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A máquina do ódio

A máquina do ódio Resumo
Sociedade & Política

Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 978-85-3593-362-8

Também disponível em audiobook

Resumo

Fake news nas eleições

Uma verdadeira bomba saiu na capa do maior jornal do país, a Folha de São Paulo, em 18 de outubro de 2018. Faltavam 10 dias para o segundo turno das eleições presidenciais mais dramáticas desde a redemocratização. 

A reportagem assinada por Patrícia Campos Mello vinha com o título: “Empresários bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp”. Segundo a apuração feita pela repórter, empresas compraram pacotes de disparos em massa de mensagens para difamar o candidato Fernando Haddad no WhatsApp, com a expectativa de uma grande operação na semana anterior ao segundo turno. 

A prática é considerada ilegal, já que se configura como doação de campanha por corporações, atitude proibida pela legislação eleitoral brasileira. Segundo a reportagem, cada contrato para o disparo das mensagens chegava a custar até 12 milhões de reais e havia nomes conhecidos, como o da Havan, entre os principais atuantes na campanha. 

O disparo em massa usava a base de usuários de Jair Bolsonaro, candidato pelo PSL, ou listas de contatos de agências de estratégia digital para angariar mais eleitores ao candidato de extrema-direita. Essa é outra prática eleitoral ilegal, visto que a legislação brasileira proíbe a compra de bases de dados de terceiros. 

O preço pago por mensagem enviada aos usuários da base de contatos do candidato variava entre 8 e 12 centavos. Para a mensagem chegar a pessoas anônimas, mas cujo número as agências de estratégia digital tivessem em seu portfólio, o custo variava de 30 a 40 centavos. 

Evidentemente, as empresas envolvidas no escândalo negaram qualquer envolvimento. Patrícia ainda não sabia a proporção que a bombástica reportagem causaria não só na política nacional, mas também em sua vida particular. 

Por trás das engrenagens

A reportagem publicada às vésperas da eleição presidencial de 2018 expunha como o cenário de desinformação virtual influenciou diretamente o voto do brasileiro. Como previsto, os perfis de Patrícia nas redes sociais foram inundados de ameaças, xingamentos e difamação. Mas o pior ainda estaria por vir. 

A jornalista se aprofundou ainda mais no tema e continuou publicando outras matérias sobre as jornadas desgastantes dos funcionários incumbidos do disparo em massa das mensagens. 

Havia quem dormisse na escada, no sofá ou no hall dos locais em que o trabalho sujo era feito. Depois de um breve descanso, os envolvidos voltavam a realizar mais um disparo de mensagens, habilitando números de celular dispostos em caixas e mais caixas cheias de chips, já que o WhatsApp bloqueia números que enviam grandes volumes de mensagens. 

Esses chips eram habilitados por meio de listas com até 10 mil nomes e CPFs usados para habilitar novas linhas. A maioria das vítimas da venda de dados pessoais eram idosos, que não tinham a menor ideia do que estava acontecendo. 

Um ex-funcionário da agência de marketing Yacows afirmou a Patrícia que os disparos em massa eram 99% voltados a políticos e 1% serviam a propagandas para lojas de cosméticos. Também havia contas automatizadas voltadas a inflar a audiência de conteúdos postados em redes sociais. São os conhecidos bots, cujas contas seguem umas às outras para dar a falsa impressão de apoio ou repúdio a temas polêmicos do momento.  

Por trás das engrenagens do esquema de campanha difamatória, hoje conhecido como o “gabinete de ódio”, uma estrutura gigantesca manipulava a opinião pública. 

A triste cena na CPMI

Quando praticado de maneira correta, criteriosa e isenta, o jornalismo pode causar grandes transformações na sociedade. E a reportagem de Patrícia Campos Mello foi fundamental para a criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, a CPMI das fake news.

Lá, diante de inúmeros deputados, senadores, imprensa e um vasto público em todo o Brasil, ocorreu uma das cenas mais estarrecedoras da carreira de Patrícia. 

Hans River do Rio Nascimento, ex-funcionário da Yacows, prestou um depoimento falso. Ele foi uma das fontes da jornalista na apuração de sua reportagem. 

Diante do Congresso, ele a insultou, dizendo que Patrícia tentou obter mais informações para sua matéria em troca de sexo. Seus colegas de redação a contataram para saber se ela estava acompanhando o depoimento e, ao chegar à Folha, a jornalista chorou copiosamente, já que em seu celular pipocavam mensagens para saber do ocorrido e prestar solidariedade. 

Deputados como Eduardo Bolsonaro, filho do atual presidente, tomaram a fala de Hans River como verdade, tentando desmoralizar a jornalista. No mesmo dia, a Folha de São Paulo divulgou cópias de todas as conversas entre Patrícia e sua fonte, deixando claro como ele tentou um encontro e foi logo cortado pela experiente profissional. 

Ainda assim, a divulgação de memes com a imagem de Patrícia colocada como prostituta e outras ofensas chegou também ao conhecimento de seus familiares. Em toda a imprensa, inúmeros profissionais prestaram solidariedade à colega. Mas foram dias difíceis, em que, se pudesse, ela se esconderia e nem sairia de casa para evitar maiores constrangimentos. 

A imprensa como inimiga

Passamos da metade deste microbook e você pode estar se perguntando por qual motivo uma testemunha mentiria em um depoimento dado a uma CPMI, visto que um falso depoimento é um crime passível de processo na justiça. 

É bom entender que, muitas vezes, fontes se aproximam de jornalistas e vazam informações com objetivos de obter vantagens com a divulgação de segredos ou mesmo se vingar por algum fato ocorrido no passado. No caso de Hans, a forma como ele havia sido demitido da empresa era nebulosa. 

E em tempos de desinformação generalizada, a imprensa é tida como a inimiga número um de governos adeptos da pós-verdade e das fake news sistematizadas, como ocorreu com Donald Trump nos Estados Unidos e com Jair Bolsonaro no Brasil. 

Hans River agiu como a peça de uma engrenagem disposta a destruir uma reputação com os piores fins políticos. Mas isso não seria o suficiente para deter o trabalho do jornalismo profissional, mesmo em tempos difíceis. 

O ódio como armadilha

Em tempos de disseminação de informações falsas por meio de aplicativos como o WhatsApp, a internet pode mais alienar do que aproximar. A máquina do ódio é alimentada permanentemente por ressentimento, medo e vingança. 

São esses sentimentos fortes que fazem o populismo autoritário chegar ao poder. E até mesmo os jornalistas caem nessa armadilha, reforçando a estrutura de um forte aparato destinado a ameaçar adversários, atraindo a atenção pública com falsas polêmicas. 

Para Patrícia, um erro primordial da imprensa foi ter usado a prática da falsa equivalência, colocando discursos que negam a realidade como se fosse o outro lado, um princípio fundamental para apuração de matérias jornalísticas. 

Outro equívoco que alimentou essa máquina foi validar falas ofensivas ditas por autoridades populistas como controversas e polêmicas. Ainda que não seja correto deixar de noticiar a fala de políticos com mandato, é preciso sempre contextualizar ao público. 

A máquina ainda funciona

O que mudou depois da publicação da primeira reportagem sobre a máquina do ódio, ainda em 2018? Ela se aprimorou, foi entendida por mais gente, mas segue atuando. 

Em entrevista à autora, o escritor italiano Giuliano Da Empoli, autor do best-seller Os engenheiros do caos, foi categórico: “políticos de centro correm o risco de entrar em extinção se insistirem em mensagens mornas, que não despertam emoção nos eleitores”. Porque o ódio mexe com as emoções e os populistas autoritários sabem como manipulá-lo. Nisso, eleitores repetem discursos sem sentido, mas confortáveis.  

É importante deixar claro que a máquina do ódio é operada por pessoas, comandada por gente de carne e osso. Não se trata apenas de mero experimento destinado a ser completamente automatizado. Seu clique, sua curtida, seu compartilhamento podem ser o alimento dessa rede gigantesca, perigosa e manipuladora de massas. 

Em tempos de cada vez maior dependência das redes sociais, vale a pena ter mais critério no conteúdo consumido, ler notícias de fontes confiáveis da imprensa profissional e evitar compartilhar qualquer absurdo recebido aí, em seu WhatsApp. 

Caso contrário, o resultado pode ser muito pior que um mero post infeliz. 

Notas finais 

Quando a tecnologia e a hipercomunicação por redes sociais é usada em prol do assassinato de reputações, o estrago pode ser grande. Patrícia Campos Mello viveu isso na pele ao fazer seu trabalho de apuração jornalística. Mais uma mulher determinada a enfrentar os poderosos, ela viu o quanto o ódio pode mover multidões de pessoas desconhecidas e mal intencionadas, com o intuito de gerar intimidação e calar quem descobre os podres das engrenagens do poder.

Mas quem tem coragem não recua, mesmo com medo. E Patrícia Campos Mello dá uma aula de resiliência, determinação e profissionalismo. 

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Quem escreveu o livro?

É repórter especial e colunista da Folha de São Paulo. Vencedora do Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa e do Premio Rei da Es... (Leia mais)