Admirável Mundo Novo

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Considerado um dos 100 melhores romances de língua inglesa do século XX por diversos analistas e revistas especializadas em literatura, Admirável Mundo Novo é um clássico, bem elaborado e por muitas vezes assustador.

Ao lado de 1984, escrito por George Orwell, é marcante ao abordar estados autoritários, controladores de toda uma sociedade. Aqui, esta também é distópica. O romance, lançado em 1932, fez tanto sucesso que ainda rendeu o ensaio Regresso ao Admirável Mundo Novo, publicado em 1958, em que o autor discute novamente a temática da primeira obra, bordando a sociedade totalmente organizada de acordo com princípios científicos, e como todos os sentimentos e coisas que saem de determinados padrões de normalidade são rejeitados. É a predominância da técnica o foco dessa civilização futurista.

Os seres humanos são tratados como uma linha de montagem, cada um é parte de uma produção em série controlada pelo Estado neste Admirável Mundo Novo. 

A sociedade industrial e tecnológica, com a predominância da racionalidade como nova religião, é o alvo desta obra futurista e fatalista. 

E nos próximos 12 minutos, vamos nos aprofundar um pouco mais em uma das obras mais importantes e influentes do século XX.

Sinopse

Escrito em 1931, Admirável Mundo Novo foi publicado em 1932. A trama se passa em uma Londres futurista, quando os anos são contados como DF - Depois de Ford, já enunciando o quanto a linha de montagem é o centro desta sociedade. 

Nesta fábula futurista, a população é organizada por um sistema científico de castas. Não há vontade livre, pois tudo é submetido a um condicionamento maior. Para evitar revoltas com essa padronização da vida humana, os habitantes dessa sociedade pasteurizada se submetem a tomar um comprimido da felicidade, o Soma. 

Durante o sono, há cursos ministrados sobre quais ideologias devem ser seguidas pelas pessoas naquela sociedade, de forma a que nenhum pensamento fuja do que é desejado pelas autoridades. 

Estaria aí uma sociedade perfeita, ausente de problemas? Longe disso!Na trama, Linda é uma jovem típica das castas altas e conhece um selvagem em uma reserva, que é alegoria do mundo real. Eles são a representação do antagonismo entre uma nova e uma velha sociedade, entre novos e velhos padrões.

Este jovem é Bernard Marx, que se sente permanentemente insatisfeito com o mundo onde vive, por ser fisicamente diferente dos integrantes de sua casta. 

Na sociedade vivida por Linda, as pessoas são programadas para desempenhar determinado papel social e gostar de sua função. Não há questionamento, todos estão adaptados e seguem o padrão pré-estabelecido. O que foi designado pelo Estado, detentor do bem-estar geral, é a regra a ser seguida. 

Bernardo Marx pertence aos selvagens do passado, que pode ser considerado a época em que o livro foi escrito. Já Linda e seu filho, John, estão na sociedade futurista, a qual Huxley critica como um futuro de excesso de padronização científica do ser humano. 

Huxley profetiza um mundo com um futuro bem diferente do que era pensado em sua época. Se para muitos, o progresso e a ciência trariam apenas benefícios à humanidade, para ele era preocupante a excessiva ordem nos anos pós-Ford. Para Huxley, tal comportamento padronizado nada mais é do que um pesadelo depois da Revolução  Industrial. 

Em seu Regresso ao Admirável Mundo Novo, escrito em 1957, ele relata que, de fato, imaginava em um futuro distante que as profecias feitas na obra de 1931 poderiam acontecer. A excessiva ordem lhe assustava profundamente, cada vez mais. O mesmo pode ser dito por cada um dos leitores deste livro fundamental para a literatura contemporânea. 

Processo Bokanovsky

É um dos principais instrumentos da estabilidade social ao qual parte da população do livro é submetida. Produz seres humanos em série, com a fecundação de 96 gêmeos por óvulo, o que causa a estabilidade social.

Por meio desse processo, todos os homens e mulheres são idênticos, padronizados em grupos uniformes, já que foram constituídos em um mesmo embrião. 

Então, são manipulados e condicionados pelo Sistema Hipnopédico. Nele, repetia-se dezenas de vezes mensagens durante o sono das pessoas, como uma lição de casa a ser posta no inconsciente das pessoas. 

Sem estabilidade social, não há civilização. E sem estabilidade social, não há estabilidade individual no Admirável Mundo Novo. 

A estabilidade individual deixa todos perfeitos e felizes, sem espaço para guerras e desentendimentos. A sociedade, então, ficava organizada por este sistema dito científico de castas, mas ao mesmo tempo a servidão é aceitável, praticamente uma condição da qual ninguém é capaz de escapar. 

As castas

No Admirável Mundo Novo, a sociedade é dividida em castas.

  • Alfas: pertencem à casta alta, vestem roupa cinza e não passam pelo Processo Bokanovsky;
  • Betas: estes possuem habilidades para realizações de tarefas específicas, mas também pertencem à casta alta e não passam pelo Processo Bokanovsky;
  • Gamas, deltas e ípsilons pertencem às castas baixas, são a maior parte da população da sociedade retratada na obra e foram formados pelo Processo Bokanovsky, diferenciando-se pela cor das roupas que vestem, sendo verde, cáqui e preta, respectivamente.

Soma

Na obra de Huxley, há uma droga que os personagens tomam para nunca ficarem tristes. Ela tem como efeito causar felicidade e pode ser traçado um paralelo interessante quanto à hipermedicalização de novos tempos, ou mesmo o quanto nos apegamos a conceitos e comportamentos específicos para fugir de nossos problemas.

Tal droga atende pelo nome de Soma. O Soma é uma ferramenta de controle social em Admirável Mundo Novo. 

Profecias

Muito se fala no quanto Huxley vislumbrou em sua obra uma série de comportamentos e tendências que acabaram se tornando realidade, ou ao menos, possuem semelhanças assustadoras com a obra distópica. 

Para começar, a civilização excessivamente padronizada, repetindo uma série de comportamentos, é o alerta do autor quanto ao que seria, para ele, um futuro sombrio.

Ao notarmos pessoas vestindo roupas com um mesmo estilo, tentando se enquadrar em grupos com o mesmo visual, por exemplo, podemos enxergar ali algo que Huxley previa em seu livro. 

Outra questão é a busca incessante por uma felicidade contínua, sem momentos de tristeza ou fracassos, induzidos pelo Soma, tomado diariamente como uma droga que os fazia esquecer os problemas. Esta harmonia social, impossível de ser alcançada, é o que faz termos tantos gurus de uma felicidade plena nunca alcançada, evidentemente posta de maneira caricatural e aterrorizante na distopia. 

A geração por um sistema que aliava controle genético a condicionamento mental, o pleno domínio em prol desta harmonia na sociedade, a ausência de questionamentos dúvidas e conflitos, a supressão de desejos e ansiedades por meio químico para preservar a ordem também estão previstos para um futuro sombrio, com a liberdade de escolhas sempre restrita. 

E há, também, outras “profecias” em Admirável Mundo Novo, que não existiam em sua época, mas foram visualizadas por Huxley em seu futuro sombrio. 

Reprodução humana por meio de fertilização in vitro

Na obra, só existem bebês gerados artificialmente. Afinal, o sexo serve apenas para gerar prazer entre os habitantes. As crianças são geradas em um laboratório de fecundação, o Centro de Incubação e Condicionamento. Lá, óvulos e espermatozóides são tratados cuidadosamente de modo que a fecundação aconteça com sucesso. 

Vale lembrar que o livro foi escrito em 1931 e o primeiro bebê de proveta nasceu em 1978. 

Manipulação genética

A sociedade criada por Huxley fazia manipulações genéticas para que os bebês nascessem com características determinadas de acordo com a casta à qual pertenciam. Assim, a hereditariedade era selecionada a partir da escolha de homens e mulheres padronizados.

Atualmente, é possível ler sobre muitos debates envolvendo a ética da manipulação genética, já que a sua possibilidade vem se tornando uma realidade com embriões humanos geneticamente modificados, com estudos para que genes defeituosos sejam consertados e os bebês nasçam livres de doenças.

Programação Neurolinguística

Na sociedade criada em Admirável Mundo Novo, há um treinamento para condicionar os pensamentos dos habitantes, de acordo com suas castas. 

Cada um tinha determinada maneira de agir. Com as evidentes diferenças existentes, não há como não pensar na “profecia” de Huxley ao futuro desenvolvimento da Programação Neurolinguística (ou PNL), cujos estudos tiveram início na década de 1970 e segundo a qual existem padrões de comportamento e linguagem usados pelas pessoas em situações específicas. 

Cinemas 4D

O “cinema sensível” é mostrado na narrativa como fonte de lazer para os personagens. Nele, os habitantes experimentam sensações reproduzidas nas telas por meio dos próprios sentidos em uma experiência interativa, enquanto assistem seus filmes.

Essa tecnologia recente pode facilmente ser comparada ao chamado cinema 4D, cada vez mais popularizado nas telonas mundo afora. 

Neles, há experiências imersivas e interativas do público, algo como uma simulação do que se passa nas telonas, saltando para a realidade. Uma evolução do cinema 3D. 

Lembre-se que Admirável Mundo Novo beira os 90 anos de publicação.

Taxicóptero

Os personagens de Admirável Mundo Novo fazem viagens cotidianas por meio de taxicópteros, um sistema muito semelhante a serviços como os prestados pelos aplicativos de transporte individual e corrida compartilhada.

Psicotrópicos

Um dos pontos principais desta sociedade distópica é o uso do comprimido Soma na condição de perpetuador da felicidade, deixando a população permanentemente alegre e relaxada. Com o passar do tempo, as pessoas passam a ter problemas para lidar com as emoções, como a tristeza e angústia, que volta e meia nos afligem naturalmente. 

Toda e qualquer semelhança com o uso de ansiolíticos e antidepressivos não é mera coincidência. Desde os anos 1980, a popularização do Prozac, apelidado na época como a “pílula da felicidade”, fez com que a população em geral tivesse mais conhecimento e acesso aos chamados psicotrópicos, lidando com as angústias com o auxílio de remédios. 

Nos últimos anos, o acesso a outros medicamentos e a popularização dos serviços de Psiquiatria fez com que mais pessoas tivessem conhecimento de outras medicações, tais como o famoso Rivotril. Há quem veja nossa sociedade como hipermedicada e incapaz de lidar com problemas de ordem emocional.

Estaríamos próximos de um Admirável Mundo Novo ou já o ultrapassamos e sequer percebemos?

Regresso ao Admirável Mundo Novo

Quase 30 anos depois do lançamento de Admirável Mundo Novo, Huxley lançou Regresso ao Admirável Mundo Novo. Este é um trabalho de não ficção com o intuito de tratar sobre o quão próximo da distopia o mundo havia chegado.

Sua conclusão foi de que o mundo caminhava a passos largos para se tornar a sociedade imaginada nos anos 1930, com uma velocidade maior que a imaginada. 

Dentre as causas estipuladas por Huxley, estão a superpopulação e os meios de controle social. O autor propõe ações para impedir que as democracias se convertessem no estado totalitário da obra. E finaliza sua carreira literária publicando A Ilha, em que propõe uma utopia que vai de encontro ao seu livro mais conhecido. 

Notas finais 

Antes de embarcar na leitura de Admirável Mundo Novo, o leitor deve estar atento e preparado para se deparar com uma obra que pode ser tanto uma visão pessimista do futuro quanto um espelho de nossa sociedade. 

Aldous Huxley pode ter exagerado aqui e ali, mas não errou ao apontar na padronização comportamental causada pela industrialização do mundo e dos comportamentos como algo danoso às democracias. 

Disfarçado de ordem, o totalitarismo retratado na obra faz classificações entre seres humanos, divide-os em classes predeterminadas desde o nascimento e não permite que haja diferenças, tão naturais em nossa espécie. 

Huxley foi certeiro ao apontar a industrialização da felicidade por meio de remédios como algo que nos paralisaria, como já acontece em tempos de tantas angústias e dores, ainda que menos sofisticadas quanto as de sua obra-prima. 

Os que pensam em uma sociedade melhor devem usar Admirável Mundo Novo como bibliografia obrigatória para entender em que aspectos governantes mal-intencionados repetem padrões de comportamento nocivos à coletividade. 

Por mais assustadora que pareça, a obra é uma alerta aos caminhos tomados pela humanidade. E se há tanto tempo o seu autor disse temer pela velocidade com a qual vamos nos assemelhando ao seu livro, passou da hora de mudar comportamentos coletivos para um melhor convívio de nossa espécie. 

Dica do 12’

Outra distopia que diz muito sobre os dias presentes e o controle da população por meio de poderes autoritários é 1984, escrita por George Orwell. Vale a pena ler este microbook também!

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