. Presidindo uma indústria em queda livre, continuava ganhando quase 15 milhões de dólares por ano. Durante esse tempo, na Universal, ele já ganhara mais de 100 milhões de dólares, o que, com uma margem considerável, o tornava o CEO mais bem pago de uma grande gravadora. Sua fortuna começou a chamar atenção de fora do mundo insular da indústria fonográfica.

O ultimato

Surgiu a exigência de que os sites mais importantes dessem 8/10 de 1 centavo por cada execução de um de seus vídeos, do contrário viria a proibição. No fim de 2007, milhares de vídeos sumiram do YouTube, e todos os artistas da Universal desapareceram dos sites mais populares de hospedagem de vídeos. O golpe foi desferido não apenas para vídeos de música oficialmente licenciados, mas para milhões de vídeos amadores que usavam músicas dos artistas da Universal. Mas o que deixou o público furioso deixou seus artistas em êxtase. Logo os sites de hospedagem de vídeos foram forçados a negociar e passaram a dar uma porcentagem significativa dos lucros obtidos com propaganda à Universal. Com algumas cartas ameaçadoras da sua equipe de advogados, Morris gerou centenas de milhões de dólares do nada. A revolução do mp3 o pegara desprevenido, mas havia lhe ensinado uma lição, e ele estava determinado a não deixar nada parecido acontecer novamente. Morris começou a procurar fontes semelhantes de receita. Os anúncios comerciais postados junto com vídeos de música na internet eram uma nova fonte de lucros que lhe oferecia a oportunidade de corrigir os erros do passado. Além das paradas de sucesso, ele agora começava a prestar atenção na unidade fundamental de troca da internet: o custo por mil impressões, ou “CPM”. A métrica representava o preço que os anunciantes estavam dispostos a pagar por um pacote de mil visualizações da propaganda. O CPM era determinado por leilões eletrônicos e iam de frações de centavo a centenas de dólares. O CPM para vídeos era especialmente bom, em média 30 dólares por unidade. A receita total em potencial era gigantesca. Leiloado pelo serviço de distribuição da Vevo, o espaço publicitário reservado para um trecho de trinta segundos que antecederia a execução do videoclipe de “Baby”, de Justin Bieber, assistido mais de um bilhão de vezes nos anos seguintes, renderia mais de 30 milhões de dólares. Finalmente, aos setenta anos, Morris inovou. O Vevo reuniu trinta anos de produção criativa de mais de dez mil artistas e agora a transformava em um produto altamente lucrativo. Ele se tornou o canal mais popular do YouTube, e as críticas a Morris começaram a desaparecer.

O maior pirata de músicas

No dia seguinte a uma busca do FBI em sua casa, Glover voltou ao trabalho. Ele tinha um turno agendado e não fora formalmente acusado de crime algum. Assim, parou na guarita com o Ford, teve a entrada do veículo liberada e encontrou uma vaga no estacionamento. Ao sair do carro, foi recebido por seu chefe. Seria a última vez que Glover colocaria os pés no terreno da fábrica. Ele foi demitido uma semana depois e todo o esquema para vazamento de CDs foi desmantelado. A estimativa era de que alguns dos sites para os quais ele colaborava, como o RNS, haviam vazado mais de vinte mil álbuns em onze anos. Durante a maior parte desse reinado de terror, o ativo mais valioso do grupo foi Glover. Seus vazamentos tinham chegado aos topsites do mundo inteiro, daí passando para trackers privados como o Oink e repositórios públicos como o Pirate Bay, o LimeWire e o Kazaa. Ele foi a principal fonte e ponto de conexão de centenas de milhões, talvez até bilhões, de arquivos mp3 duplicados. E, devido à posição predominante da Universal nesse período, era improvável que houvesse uma única pessoa com menos de trinta anos cuja lista do iPod não incluísse um mp3 ligado a Glover. Ele foi o flagelo da indústria fonográfica, o herói do submundo da internet. Foi o maior pirata de músicas de todos os tempos.

Notas Finais

É impossível, no mundo contemporâneo, alguém dizer que nunca desfrutou de minutos ouvindo música que não tenha sido pirateada de algum lugar. E toda essa teia complexa é destrinchada de forma didática por um jornalista que se debruçou sobre o tema, desde os estudos sobre o MP3. Um boom de vazamentos e proliferação de músicas grátis na internet, um caminho sem volta. E a falta de visão dos grandes empresários que só pensavam em faturamentos milionários intensificou este cenário. Mas não tem jeito: em qualquer site, a música está aí, de graça, num crime de pirataria tão relativizado por nossa cultura cibernética.

Dica do 12’

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