10% Mais Feliz

Dan Harris Também disponível em audiobook: Baixe nosso app para ouvir gratuitamente.

Neste microbook, Dan Harris, jornalista da ABC, emissora de TV norte-americana, mostra como, a partir do episódio no qual, em uma transmissão ao vivo, sofreu um grave ataque de pânico, acabou embarcando numa inesperada odisseia através do mundo da espiritualidade.

Se interessou? Então, venha com o 12’ acompanhar a jornada do autor e sua descoberta da meditação como uma maneira altamente eficiente para tranquilizar suas emoções, serenar os seus pensamentos e, assim, ser uma melhor pessoa – sem, para isso, desperdiçar a energia necessária para realizar seus sonhos. Boa leitura!

Fome de ar

De acordo com os dados de audiência do instituto Nielsen, mais de 5 milhões de pessoas viram Harris enlouquecer. Durante sua participação ao vivo, logo após fazer referência à “produção de câncer”, seu rosto ficou sem cor e ele começou a se contorcer em tiques.

O colapso ao vivo na TV foi consequência direta de uma longa fase agindo de forma impulsiva e automática, num período em que só pensava em progredir na carreira e viver aventuras.

A rede americana ABC exigia de seus funcionários um alto padrão de excelência. Tal exigência, no entanto, não tinha nada de arbitrário. Seu chefe, o produtor executivo Peter Jennings, amava seu trabalho, honrava a confiança do público e era um questionador nato.

Por isso esperava que seus repórteres agissem da mesma forma. Na primeira e única vez que ele devolveu um texto sem uma só marca de sua caneta, Harris guardou o papel de lembrança.

Embora eu mal pudesse acreditar em sua ascensão na ABC News, nosso autor não desperdiçaria a oportunidade. Em pouco tempo superou a fase do “puxa, como me deixaram passar pela porta de entrada?”

O passo seguinte foi começar a definir a estratégia para enfrentar aquele ambiente feroz, em que os vários programas, âncoras e executivos competiam entre si o tempo inteiro.

Mergulhou de cabeça no que acabaria se tornando uma aventura de vários anos, durante a qual conheceu lugares e coisas que jamais poderia ter imaginado quando era apenas um repórter iniciante.

Harris flutuava em um mar de adrenalina, inebriado por estar na TV e cego para as possíveis consequências psicológicas disso.

Em um ambiente de trabalho cheio de estresse e intrigas, frequentemente, ele perdia o controle e, assim, a raiva aflorava. Na verdade, esse sempre foi um traço importante em seu caráter. Quando começou sua carreira em Boston, certa vez atirou folhas de papel de sua bancada, pois se irritou com problemas técnicos na transmissão.

Após esse fato, foi informado pelo próprio chefe do fato de que seus colegas de trabalho não o apreciavam. Harris, então, tentou mudar sua postura para não ser despedido.

Todavia, era preciso melhorar ainda mais, deixando de ser tão grosseiro com seus colaboradores. De fato, foi um banho de água fria para uma pessoa que julgava conhecer a si mesmo.

O psiquiatra de Harris tentava encontrar a origem desses problemas emocionais: sugeriu que os horrores testemunhados, quando ainda era correspondente, deixaram marcas indeléveis em seu subconsciente.

Além disso, talvez ele estivesse sentindo a ausência da adrenalina presente em seu cotidiano no Iraque, com a qual Harris conviveu por longos anos quando cobria os conflitos armados do Oriente Médio.

Seja como for, sentindo-se perdido, Harris se converteu em uma vítima fácil para o vício em drogas, especialmente, a cocaína.

À medida em que se viciava ainda mais, passou a sofrer com fortes dores no tórax. Porém, todos os viciados encontram, cedo ou tarde, o “fundo do poço”. O de Harris teve lugar no estúdio da ABC News.

Desigrejado

Após as eleições americanas de 2004, cobrir a área de religião, atividade para a qual foi convidado pela direção da emissora, não parecia tão ruim. Os evangélicos haviam demonstrado um impressionante poder no jogo eleitoral, ajudando George W. Bush a se manter na Casa Branca.

Questões relacionadas à fé pareciam estar no centro de tudo, desde as disputas culturais internas até as guerras internacionais que havia testemunhado como repórter.

Após um longo tempo atuando na área, seu produtor começou a se cansar da abordagem adotada. Wonbo Woo era jovem e não parecia a escolha mais óbvia para cobrir essa editoria: além de não ter religião, ele era gay.

Wonbo se incomodava com a tendência de Harris a explorar conflitos e caricaturas, se alimentando das criaturas e das situações mais bizarras que conseguisse encontrar. Ele estava farto das guerras culturais; queria mostrar como a fé afetava o dia a dia das pessoas.

Nosso autor não apenas tinha sido injusto com as pessoas de fé, ao tirar conclusões prematuras, generalizadas e mal informadas, como também prestara um desserviço a si mesmo.

Cobrir religião poderia ser muito mais do que uma chance de aparecer mais na televisão. A maioria das pessoas enxerga sua vida inteira pelas lentes da fé. Ele não precisava concordar, mas finalmente poderia entender como isso acontece.

Acima de tudo, tinha a oportunidade de abordar a questão da fé como uma forma de iluminar o debate, e não de jogar mais lenha na fogueira.

Num tempo em que religião se tornou tão polarizada, o jornalismo poderia fazer o público refletir e conhecer mundos em que jamais entraria e, nesse processo, desmistificar, humanizar e esclarecer.

Era para isso que ele havia escolhido essa carreira, afinal – para estar na TV e fazer um trabalho significativo. Nesse período, nenhum contato foi mais significativo do que o iniciado com o Pastor Ted Haggard.

Haggard o ensinou a ver pessoas de fé sob um prisma diferente, e também mostrara algo importante: o valor de um ponto de vista que transcendesse o mundo material.

Claro que Harris não estava abandonando sua ambição – e também não planejava se forçar a acreditar em algo sobre o qual não havia evidências suficientes.

Gênio ou lunático?

Algumas semanas após uma cirurgia para a retirada de um tumor na bochecha, Harris descobriu que seu nome não estava na lista dos jornalistas que cobririam a posse do presidente Barack Obama.

Ele ficou bastante contrariado. Dessa vez foi incapaz de criar qualquer distância crítica dos pensamentos furiosos que ricocheteavam pela sua mente. Mordeu a isca oferecida pelo ego.

Levantou-se empurrando a cadeira para trás e ficou andando enfurecido pela emissora, parando cada executivo para reclamar daquela injustiça. Mas o tiro saiu pela culatra: em vez de conseguir um lugar na cobertura, o que ganhou foi uma reprimenda.

Um de seus chefes o aconselhou a parar de “ficar resmungando pelos cantos”. Foi justamente nessa fase que ele se aproximou do escritor do livro “Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência”, Eckhart Tolle.

Sua maior crítica em relação a Tolle era a falta de conselhos práticos para lidar com situações como essa. Para Harris, seu livro havia feito uma avaliação extraordinária da condição humana, mas sem nenhum plano de ação para combater o ego.

Como podemos viver melhor o Agora? A resposta de Tolle: “sempre diga ‘sim’ ao momento presente.” Como podemos nos libertar da voz dentro da nossa cabeça? O conselho dele: apenas tenha consciência dessa voz.

“Libertar-se do ego não é uma grande façanha, é um trabalho bem pequeno.” Sim, claro. Mas, se fosse tão simples assim, não haveria milhões de pessoas que despertaram para essa verdade andando por aí?

E havia uma questão ainda maior: mesmo que fosse capaz de reconhecer que sua revolta não passava de um monte de pensamentos, o que deveria fazer? Apenas ignorá-los?

Em seus livros, Tolle afirmava que preocupar-se demais era um processo inútil de se projetar medrosamente em direção a um futuro imaginário. “Não há como enfrentar uma situação como essa, porque ela nem existe. É um espectro mental”, ele escreveu.

Mas, embora Harris compreendesse o benefício de estar focado no Agora, o futuro estava vindo. Ele não deveria se preparar? Se não ponderasse o desdobramento de cada problema possível, como sobreviveria numa indústria tão competitiva?

Além disso, teria sido o ego o responsável por algumas das maiores realizações da humanidade? Não foi o trabalho da mente humana que nos deu a vacina contra a pólio, as pinturas de Caravaggio e o iPhone?

Ainda assim, ele sabia que sua mente tagarela não estava trabalhando a favor. Tinha certeza de que ficar analisando as falhas do cabelo ou remoendo problemas profissionais não era um bom uso de seu tempo.

Costumava achar que colocar o dedo na ferida o manteria alerta. Então entendeu que isso, na verdade, deixava-o mais infeliz.

Nosso autor relata que Tolle o forçou a aceitar o fato de que aquilo que sempre pensou ser seu maior trunfo talvez fosse sua maior desvantagem: “eu queria ser bem-sucedido, sim – mas também gostaria de me estressar menos”.

Aquele autor de aparência estranha parecia dizer que era possível ter as duas coisas ao mesmo tempo.

As limitações da psicoterapia

Certa noite, Bianca, esposa de Harris, o entregou dois livros escritos por alguém chamado Dr. Mark Epstein. Ela disse que, após meses ouvindo sobre Eckhart Tolle, finalmente se lembrou de por que aquelas ideias lhe soavam familiares.

Cerca de 10 anos antes, ela havia lido alguns livros de Epstein, que era um psiquiatra e praticante do budismo. E assim, nosso autor passou mais uma noite acordado, envolvido numa leitura reveladora.

O que encontrou naquelas páginas gerou uma enorme satisfação – foi como finalmente alcançar um lugar nas costas que coçava muito. Em pouco tempo as coisas ficaram claras para ele: as ideias de Tolle eram largamente baseadas no budismo.

Ele não havia concluído aquelas coisas sozinho. Na verdade, dois milênios e meio antes dele, Buda diagnosticara de forma brilhante o funcionamento da mente humana.

Estava tudo ali: o conceito da insaciabilidade, a incapacidade de estar presente, o pensamento repetitivo e autorreferencial. “Estamos constantemente murmurando, resmungando, arquitetando ou perguntando coisas a nós mesmos em silêncio”, escreveu Epstein. “Eu gosto disso. Não gosto daquilo. Ela me magoou. Como posso obter aquilo?”

Grande parte de nosso diálogo interior é feito por um protagonista infantil e egoísta que reage às nossas experiências. Nenhum de nós avançou muito além daquela criança de sete anos que vigiava atentamente quem ganhou mais.

Havia também passagens divertidas sobre a tendência humana a se jogar de uma experiência prazerosa em outra, sem nunca atingir a satisfação.

Apesar de ser um repórter de religião, a ideia de Harris sobre o budismo era bastante limitada: Buda vinha de algum lugar da Ásia; era obeso; seus seguidores acreditavam em coisas como carma, renascimento e iluminação.

Epstein deixa claro, no entanto, que você não precisa acreditar em nenhum desses conceitos para obter os benefícios do budismo. O próprio Buda não se apresentava como um deus ou profeta.

Ele dizia às pessoas para não adotarem seus ensinamentos antes de testá-los por si mesmas. Ele nem estava tentando iniciar uma nova religião. Na realidade, a palavra budismo foi inventada por estudiosos ocidentais do século XIX que descobriram e traduziram os textos originais.

A seus olhos, o budismo parecia ser menos uma fé do que uma filosofia. De acordo com Epstein, Buda pode ser considerado o “psicanalista original”. O autor parecia argumentar que praticar o budismo era melhor do que se consultar com um psicoterapeuta.

“A terapia muitas vezes leva à compreensão sem alívio”, escreveu. As limitações da psicoterapia, que Epstein admitiu com sinceridade, foram exatamente o que Harris sentia em sua experiência pessoal.

O poder do pensamento negativo

Harris relata sua ida a um importante evento no hotel Sheraton Towers, em Manhattan. Entretanto, assim que chegou ao local, se arrependeu: estava lotado de gente, a maioria mulheres de meia-idade usando brincos chamativos e echarpes multicoloridas.

Ele não gostava de “hippies”. Apesar de já ter visto coisas muito piores, a diferença era que não estava ali como um jornalista fazendo seu trabalho, mas como um participante que pagou para assistir a três dias de conferência budista.

Ficou enjoado só de pensar nisso. A primeira palestrante foi uma mulher de uns 50 anos chamada Tara Brach. Seu tom de voz era cremoso e enjoativo.

Ela convidou a plateia a fechar os olhos e “confiar na oceanidade, na vastidão, no mistério, na consciência e no amor – para que todos pudessem sentir: não há nada de errado comigo”.

Mas depois Mark entrou para salvar a noite. “Bem, eu vou dar a vocês uma perspectiva um pouco diferente”, disse ele com um olhar maroto, “a de que na verdade há muitas coisas erradas com vocês.”

A plateia começou a rir, e Tara deu um sorriso totalmente sem graça. “As pessoas me procuram achando que precisam amar mais a si mesmas, mas eu as aconselho a fazer justamente o contrário”, disse Mark.

Ele se expressava de forma natural, improvisando, sem truques. Em total contraste com Brach, ele argumentou que precisamos estar em contato com o nosso pior lado. “A atenção plena nos ajuda a examinar o que não gostamos em nós mesmos sem tentar fazer isso desaparecer nem tentar amá-lo.”

Simplesmente estar conscientes do que somos é tremendamente libertador. A ideia de nos debruçarmos sobre aquilo que mais nos incomoda pareceu radical ao nosso autor, porque nosso reflexo geralmente é fugir, fazer compras, comer, usar drogas.

Mas, como dizem os budistas, “o único caminho para fora é através”. Falando isso de forma mais simples: quando uma enorme onda está vindo em sua direção, a melhor maneira de não levar caldo é mergulhar nela.

Esse conceito tinha tudo a ver com o que Harris aprendeu em suas experiências mais dolorosas: quando tentamos esmagar alguma coisa, damos poder a ela. A atenção plena nos aproxima de nossas neuroses, agindo como uma espécie de radar, mapeando nossos microclimas mentais e tornando-os mais aptos a ideias novas.

Esse é o poder do pensamento negativo. Sentado na plateia, ele se sentia orgulhoso de Mark e cada vez mais fascinado pela ideia da contemplação.

Retiro

Nosso autor decide que estava na hora de intensificar seu aprendizado e parte rumo a um retiro budista.

Ao chegar, a primeira dificuldade é se familiarizar com a rotina: os dias começam com um despertar às cinco da manhã, seguido meditação, desjejum, depois uma série de períodos alternados de meditação sentados ou caminhando, interrompida por refeições, descanso e períodos de trabalho, e uma noite de “palestra dharma”.

Uma das coisas que mais o surpreenderam foi que, ao final da última sessão de meditação sentada, todos os participantes deveriam fazer um cântico para enviar “bondade amorosa” a uma série de “criaturas”, incluindo nossos pais, mestres e “divindades guardiãs”.

O objetivo era desejar que todos vivam o Fim do Sofrimento.

Outro grande aprendizado foi possibilitado pela meditação “metta”, na qual é preciso estar fisicamente confortável para gerar boas vibrações, deitando-se no chão.

Harris sentiu a maior vontade de usar esse tempo para descansar, mas havia prometido a si mesmo que iria se esforçar ao máximo durante esse retiro. Então deitou e se preparou para emitir amor.

Nessa atividade, deve-se gerar uma imagem mental vívida de nós mesmos e então repetir quatro frases:

  1. que você possa ser feliz;
  2. que você possa estar seguro e protegido de qualquer mal;
  3. que você seja forte e saudável;
  4. que você viva com tranquilidade.

No retiro, sem nada animado prestes a acontecer, nenhum lugar para ir, nada para fazer, ele se viu forçado a confrontar a “ferida da existência” de frente.

Trata-se de olhar para o abismo e perceber que muito daquilo que fazemos na vida tem o objetivo de evitar a dor ou de buscar o prazer.

O que Buda de descobriu foi algo verdadeiramente transformador: se abrirmos mão de tudo isso, podemos aprender a ser felizes antes que qualquer coisa aconteça. Essa felicidade é gerada por nós mesmos, sem depender de forças externas; é o oposto de “sofrimento”.

10% mais feliz

Embora sua comunicação com a chefia não fosse lá muito boa, nosso autor conseguiu ter uma epifania sobre como falar sobre meditação com eles sem dar a impressão de que era um doido.

O fato de ter ficado desaparecido e incomunicável por dez dias, no retiro, naturalmente suscitou várias perguntas, o que acabou revelando-o como praticante de meditação e forçando-o discutir o assunto com um monte de gente.

No início, essas conversas não deram muito certo. Todos estavam pensando que ele tinha se tornado uma daquelas pessoas que são normais, mas que, ao chegar à meia idade, adotam algum tipo de espiritualidade estranha.

Sempre que perguntavam sobre meditação, Harris se fechava e olhava envergonhado, ou já ia dando uma palestra tediosa e enfática sobre os benefícios da plena atenção, sobre como isso era um superpoder, como não era tão esquisito quanto as pessoas pensavam nem envolvia coisas místicas.

Podia ver o terror nos olhos dos interlocutores, que sempre procuravam um jeito de escapar do assunto. Havia algumas coisas que ele tentava atingir durante essas interações.

Acima de tudo, defendia sua reputação, querendo mostrar às pessoas que não tinha ficado maluco. Mas havia algo mais. Quanto mais meditava, mais olhava em volta e percebia que todos temos mente de macaco – cada um com suas próprias paranoias.

Depois das experiências no retiro, se sentiu impelido a compartilhar o aprendizado. Só não sabia ainda como fazer isso de forma eficaz. Após várias semanas sem nenhum sucesso, Harris teve uma conversa fatídica a amiga Kris, que era sua mentora desde que chegou à ABC.

Eles tinham um relacionamento em que podiam falar sobre qualquer coisa. Um dia, estavam conversando e o assunto veio à tona. Ela lançou um olhar curioso e perguntou:

“O que deu em você com esse negócio de meditação?”

Para evitar outra resposta longa e malsucedida, ele apenas disse: “faço meditação porque isso me deixa 10% mais feliz.”

A expressão no rosto dela mudou instantaneamente. Onde antes havia um indício de escárnio, agora surgia um genuíno interesse. “É mesmo?”, disse ela, “bacana, gostei dessa descrição”.

Pronto! Tinha achado meu slogan: 10% mais feliz. Ele tinha o duplo benefício de ser uma boa frase de efeito e a pura verdade. Era a resposta perfeita, na verdade – oferecendo um contraponto às promessas irreais dos gurus de autoajuda e ao mesmo tempo um retorno atrativo para o investimento.

O novo slogan também combinava perfeitamente com a nova tendência do telejornalismo: os repórteres não deviam vender suas matérias como a coisa mais maravilhosa do mundo, porque depois o produto podia acabar decepcionando a chefia.

Se isso acontecesse, eles nunca mais voltariam a aparecer no ar. Sempre é melhor criar menos expectativa e surpreender. Quando começou a testar essa frase com outras pessoas, ninguém foi convertido de imediato, mas, pelo menos, nosso autor conseguiu evitar que elas saíssem correndo.

A nova cafeína

Em suas viagens para seminários budistas, Harris ouviu falar de várias pesquisas científicas sobre meditação. Pareciam promissoras, então resolveu investigá-las. O que descobriu o deixou maravilhado.

A meditação, que já fora parte da contracultura, agora era respaldada por estudos sérios. Havia milhares deles, sugerindo uma lista quase inacreditável de benefícios à saúde, incluindo melhora nos sintomas de:

  • Depressão grave;
  • Vício em drogas;
  • Compulsão alimentar;
  • Fumo;
  • Estresse em pacientes de câncer;
  • Solidão em pessoas idosas;
  • Transtorno de deficit de atenção;
  • Asma;
  • Psoríase;
  • Síndrome do intestino irritável.

Estudos também indicavam que a meditação reduz os níveis dos hormônios do estresse, reforça o sistema imunológico, aumenta o foco e a concentração e melhora o desempenho de estudantes.

Aparentemente, a meditação só não era capaz de fazer as pessoas se comunicarem com animais e entortarem colheres com o poder da mente. Essa explosão de pesquisas começou com Jon Kabat-Zinn, microbiólogo formado no MIT, que alegou ter tido uma epifania – “uma visão”, como dizia – durante um retiro em 1979.

Essa visão era a de que ele poderia levar a meditação para um público muito maior se a despisse da metafísica budista.

Kabat-Zinn criou um método de oito semanas chamado Redução do Estresse Baseada na Atenção Plena, ou MBSR, que ensinava meditação secular para milhares de pessoas nos Estados Unidos e no resto do mundo. Ter um protocolo de meditação simples tornou mais fácil testar os efeitos dessa prática nos pacientes.

As coisas tomaram um rumo de ficção científica quando os pesquisadores começaram a examinar os cérebros de meditadores usando ressonância magnética.

Um estudo de Harvard descobriu que as pessoas que participavam do curso de oito semanas de Kabat-Zinn tinham mais massa cinzenta nas áreas do cérebro associadas à autoconsciência e à compaixão, enquanto as áreas associadas ao estresse diminuíam.

Esse estudo pareceu confirmar o poder de responder em vez de reagir. As regiões em que a massa cinzenta encolheu eram, em termos evolutivos, as partes mais antigas do cérebro humano, bem acima da coluna espinhal, que guardam nossos instintos mais básicos.

Por outro lado, as áreas que cresciam eram as partes mais novas do cérebro, como o córtex pré-frontal, que evoluiu para nos ajudar a regular nossas urgências primais.

Outro estudo, realizado em Yale, examinou a parte do cérebro conhecida como rede de modo padrão, que é ativada quando ficamos perdidos em nossos pensamentos – ruminando sobre o passado, projetando o futuro ou pensando obsessivamente em nós mesmos.

Os pesquisadores descobriram que os meditadores desativavam essa região não só enquanto praticavam como também fora da prática. Ou seja, a meditação criava uma nova rede de modo padrão no cérebro.

Embora os cientistas enfatizassem que essas pesquisas ainda estavam em estágios embrionários, os estudos ajudaram a demolir um dogma neurocientífico que havia prevalecido durante gerações: a velha ideia de que o cérebro para de se desenvolver quando chegamos à idade adulta.

Essa ortodoxia agora era substituída por um novo paradigma, chamado neuroplasticidade. O cérebro, na verdade, está constantemente se modificando em resposta às nossas experiências.

É possível esculpi-lo com a meditação, assim como aumentamos e tonificamos os músculos por meio de exercícios físicos. O que a ciência estava mostrando era que nossos níveis de bem-estar, resiliência e controle de impulsos não são traços de nascença, parte de nós que devemos aceitar como fato consumado.

O cérebro, órgão da experiência, através do qual vivemos nossas vidas, pode ser treinado. A felicidade é algo que aprendemos a cultivar.

Razões egoístas para não ser um babaca

Havia estudos científicos de ponta dando sustentação ao argumento do Dalai Lama de que tentar não ser um babaca faz bem à própria pessoa, e não apenas aos outros. Na Universidade Emory estavam realizando uma pesquisa com pessoas comuns que haviam passado por um breve curso sobre meditação para compaixão.

Essas pessoas eram colocadas em situações estressantes em laboratório, incluindo ter uma câmera de TV apontada para elas. Os cientistas descobriram que o cérebro dos meditadores produzia doses significativamente menores de cortisol, o hormônio do estresse.

Ou seja, a prática da compaixão também parecia ajudar o corpo a lidar melhor com o estresse. Isso tinha consequências importantes, pois a produção excessiva de cortisol contribui para causar doenças cardíacas, diabetes, demência em idosos, câncer e depressão.

E nem era preciso meditar para obter os benefícios da compaixão. Imagens de ressonância magnética do cérebro mostraram que atos de bondade causavam reações mais semelhantes a atos prazerosos do que a atos rotineiros.

Os mesmos centros de prazer eram iluminados quando a pessoa recebia um presente e quando doava algo para caridade. Neurocientistas se referiam a isso como “efeito brilho caloroso” do altruísmo.

Pesquisas também revelaram que as pessoas mais variadas – de idosos a alcoólatras e a pacientes de AIDS – viam sua saúde melhorar quando trabalhavam como voluntárias em ações beneficentes.

De forma geral, aquelas que sentem mais compaixão tendem a ser mais saudáveis, mais felizes, mais populares e mais bem-sucedidas. Para convencer pessoas que não transbordavam naturalmente de bondade amorosa, havia evidências de que meditar para compaixão pode nos tornar mais bondosos.

A equipe do cientista Richard Davidson, um dos maiores expoentes nessa área de pesquisa, realizou estudos que mostraram como as pessoas que aprenderam a meditar para compaixão tiveram aumento de atividade cerebral nas áreas associadas a empatia e compreensão.

Houve um estudo que pediu às pessoas que usassem um gravador durante vários dias para registrar suas conversas com os outros. Ao final do período, os meditadores demonstraram mais empatia, passaram mais tempo com outras pessoas, riram mais e usaram menos a palavra “eu”.

A pesquisa sobre compaixão era parte de uma grande mudança de perspectiva da psicologia moderna. Durante décadas, os cientistas se concentraram em catalogar patologias, mas agora estavam voltando sua atenção para emoções positivas, como felicidade e generosidade.

Essas pesquisas contribuíram para uma nova visão da própria natureza humana, afastando-se do paradigma dominante focado no lado escuro de Darwin – ou seja, a sobrevivência dos mais fortes.

Na visão antiga, o ser humano era totalmente egoísta e a moralidade era apenas uma fina camada de verniz.

Já a nova visão leva em consideração um ramo do pensamento darwiniano há muito tempo sem receber a devida atenção: ele observou que tribos onde os membros cooperavam entre si e se sacrificavam uns pelos outros geralmente eram “mais vitoriosas em relação a outras tribos”.

Esconda o zen

As coisas finalmente começaram a melhorar no trabalho. No topo da lista de tarefas que eu mantinha no celular, nosso autor escreveu: “mostre mais vontade e mais trabalho” e “seja o cara que lidera”.

Apesar de nunca ter sido o tipo de pessoa que usa slogans de inspiração, ler aquelas frases toda vez que checava sua lista era bastante útil.

Começou, então, a dizer sim para todos os pedidos de reportagem que faziam na emissora, mesmo os menores – da mesma maneira que fazia quando era novato. Isso foi notado.

Pode voltar a sugerir reportagens especiais e fez várias coberturas interessantes. Mas a matéria da qual mais se orgulhou exigiu que passasse dois dias trancado numa cela solitária.

A ideia era chamar atenção para o debate crescente sobre esse tipo de encarceramento ser equivalente a tortura. A direção de uma penitenciária permitiu que ficasse preso numa cela cheia de câmeras.

Durante aquele tempo, teve que suportar o tédio, a péssima comida, a claustrofobia e os gritos constantes dos vizinhos nas outras solitárias, muitos deles sofrendo ataques de nervos.

Nosso autor acordou na primeira manhã com uivos animalescos do preso na cela logo no andar debaixo da sua. Gritou durante horas. Outros estavam gritando só para desabafar e passar o tempo.

O tempo que passou ali foi importante para reconhecer mais uma vez as limitações da meditação – ou, ao menos, os limites da sua própria habilidade nessa prática.

Antes de entrar na cela pensava que poderia ficar meditando na maior parte do tempo, mas o barulho e a falta de privacidade – com câmeras por todos os lados e os guardas espiando dentro das celas toda hora – tornaram isso quase impossível.

Nessa fase de trabalho intenso, quando tinha menos tempo para dormir, se exercitar e meditar, ele podia sentir seu monólogo interior ficando mais nervoso também – e não conseguia reunir forças para lutar contra aquela voz dentro da cabeça.

“Eu estava com cara de cansado no programa de hoje. Meu cabelo está feio. Não acredito que um cara no Facebook comentou que eu era um tremendo palhaço”.

O ego, aquele filho da mãe insidioso, usava a fadiga como uma oportunidade para ultrapassar defesas enfraquecidas. É por isso que, em nossa jornada para a felicidade, é crucial combatê-lo sem trégua.

Notas finais

Para finalizar, trazemos até você, caro leitor do 12’, “O Caminho do Meditador Preocupado”:

  • não seja um canalha: uma das maiores vantagens de praticar a compaixão consiste na possibilidade de conquistar aliados estratégicos. De quebra, você se torna mais realizado e feliz;
  • quando necessário, esconda o seu lado mais complacente, isto é, o zen: embora seja importante se mostrar afável, você não ganhará nada se não reagir ao ser maltratado;
  • medite: isso traz inúmeras vantagens para corpo e mente, melhorando sua saúde e o seu poder de concentração;
  • o preço da segurança é a insegurança – até isso não ser mais útil: mantenha-se vigilante, diligente e capaz de alcançar seus objetivos mais ousados. Fome e perfeccionismo também são energias poderosas a serem exploradas;
  • a tranquilidade não inibe a sua criatividade: ser mais feliz não faz com que você se torne um zumbi;
  • não seja inoportuno: é difícil abrir a tampa de um pote quando todos os músculos do seu braço estão retesados;
  • humildade previne humilhação: nós somos os astros dos filmes das nossas vidas, mas, para tornar sua via mais fácil, reduza o número de pensamentos no estilo “você sabe com quem está falando?”

Dica do 12’

Leia também “Grit to Great” e confira como a perseverança e o esforço superam qualquer talento inato em qualquer situação!

Cadastre-se e leia grátis!

Ao se cadastrar, você ganhará um passe livre de 3 dias grátis para aproveitar tudo que o 12min tem a oferecer.

ou via formulário: