1984

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1984 é um dos livros mais influentes publicados no século XX. Foi lançado poucos meses antes da morte de George Orwell, autor de outros clássicos contemporâneos, tais como Revolução dos Bichos e Na pior em Paris e Londres. 

Nesta distopia futurista, Orwell cria uma sociedade na qual um Estado totalitário tem todo o controle sobre a vida dos cidadãos, monitorando seus passos por meio de diversos mecanismos de vigilância. O termo “Grande Irmão”, que batiza um dos reality shows mais famosos do mundo, é referência direta a um desses mecanismos, por exemplo.

É possível vislumbrar muitas “profecias” orwellianas neste fundamental 1984. Por sinal, o próprio termo “orwelliano” remete a distopias, sociedades futuristas e com viés pessimista, controle repressivo do Estado sobre os cidadãos. Não é bom sinal.

Nos próximos 12 minutos, vamos entender um pouco mais desse livro fundamental da literatura contemporânea e no quanto ele influenciou a cultura, a literatura e até mesmo a política contemporânea. 

A sinopse

Na trama, o protagonista Winston vive na sociedade controlada por um Estado completamente autoritário. Ali, todos os atos são feitos de forma coletiva, ainda que cada um viva sozinho.

Todos são vigiados pelo Grande Irmão, que nada mais é do que a representação literária de um poder cínico e cruel, capaz de observar a cada um dos personagens por todo o tempo. Esse nome nos remete aos reality shows campeões de audiência, e representa a total vigilância a todos os passos dados dentro de um ambiente confinado. Familiar, não? 

O Partido domina e controla Oceânia, lugar no qual Winston habita, e não visa à riqueza, luxo, vida longa ou felicidade. O Partido só quer o poder pelo poder, conforme explicado por O’Brien, um dos dirigentes do Partido, a Winston. Só o poder puro interessa a eles. 

A partir de determinado momento, 1984 estará centrado na luta de Winston contra este autoritarismo disfarçado de proteção aos seus habitantes. 

Dentre algumas ideias da obra que a tornaram um sucesso de público, podemos destacar ingredientes como o sexo de maneira libertadora, horrores letais e a facilidade com que podem ser feitas analogias a governos com viés autoritário.

Também podemos ressaltar o idioma usado: a Novafala é uma imposição do Partido para renomear as coisas e manipular instituições, história, a população e a realidade em geral. 

Os ministérios também são contraditórios: o ministério da defesa é dedicado à guerra e o ministério do amor é o lugar no qual Winston é submetido a angustiantes torturas por seu amigo O’Brien ao ser descoberto como um conspirador contra o Partido. 

1984 é uma crítica ácida, angustiante e alarmante contra toda forma de autoritarismo. 

O simbolismo do título

Inicialmente, o título escolhido por Orwell para sua obra distópica era The Last Man in Europe, em português: O Último Homem da Europa. 

Há cartas em sua biografia que indicam que a hesitação do autor por este nome ou pelo 1984 foi sanada por seu editor Frederic Warburg, por entender que o nome adotado era mais vendável, colocando já na capa a impressão de ter ali uma obra visualizando um futuro possível. 

Orwell ainda cogitou intitular o livro como 1980 e 1982, mas por uma diatribe do destino, acabou intitulando com o número inverso do que foi publicado, já que o livro saiu em 1948. 

Mas, há quem acredite que tal escolha foi proposital, para indicar o quanto tais fatos poderiam não estar muito distantes de acontecer.

Equívocos e referências

George Orwell foi um homem notadamente de esquerda e muito se fala sobre uma possível referência em seu 1984 com a decepção que teve com o socialismo soviético. 

Na verdade, o próprio autor já relatou o quanto sua distopia clássica é uma crítica ácida a toda forma de autoritarismo, seja ela de esquerda ou de direita.

Na época do lançamento do livro, tal equívoco quanto a uma única referência se deu ao contexto geopolítico de pós-Segunda Guerra Mundial, primeiros anos da Guerra Fria, que polarizou União Soviética e Estados Unidos.

Ainda que o stalinismo se encaixe nitidamente neste 1984 e também no Revolução dos Bichos, ele não é o único regime criticado nas obras orwellianas. 

Personagens principais

Os principais personagens de 1984 se alternam entre cidadão comuns, massacrados por um sistema autoritário, mas que diz cuidar deles, e agentes do governo que se beneficiam desse mesmo sistema, perseguindo todos aqueles que se opõem à ordem vigente. 

  • Winston Smith: é o protagonista do romance. Um homem comum, com rotina entediante, mas que ao racionalizar o sistema autoritário em que vive, será um de seus principais oponentes, sendo perseguido e tendo a vida virada de cabeça para baixo por isso;
  • Júlia: namorada de Winston, é militante do Partido, mas vive secretamente em contradição a todas as suas doutrinas. Vai incentivar Winston a se revoltar contra o Partido, no que chamam de rebelde da cintura para baixo, pois o sexo praticado com o protagonista também se configura como ato de subversão;
  • O'Brien: aparentemente, é um amigo de Winston nas primeiras páginas. De início, incentiva Winston e Júlia, mas na verdade é um agente do governo disfarçado de membro da resistência. Será um dos responsáveis por torturá-los, pode ser considerado o principal vilão de 1984;
  • Grande Irmão: ninguém nunca o viu, mas ele vê tudo. A frase “O Grande Irmão está de olho em você” é a principal identificação do quanto essa representação simbólica do Partido como um todo, vigiando a todos de maneira ininterrupta, deixa a todos amedrontados. É o autocrata de olho em tudo que acontece. Nele, muitos veem uma analogia clara a Stalin. Há referências a ele como ainda vivo, ou apenas como uma maneira de controlar a população, criado como meio de propaganda do regime;
  • Emmanuel Goldstein: foi membro do topo do Partido, agora é um opositor. É tido, para muitos, como analogia a Leon Trotsky. Tal qual o Grande Irmão, é muito mais simbólico do que personificado, como fim de propaganda para a resistência. 

Ministérios

Cada um dos ministérios é encarregado de manter a harmonia e a ideologia do Partido em determinada área. São suas principais representações e tomam conta da sociedade como um todo. Seus nomes indicam o inverso de sua conduta, em mais uma característica sombria da distopia orwelliana.

  • Ministério da Verdade: falsifica documentos e livros que fazem referência ao passado, reescrevendo a História de tempos em tempos. Nesses documentos e livros, o Partido nunca errou, sempre esteve tomando as atitudes corretas e tal apagamento faz com que a população não se lembre dos fatos como aconteceram;
  • Ministério da Paz: ironicamente, é o ministério responsável pelas guerras. É importante deixar claro que os inimigos da Oceânia são ora a Lestásia, ora a Eurásia. Este ministério mantém a população em permanente estado de manutenção de ânimo pró-guerra, pois isso faz com que o Partido domine a sociedade, com a criação de inimigos invisíveis;
  • Ministério da Riqueza: maneja a fome e a economia. Divulga boletins distorcidos acerca da produção, de maneira a fazer com que a população acredite que tudo vai bem. Ainda assim, a prole, camada mais baixa da população, não vê melhoria alguma;
  • Ministério do Amor: espiona e controla a população, lidando com a resistência ao Partido. O Ministério do Amor não se preocupa em eliminar a população, mas em convertê-la para que todos virem entusiastas do Partido. 

Novafala

A Novafala é o novo idioma imposto pelo partido, que reduz os termos, como antônimos e sinônimos. Tal linguagem suprime pensamentos tidos como errados pelo Partido e é eficiente como ferramenta de controle da população. 

Dois dos principais termos usados pela Novafala são:

  • Duplipensar: é o poder de pensar duas coisas antagônicas simultaneamente, até se convencer de que apenas uma delas é a correta. Notadamente, a escolhida será a mais adequada a manter o status quo;
  • Crimepensar: pensamentos ilegais, que vão contra as ideias do Partido.

Em geral, o vocabulário da Novafala são compostos por prefixos que mudam o sentido de uma palavra, tornando-a contraditória, alterando seu sentido, gerando maior confusão mental e manipulação pelo Partido na população do romance. 

As classes sociais em 1984

Podemos dividir as classes sociais de 1984 em três, segundo essa estrutura: 

  • Classe Alta: composta pelo Grande Irmão e pelos membros mais altos do Partido, que controlam a população em geral;
  • Classe Média: temos aqui os membros do Partido que executam os trabalhos externos e se infiltram entre os movimentos de resistência;
  • Classe Baixa: aqui está cerca de 85% da população. São os proles, o proletariado, os trabalhadores comuns manipulados e controlados o tempo todo. 

O mundo de 1984

No romance, há apenas três grandes potências, que dividem o mundo conforme abaixo:

  • Oceânia: é onde vive Winston. O maior dos impérios do mundo, governa o que  entendemos como Oceania, América, Reino Unido, Irlanda e grande parte do sul da África.
  • Eurásia: governa toda a Europa, com exceção de Reino Unido, Islândia e Irlanda, abarcados na Oceânia. Também domina boa parte da Rússia e a Ásia;
  • Lestásia: o menor dos impérios, governa países orientais

Os três grandes impérios estão em permanente estado de guerra, alternando-se por todo o tempo, conforme dito anteriormente. 

Principais frases 

“Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força”

“Se você quer formar uma imagem do futuro, imagine uma bota pisoteando um rosto humano — para sempre.”

“Se há esperança, ela pertence aos proletas.”

“Liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro. Se isso for admitido, tudo o mais é decorrência.”

“Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado.”

“Nós somos os mortos. Nossa única vida genuína repousa no futuro.”

“Porque se lazer e segurança fossem desfrutados por todos igualmente, a grande massa de seres humanos que costuma ser embrutecida pela pobreza se alfabetizaria e aprenderia a pensar por si; e depois que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde essa massa se daria conta de que a minoria privilegiada não tinha função nenhuma e acabaria com ela.”

“Em geral, quanto maior a compreensão, maior o engodo; quanto maior a inteligência, menor a saúde mental.”

“O fato de ser uma minoria, mesmo uma minoria de um, não significava que você fosse louco. Havia verdade e havia inverdade, e se você se agarrasse à verdade, mesmo que o mundo inteiro o contradissesse, não estaria louco.”

“Poder é infligir dor e humilhação. Poder é estraçalhar a mente humana e depois juntar outra vez os pedaços, dando-lhes a forma que você quiser.”

“Os melhores livros são aqueles que lhe dizem o que você já sabe.”

“O Grande Irmão está de olho em você.”

Notas finais 

A incômoda sensação de estarmos sendo vigiados por todo o tempo é rotina em uma sociedade cada vez mais dependente de tecnologias como smartphones, câmeras de vigilância e sistemas biométricos nos identificando em diversos lugares, sejam eles públicos ou privados.

Ao terminar a leitura de 1984, temos a impressão de que George Orwell foi um visionário, que há mais de 70 anos profetizou uma sociedade em que não é possível dar um passo sem ser vigiado por diversas autoridades, fazendo com que caminhemos em uma linha tênue para o caso de governantes autoritários que resolvam nos perseguir.

Se pararmos para pensar, é possível que em sua época fosse estranho convencer alguém que, nas décadas seguintes, pessoas se confinariam em casas filmadas para todo um país a fim de ganhar um prêmio milionário em dinheiro. 

Também seria esquisito dizer a Orwell que em nosso tempo podemos monitorar onde outras pessoas estão, por sistemas eletrônicos em pequenos equipamentos que levamos para todos os cantos. 

1984 é um retrato de um futuro possível, de um presente plausível, evidenciando exageros dos quais devemos nos cuidar, já que o autoritarismo sempre está à espreita e à espera do uso do que houver de mais tecnológicos para se perpetuar no poder. 

Distopias como esta nos jogam na cara o quanto o terror pode virar a esquina e nos pegar a qualquer momento. Ler e compreender a história do mundo é fundamental para evitá-lo!

Dica do 12’

Outra distopia que diz muito sobre os dias presentes e o controle da população por meio de poderes autoritários é Admirável Mundo Novo, escrita por Aldous Huxley. Vale a pena ler este microbook também!

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