Capitães da Areia

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A primeira edição de “Capitães da Areia” apareceu em 1937, trazendo um vívido relato da vida dos meninos de rua em Salvador. A obra foi confiscada e queimada em praça pública. Sua difusão seria adiada até o lançamento da segunda edição sete anos depois, quando a força de sua história transcendeu as fronteiras nacionais, sendo traduzido para inúmeras línguas e publicado em todos os continentes.

As razoes para a censura estão na própria essência deste romance: uma denúncia categórica dos graves problemas sociais que as elites culturais do país sempre ignoraram.

Unidos pela pobreza e excluídos por uma sociedade egoísta para os areais do porto da Bahia, os garotos organizam uma sociedade própria, marcada pela inocência, pelo crime e, sobretudo, pela solidariedade.

“Capitães da Areia”, verdadeira obra-prima carregada de lirismo e emoção, redeu a Jorge Amado a simpatia e a admiração de leitores em todo o mundo.

Cartas à redação

A história tem início com as cartas remetidas ao Jornal da Tarde expressando a insatisfação popular com um bando de cerca de 100 garotos, chamados de “Capitães da Areia”, que estavam cometendo diversos assaltos pela cidade.

Ninguém sabia onde esses garotos moravam ou o local que utilizavam para armazenar os produtos de seus roubos diários. As cartas solicitam que o juizado de menores entre em ação, pois, até mesmo a residência de José Ferreira, ilustre comendador, fora assaltada pelo grupo.

Trapiche

O bando de garotos assaltantes era liderado pelo menino Pedro Bala, filho de um estivador grevista assassinado pela polícia e caracterizado pelo loiro de seus cabelos e por uma cicatriz obtida em uma briga com Raimundo, o antigo líder do bando.

O Ponto das Pitangueiras

O primeiro “trabalho” do bando deve-se à intervenção de Querido-de-Deus, exímio capoeirista e profundamente admirado pelos meninos. Pedro Bala reúne João Grande (o maior entre eles e defensor inconteste das crianças menores) e Gato, o mais belo entre os rapazes, jogador obstinado e cafetão.

A operação consiste em adentrar uma residência e trocar embrulhos sem serem pegos, o que é realizado com grande sucesso, o que anima a todos.

As Luzes do Carrossel

Os garotos Sem-Pernas, deficiente físico que guardava um ódio visceral contra todos os policiais, e Volta Seca, que sonha em se alistar ao bando de Lampião, auxiliam Nhozinho, proprietário de um carrossel que acabara de chegar à cidade.

Ambos ajudam a montar o brinquedo e, depois, chegam a utilizá-lo, colocando-se em contato com um pequeno vislumbre de uma infância que nunca poderiam ter.

Docas

Em um bar, Pedro Bala encontra João de Adão. O amigo lhe conta os eventos que sucederam com seu pai, que acabou sendo assassinado em uma revolta. A similaridade com o destino de seu próprio pai o impressiona.

Ao deixar o bar, Pedro Bala encontra uma menina e os dois se encaminham para uma praia, a fim de “brincarem” juntos.

Aventura de Ogum

A polícia apreende a imagem de um orixá. Dona Aninha, mãe de santo que sempre socorre os meninos em caso de necessidade, pede a eles para recuperarem o objeto sagrado.

Ao colocar o plano em prática, Pedro Bala acaba preso. Para fugir da situação, convence os policiais que é filho de um estivador e que foi aprisionado por engano. Ao ser liberado, consegue recuperar o orixá e o devolve a Dona Aninha.

Deus Sorri Como um Negrinho

Prestes a roubar uma loja, o garoto Pirulito, de fortes inclinações religiosas, questiona-se acerca do fato de que está vivendo uma existência pecaminosa ao lado dos Capitães da Areia. Por fim, chega à conclusão de que não teve escolha, uma vez que essa vida lhe foi imposta pelas circunstâncias e, assim, decide continuar roubando.

Família

O menino Sem-Pernas aproxima-se de uma família que havia acabado de perder um filho. O objetivo era ganhar a confiança do casal e, a pretexto de pedir emprego, busca se inteirar do local onde eram guardadas as riquezas.

Embora tenha gostado dessa casa e se apegado à família, ele nada podia fazer, uma vez que já se encontrava demasiadamente comprometido com o bando. Depois de ter ajudado a roubar todos os itens de valor da casa, foge de volta ao esconderijo com o coração dividido.

Manhã Como um Quadro

Pedro Bala e Professor, o mais inteligente e o interessado em livros do bando, perambulam pela cidade na tentativa de ganhar algum dinheiro. Como o Professor gostava de fazer desenhos, começou a retratar os transeuntes.

Um homem que passava pela rua fica admirado com o talento do garoto e entrega-lhe o seu cartão, convidando-o a integrar uma escola de desenhos.

Alastrim

A população pobre da Bahia estava sendo tomada por uma epidemia de varíola. Dois garotos do bando também contraíram a doença, sendo que um deles falece. O outro, é enviado ao Lazareto, local destinado a todas as pessoas doentes.

O padre local é veementemente advertido por seu superior, o bispo, que o recriminou por esconder o fato de que um dos meninos estava com varíola.

Destino

Pedro Bala e alguns dos garotos vão a um bar onde são frequentemente desrespeitados. Gato, porém, assegura que dessa vez as coisas serão diferentes, pois consumiriam.

A estratégia não surte efeito, e os meninos só conseguem adquirir o respeito dos frequentadores depois que João de Adão revela que Pedro Bala, o líder do bando, era filho de Loiro, conhecido por ter lutado bravamente em defesa dos interesses do povo.

Filha de bexiguento

Acometida pela varíola, falece a mãe de Dora, a única menina do bando, e de Zé Fuinha, seu irmão mais novo. Como o pai também morrera pouco tempo antes, ambos procuram emprego para se sustentar, mas não conseguem encontrar nenhum trabalho.

Resgatada das ruas por Professor e João Grande, os meninos do trapiche a aceitam – com alguma relutância – entre eles.

Dora, mãe

O tempo passa e Dora passa a ocupar o papel de mãe dos garotos do bando, pois ao oferecer amor e carinho a todos, passa a ser respeitada e a receber o afeto de cada um deles.

Dora, irmã e noiva

Dora toma a decisão de participar ativamente das atividades criminosas do bando, uma vez que não considera justo que todos se arrisquem para alimentá-la.

Ezequiel, líder de um bando de garotos rivais, arruma briga com Pedro Bala que sofre uma dura surra e se vê obrigado a fugir ao trapiche. Humilhado e ferido, ele recebe os tratamentos de Dora que, assustada com o seu estado, o beija nos lábios machucados.

Eles sem deitam na areia e Pedro Bala ouve Dora dizer que é sua noiva. Ainda que ambos não saibam o que é amar, sentem-se claramente apaixonados um pelo outro. Depois disso, Pedro reúne os Capitães da Areia para se vingarem, com sucesso, de Ezequiel.

Reformatório

Ao tentarem realizar um novo assalto, alguns dos garotos são presos, entre eles, Gato, Pedro Bala, Sem-Pernas, João Grande e Dora. No momento em que se organizava um registro fotográfico dos aprisionados, Gato e Sem-Pernas conseguem fugir.

Dora é conduzida a um orfanato e Pedro Bala é levado ao reformatório, onde permaneceu, durante dias, confinado a um espaço minúsculo sem receber quase nada de água e comida. Em seguida, é transferido a uma cela superlotada.

De dentro do reformatório, ele consegue entrar em contato com os garotos de seu bando, que providenciam uma corda para sua fuga, que se concretiza durante a noite. Sua fuga é noticiada pela imprensa.

Orfanato

Após sua fuga do reformatório, o líder dos Capitães da Areia busca encontrar Dora no orfanato. Eles organizam uma invasão do local – o que é posto em prática com bastante facilidade – e resgatam Dora que, embora esteja ardendo em febre – decide fugir dali com os meninos.

Noite de grande paz

Dona Aninha, a mãe de santo, é convocada ao trapiche para curar a febre de Dora. Enquanto ela trabalha com os guias espirituais para livrar a menina dos males que a acometem, uma grande paz reina no esconderijo dos Capitães da Areia.

Dora, esposa

Dona Aninha não consegue curar Dora que chama Pedro Bala para junto de si. Ela diz que não é mais uma menina e pede para fazer amor com ele que, embora tenha tentado recusar, acaba sucumbindo à vontade de Dora e ambos se entregam ao desejo que os consumia há muito tempo.

Ao acordar, no meio da noite, Pedro Bala percebe que a garota estava fria e sem pulsação. Seu grito de horror atravessa toda a extensão do trapiche. Querido-de-Deus se encarrega de transportar o corpo de Dora e o lança ao mar.

Como uma estrela de loira cabeleira

Inconformado com a morte de sua amada, Pedro Bala quase se afoga ao perseguir a embarcação de seu amigo Querido-de-Deus. Transtornado pela dor, Pedro Bala procura Dora pelo firmamento, pensando nela como uma nova estrela.

Vocações

A morte de Dora serviu para fazer os meninos repensarem suas escolhas de vida e começarem a agir de outra forma para obter o sustento. Alguns chegam, até mesmo, a abandonar o grupo e tentar a sorte em outras paragens.

Canção de amor da vitalina

Um dos últimos crimes praticados pelos Capitães da Areia consiste em um roubo na residência de uma solteirona abastada, única herdeira de uma família extremamente rica.

Na rabada de um trem

Volta-Seca e Gato também deixam o bando. Enquanto Gato parte para Ilhéus acompanhado pela prostituta Dalva, a fim de passar a perna nos grandes proprietários das célebres fazendas de cacau da Bahia, Volta-Seca atinge o cangaço e se junta a Lampião, seu padrinho.

Como um trapezista de circo

Durante um roubo, Sem-Pernas é perseguido por policiais. Encurralado, sobe a um muro e de lá se joga, preferindo morrer do que se entregar aos homens da lei.

Notícias de jornal

Uma série de reportagens conta as histórias dos garotos que saíram do grupo, como Volta-Seca, Gato e Professor, que se torna famoso na capital federal a partir de uma exposição de quadros aclamada pela crítica.

Companheiros

Um grupo de trabalhadores deseja desencadear um movimento grevista. Temendo a existência de furos no movimento, os grevistas chamam os Capitães da Areia para ajudarem a reprimir os dissidentes.

Os atabaques ressoam como clarins de guerra

Após a vitória do movimento grevista, o estudante que contatou o bando continua visitando os meninos no trapiche.

Com o passar do tempo, Pedro Bala se dá conta de um chamado interior, algo superior ao furto de objetos em prol da sobrevivência. Decidido, deixa o bando e abraça uma nova missão de vida: refazer os passos de seu pai.

Uma pátria e uma família

Pedro Bala se converte, então, em um militante proletário. Essa opção, no entanto, não provocou grandes alterações em sua rotina, pois continuava fugindo da polícia. A diferença, contudo, consistia no fato de que, agora, ele atua em defesa das pessoas que mais precisam.

Notas finais

Um dos elementos mais curiosos dessa história reside no fato de que ela não possui um protagonista. Para indicar um personagem principal, o mais lógico seria considerarmos o conjunto formado pelos Capitães da Areia.

As ações não gravitam este ou aquele personagem, mas a vida coletiva e as interações estabelecidas entre todos e o ambiente que os cerca. Para o enredo, o líder Pedro Bala, por exemplo, não pode ser indicado como mais importante do que o Gato ou o Sem-Pernas, por exemplo.

Cada integrante do grupo atua como uma faceta, uma parcela do organismo formado pelos Capitães da Areia. Por fim, cumpre ressaltar que essa característica, qual seja, a de priorizar o elemento coletivo em detrimento das individualidades, marca todas as obras de Jorge Amado.

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